segunda-feira, 21 de setembro de 2009

Uma dessas coisas que a gente deseja

“Quero o de sempre”, disse, ao encostar no balcão da padaria. A atendente me fitou por alguns minutos, tentou me reconhecer, pensou e indagou: “E o que seria, senhor?”

“Você não sabe?”, esbravejei, enquanto tomava fôlego para o meu discurso: “Quero a paz! A paz sempre. Embrulha num papel pardo uns dois quilos para eu levar para casa e ter de sobra para ir distribuindo pelo caminho”. Ela me olhava atônita. Devia pensar que eu era louco. Com um sorriso entre os lábios, inventou uma resposta: “Não temos isso senhor. Mas temos bomba, sonho, carolinas...”

“Eu quero 100 gramas disso tudo, mas quero Paz. Dois quilos, por favor, que eu estou com pressa”. Ela travou. Ficou me olhando como se tivesse dó e precisasse ajudar alguém que tinha perdido o norte. Engoliu seco e disparou, dessa vez sem nenhuma cortesia: “Não se vende isso em padarias, senhor”. Aquilo fez meu sangue ferver: “Como não? Deveriam vender! Onde está a gerente, quero falar com a gerente!”. Nesse momento, a padaria inteira olhava para mim e o chapeiro grandalhão já me encarava sem paciência. Percebi que, realmente, não tinha paz ali. Essas coisas mais subjetivas não são vendidas na padaria da esquina. Vou procurar em outro lugar em que eu seja compreendido e possa dizer: “Hoje, o de sempre, por favor!”

Entre Aspas: O futuro pertence àqueles que acreditam na beleza dos seus sonhos.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

A vaca

Foi uma noite de estrelas: de dor e de prazer. Era uma vaca branca, de olhos miúdos e claros. Ruminava, como todas as vacas. Mas seu mugido era diferente, como se fosse estrangeira e tivesse sotaque na hora de soltar o som comum aos da sua espécie. Isso cansava um pouco, já que emitia esse ruído sem parar. Parecia querer dizer algo. Na verdade dizia, mas não era compreendida. Mexia-se dentro do seu quadrado, se coçava com o rabo e tremelicava seu coro para espantar os mosquitos.

Era uma vaca de raça, não se botava dúvidas sobre isso, mas tão ordinária quanto todas as outras. Depois de me aproximar e encará-la, resolvi me afastar rapidamente, tomando o cuidado de olhar para trás e garantir que ela continuaria lá, dentro do seu quadrado, mugindo, coçando e ruminando. Uma vaca! (15/08/09)

Entre Aspas: Uma pessoa não é só um amontoado de frasesinhas supostamente brilhantes. Caio F.

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Tenho escrito frases soltas tão ricas, completamente sem nexo, por nenhuma razão. Jamais seriam entendidas, talvez um dia sejam publicadas, às vezes penso em picha-las, sempre custo a acreditar nelas.

sábado, 15 de agosto de 2009

Crônica de uma vida real e imaginada - Dos Negos

– Firmeza, Nego Drama?!
– Beleza, mano! – responde, surpreendido, o negro de quase dois metros de altura, que circula com seu gingado e cabelos trançados pela Praça da República, em São Paulo (SP). O rápido diálogo entre dois manos das quebradas do centro paulistano dá novo ritmo às passadas rápidas de dois jovens que cruzam por eles. Eles continuam andando com pressa, mas agora tremem os corpos em gargalhadas sonoras e uma conversa entrecortada por lembranças de um tal Nego Jhow, que fez parte do cotidiano de ambos, quando cursaram a faculdade juntos.

Riam dessas coincidências, do quanto o tal cara era inconveniente e falavam da lenda que se tornou na universidade por circular por anos a fio pelos corredores procurando novas amizades, ou vítimas para suas conversas e investidas, dependendo da sua interpretação.

Tentavam imaginar quem era o Nego Drama e o que ele representava por essas bandas. Não quiseram ficar ali para conferir e nem ousaram ter a pretensão de perguntar isso. Na verdade, não pensaram nessa hipótese e, a essa altura, já alcançavam a Rua General Jardim e chegavam atrasados a mais uma aula de pós-graduação. Pena a Academia Brasileira de Jornalismo Literário ser pequena demais para abrigar um desses negos cheios de histórias e lendas.

Enquanto isso, Nego Drama, continuava exibindo seu gingado de passos firmes e malevolentes pela Praça da República. Já Jhow, prosseguia dividindo espaço com as capivaras, com seu colete ‘a prova de balas’, sua calça social, seu papo dúbio e sua intelectualidade forjada. De outro mundo mesmo. Aqui, Nego é drama, meu!

* Cena vivida por Maria Fernanda e Guilherme em abril de 2009 e recriada na imaginação do segundo em agosto do mesmo ano.

Entre Aspas: Nem toda loucura é genial, assim como nem toda lucidez é velha. Chico Buarque.

PS: Esse texto é o primeiro que reproduz histórias a partir de diálogos entrecortados ouvidas na rua, no metrô, na padaria... Uma rápida carona na conversa alheia para viajar em mundos desconhecidos. Prometido há algumas semanas, concretizado agora e - pelo menos para mim - com gosto de quero mais para os próximos dias.

segunda-feira, 10 de agosto de 2009

Eu moraria em São Paulo - 2 anos!

Há dois anos fiz minha primeira viagem, de verdade, a São Paulo. Foi naquele agosto de 2007, que conheci a imensidão da cidade, onde vivo hoje, e vislumbrei as milhões de possibilidades que ela oferece. Vim para fazer a prova de trainee do Estadão. Não passei, mas ali tomava gosto pela cidade e afirmava: Eu moraria em São Paulo.

Cá estou hoje, morando na mesma Barra Funda em que me hospedei temporariamente há dois anos, achando que tudo isso não passa de um sonho louco acalentado no dia a dia e republicando o texto sobre a capital paulista que produzi quando voltei para Campo Grande. Veja aí:

http://www.diasdeguilherme.blogspot.com/2007/08/eu-moraria-em-sao-paulo.html

Entre Aspas: Eu sou aquilo que sonho. Eliane Brum.

Entre Aspas 2: Nosso olhar sobre o mundo, muda o mundo. Eliane Brum.

PS: Aliás, aos poucos, estou recuperando os textos antigos do meu blog anterior e publicando aqui. Abraço.

Abaixo foto da Praça da Luz, citada no referido texto escrito há um biênio. (expressão pomposa, nem sei se cabe nesse caso)

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Como um conto de Clarice

Voltava feliz para casa depois de lembrar de passar na padaria predileta e comprar os pães que classifica como deliciosos. Curtia a brisa de um fim de tarde bonito, após um dia de julho mais quente que o comum em São Paulo. Havia sido um dia pouco produtivo no trabalho, mas nem isso incomodava mais. Caminhava pensando na vida, ziguezagueando pelos cerca de 20 quarteirões que separam o local de trabalho da casa.

Percebeu que atravessava o trecho de uma rua que nunca tinha estado antes. Sorriu internamente. Gostava de transitar por novos lugares, ver novas paisagens. Passaria pela lateral do metrô Marechal Deodoro e alcançaria a General Olímpio da Silveira, a avenida que carrega consigo o Minhocão, seu vizinho ilustre.

Foi aquela senhora sentada ao lado do metrô que lhe tirou do cerne. De olhar perdido e cheios d’água, ela parecia mastigar alguma coisa. A cena durou meros segundos, mas o tapa na cara foi tão forte que o sente até agora. Havia caído do seu pedestal e se juntado a ela. Talvez nunca mais fosse a mesma pessoa. Aquela imagem reverbaria por muito tempo em sua cabeça.

Os outros moradores de rua não pareciam sensibilizar mais, já quase se encaixavam no quadro que retratava seu cotidiano. Mas aquela senhora ali, indefesa com um problema nos olhos, passando por todos os terrores da rua. Não teria casa? Filhos? Alguém que a ajuda? Dormiria aquela noite ali, sentada ao lado do metrô?

Teve vontade de pegar sua mão e conduzi-la até sua casa. No caminho, se apresentariam e saberiam tudo o que é possível de uma vida em dez minutos. Longe da rua, limparia seus olhos com colírio e algodão, pentearia seus cabelos grisalhos e desgrenhados e esquentaria suas mãos frias e trêmulas. Ouviria suas histórias e conselhos de vó. Talvez colocasse a cabeça em seu colo e fecharia os olhos enquanto ela faria cafuné. Não fez nada disso. Quando se deu conta, seus passos largos já tinham afastado daquela senhora.

Pelo menos os pães poderia ter dado a ela. Nem isso. Quando o trajeto estava completo e finalmente, passava manteiga no pão para saboreá-los, engoliu-os com desprezo de quem estava em dívida com alguém. Tinha vontade de fazer sua parte e despejar seu conta-gotas no incêndio que é a miséria em São Paulo. Naquela noite nada fez.

No outro dia, acordou e ao pentear os cabelos, era como se sua imagem refletisse a da velha. Cabelos desgrenhados, olhos cheio d’água, boca mascando. Estava fora de si. Piscou os olhos novamente afastando aquela cena incômoda. Voltou para a rotina mecânica tentando esquecer tudo o que aquilo representava. Até conseguiu durante metade do dia. Mas depois do almoço, voltava para o trabalho, quando viu um outro morador de rua que dormia sobre a mão calejada e estendida, como se pedisse esmola mesmo durante o sono. O contraste da sujeira negra dos dedos, da mão branca e suas marcas, trouxeram à tona todos aqueles sentimentos de novo. Tinha culpa engasgada em seu ser. Não teria jeito, precisava agir.

***
+ Texto dedicado à Amanda, amiga poconeana, que me lembra os personagens de Clarice e nem liga mais pra mim.

Entre Aspas: Gostaria de, com o meu trabalho, levar um pouco de conforto para os aflitos e um pouco de aflição para os confortados. Galbraith

quarta-feira, 22 de julho de 2009

É tudo verdade (!) (?) (...)

Saí do trabalhado estressado naquela noite. Tinha vontade de xingar todo mundo que via pela frente. Não que tivesse acontecido algo ou que houvesse motivos aparentes para isso. Até tinha, mas era apenas um sentimento, um desejo. O jeito seria ir para um bar beber e relaxar.

Sentei no balcão e pedi uma pinga. Virei aquela dose em um gole e parti para a segunda. Engatei um papo sobre amenidades com um desconhecido. Dissequei uma garota bonita que tinha uma bunda que dialogava com meus olhos. Ela devolveu o olhar. Tudo fez sentido naquele momento. A vida era aquilo e não o resto que tinha vivido até então. Quando dei por mim, naquela noite que minha boca era de qualquer boca, beijava com urgência seus lábios vermelhos e apalpava seu traseiro volumoso.

Quando parei para retomar o fôlego, não reconhecia meus atos. Mal conhecia aquela mulher, não a amava, mas era tudo o que tinha e precisava naquele momento: alguém que pudesse abraçar e chamar de minha! Resolvi saboreá-la um pouco mais. Afinal, não é todo dia que seu objeto de desejo também quer te consumir (sou politicamente correto demais para escrever “comer” aqui).

De súbito, meu rosto enrubesceu, larguei seus lábios, pedi um cigarro a um homem que parecia interessado em participar da cena e fui embora sem pagar a conta, dando baforadas descoordenadas. Quem lê pensa que tudo isso é verdade. Essa história ocorreu, parte na realidade, parte na imaginação fértil desse que vos escreve. Mas foi tudo assim, pelo menos na história que construí mentalmente a caminho do bar e escrevi ao chegar em casa.

Não sei se reconheceria aquela mulher se cruzasse com ela na rua. Será que era uma prostituta, apesar da aparência solitária e refinada? Como terá acabado a sua noite? Teria resistido aos olhares do homem que me deu um cigarro em troca da minha ausência naquele recinto? Minha fantástica máquina de criar se abstém de tentar teorizar sobre isso.

O estresse havia passado, o rosto estava quente, a língua anestesiada e a cabeça...Bom, essa estava melhor ocupada e agora com o cérebro mole, escorrendo pela caixa craniana.

– Mais uma dose de pinga, por favor!

***
Entre aspas: Se os fatos não correspondem à realidade, pior para os fatos. Nelson Rodrigues.

Entre aspas 2: Assim como a gente se arruma para sair, literatura é se arrumar por dentro. Deixar a solidão vistosa. Fabrício Carpinejar.

PS: Não me reconheço vivendo ou escrevendo essa história. Ainda bem que, teoricamente, só a Marina lê meu blog.