sábado, 25 de setembro de 2010

Reflexões sobre o amor

Cada um de nós é um mundo. Vários mundos. O mundo das moléculas, do corpo, dos sentimentos, dos pensamentos... Um mundo que dá nome, idade, filiação, que tem procedência, ocupação (futuro, objetivo?). Dela, eu não sei nada desse último mundo. Sei que está arrepiada de frio, que a coberta lhe deu alergia, que gosta de fazer e receber carinho na nuca. Sei que gosto de fazer parte desse mundo.

Admiro os seus silêncios. Há um mistério, os outros mundos a serem descobertos. Às vezes, tenho vontade de fazer todas as perguntas de uma só vez. Mas sei que as repostas não serão tão sublimes quanto esses espaços que aos poucos podem ser completados. Na verdade, a minha maior dúvida é se seriam as respostas que trariam tédio ao amor?

***

- Será que um dia serei o cara que segura o bebê no supermercado enquanto a mulher escolhe a melhor alface para o jantar?

***

O amor é impalpável. São os silêncios, os barulhos. É como o jornalismo que a gente quer: utópico – e talvez inalcançável.

***

É um toque de vida. É a vida. Então, porque a gente dificulta tanto?

***

- Às vezes, acho que a vida a dois não é para mim. Não que eu não saiba amar. É que meu amor é fácil demais para complicar com as regras sociais, pactos eternos e burocracias cotidianas. É possível o amor sem a rotina?


[15/08/2010]

Entre Aspas: Morremos tão pouco de amor, e nos matamos tão pouco de amor. Não quererá isso dizer que somos uns pobres, uns desgraçados impotentes do sentimento? Nelson Rodrigues.

Entre Aspas 2: João amava Teresa que amava Raimundo que amava Maria que amava Joaquim que amava Lili que não amava ninguém. João foi para os Estados Unidos, Teresa para o convento, Raimundo morreu de desastre, Maria ficou para tia, Joaquim suicidou-se e Lili casou com J. Pinto Fernandes que não tinha entrado na história. (Quadrilha) Carlos Drummond de Andrade

domingo, 12 de setembro de 2010

Em busca do tesão perdido

Esse é o movimento que guia o mundo. É atrás dele que escrevo, que venho a esse espaço de quando em quando... É por isso que você está aí, trabalhando, estudando, namorando, vivendo... E assim vamos almejando um tesão que tínhamos na infância, antes mesmo de entender o significado dessa palavra – talvez a única grande falta no mundo infantil. Ou querendo aquele gosto da sede adolescente de conhecer o mundo. Ou ainda de sentir-se tomado pelo desejo juvenil de mudar esse mesmo mundo...

Mas ele perdeu-se bem antes. Deve ter sido lá com Adão e Eva. E a gente procura essa maçã com um desejo fugaz. Uma vontade que faz dobrar a esquina para desdobrá-la em seguida. Tem gosto vermelho. Alimenta-nos de polpa açucarada. Esquenta e esfria. Embebeda-nos com seu líquido carnudo. Surge de um desejo cru, mas come-se como um bife encorpado e seu suco peculiar. É a luta, o objetivo do dia-a-dia. E até por isso, nem todo dia tem.

Não chega a se esconder atrás do arco-íris, mas está sempre um passo a nossa frente. Move-se a medida em que avançamos em sua direção. O orgasmo, mesmo que múltiplo, é passageiro. Quando apalpo ou sou acariciado pelo que queria, já deixou de ser... Com sua efemeridade, esgota-se, renova-se. Exige mais. E é por isso que sempre volto a escrever aqui. [Tesão perdido onde está você agora?]

Entre Aspas 1: Perseguir sua paixão é como pegar o último ônibus da noite. Glabe Byron.
Entre Aspas 2: Afinal, ser feliz para conseguir o quê? Clarice Lispector.

sábado, 31 de julho de 2010

Elevado


Ousei ficar sentado ali por alguns minutos. Estava a alguns metros de casa, mas testava a vulnerabilidade daquele lugar. Às 2 horas de domingo, o Minhocão era um local inóspito. Um outro cara, sentando no mesmo canteiro que eu, escrevia algo. Mais adiante, um grupo de jovens confraternizava e provavelmente consumia drogas.

O ar era fresco. Libertava o meu corpo da morte e deliciosamente aguçava a sensação de estar vivo. O céu era azul marinho acinzentado. Assim como não atingia o tom azul celestial durante o dia, não conseguia ser preto de noite. Os prédios pareciam tocá-lo e afugentar as estrelas, a lua...

Os carros não param de passar lá embaixo. A vida a correr. Eu, mesmo sem convites para uma noitada, consigo sentir a noite por completo. E ela chega intensa no meu ser. E com meu bloquinho, empunhando meu lápis, me sinto acompanhado. Um delicioso fim de sábado e início de uma nova semana.

Nos apartamentos,luz e vida, gente acordada. Um cara mal-encarado de bicicleta ronda meu entorno. Se não for assaltado... e não fui... volto para casa agora. A noite exala tão plena que já sou capaz de viver uma semana toda embalado por esse gosto doce. É melhor ir e terminar assim, com uma boa noite (...)!

[25/04/2010]

Entre Aspas: Será que usamos o cotidiano para fugir da angústia de existir? Da peça "Um Dia a Menos" baseada na obra de Clarice Lispector.

sábado, 26 de junho de 2010

Aos 30, as pessoas são perigosas – assassinas em potencial


É um samba que virou marchinha e se encaminha para ser valsa. Há paixão, ódio e juventude acumulados. Uma unidade interior, uma malícia no ar. Já sabe como se divertir, o que lhe dá prazer (e isso tira todo o frescor das descobertas). Não que já saiba tudo, mas essa canja torna-se um limite imaginário.

– Já tem 30 anos, não tem idade mais para... – grita a sociedade em sua direção.

Há o estabelecido e o por vir. Não lhe dão direito de errar como o jovem, nem de ser extremamente brilhante e virar referência como é concedido aos que já têm mais de 40.

É um dueto, menos doce, mais grave, que dança, gravita. Habita as primeiras rugas, as últimas espinhas. O último cigarro, o primeiro sopro. O último frescor, as primeiras asperezas. É o auge e a decadência. Com isso, estão sempre a um passo de se vangloriar pelas suas realizações ou sucumbir a um fracasso acumulado. Deixa de ser promessa e passam a lhe exigir pronta-entrega. De filho precisa virar pai. Um carro, uma mulher, uma casa e uma dívida no banco. Uma viagem ao exterior, status na profissão e sem porres no fim de semana.

É um adulto, adúltero, corno... e exibe tudo isso com um ar cheio de si. Possui conhecimento de si mesmo, caráter definido e vivência o suficiente para, por exemplo, decidir matar alguém. E isso não será um rompante juvenil ou o recalque de quem se amargurou e decidiu fazer isso depois dos 40. É, portanto, um ato consciente. Plenamente. E ele tem muita vida e alguma juventude para pagar pelo crime. É isso que os torna perigosos.

[Talvez, aos 30, descubra que nada muda. Mas esse texto me atormenta para vir para fora e preciso concebê-lo. Talvez só para daqui um pouco mais de meia década descobrir o quanto se é juvenil aos vinte e poucos e o quanto ter 30 é menos um peso e mais um número. Mesmo assim, cuidado: aos 30, eu, você, nós, podemos matar ou morrer (sem enganos?).]

PS: A potencialidade das pessoas de 30 em serem assassinas pode ser canalizada para se tornarem suicidas.

Entre Aspas: A mulher pode ter qualquer idade. Não o homem. O homem não pode ter dezoito anos, ou quinze. Aos dezoito anos, não sabemos como se diz “bom dia” a uma mulher e não podemos fazê-la feliz, em hipótese nenhuma. Para o homem, o amor não é gênio, não é talento, e sim tempo, métier, sabedoria adquirida. Fiz as considerações acima para concluir: – o homem devia nascer com trinta anos feitos. Nelson Rodrigues.

sábado, 19 de junho de 2010

Depois que o sol se vai

A lua já terminou sua escalada e agora se exibe inteira e luminosa. Um brilho de quem quer encantar aqueles que só pensam em sua própria escuridão tentando abafar seus silêncios com uma profusão de barulhos.

Tentativa que vai se mostrando em vão. À medida que a noite cai e o frio chega, todos vão tendo que se recolher e conviver consigo mesmo. É aí que a noite começa de verdade!


Estação

Nem sempre conseguimos descer do trem depois do aviso e antes que a porta feche. Podemos sorrir ou chorar. Mas o trem continuará a viagem e outros virão.

domingo, 13 de junho de 2010

O caminho da literariedade

Era um menino que gostava de escrever. Adorava os telejornais, o caderno infantil dos jornais, os gibis e os livros. Os textos eram sempre criativos, longos, fluídos e elogiados pelos professores da escola. A escolha da profissão foi um processo natural, sem dúvidas. Era jornalismo o curso que eu queria.

Eu, negro, de família humilde, de um bairro de periferia de Campo Grande (MS) ingressava na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul. Não sabia o quanto aquilo representava. Um mundo novo se abriu. Vários mundos se apresentaram. Logo de início, conheci as narrativas, o jornalismo humanizado e sistêmico. Fui aprendendo a mesclar razão e emoção, ser ético e cuidar da estética do que eu escrevia. Aliar objetividade e subjetividade. Assim fui construindo como jornalismo. A cada capítulo da história, dessa história que é minha, fui me forçando a melhorar, a buscar mais.

Conhecia o Texto Vivo, sabia da pós-graduação de Jornalismo Literário, mas achava-a distante. Terminei a graduação escrevendo um livro-reportagem que contava a história de cinco famílias que adotavam crianças. Lá estavam as narrativas, a imersão, a subjetividade, a humanização. Queria continuar estudando. Fiz pós-graduação em Teorias e Práticas Contemporâneas do Jornalismo, a única em jornalismo que existe na cidade quente de 800 mil habitantes em que nasci e cresci.

Lá havia uma disciplina de Jornalismo Literário e foi nesse caminho que segui na monografia. Li textos feitos com técnicas de Jornalismo Literário, pesquisei e quase vim para o seminário em 2007 organizado pela Academia Brasileira de Jornalismo Literário. Campo Grande tinha ficado pequena. Meu desafio lá era conhecer e tentar praticar JL. Impossível em meios tradicionalistas que nunca ouviram falar na prática e estavam poucos dispostos a mudar.

Em 2008 decidi que aquele seria meu último ano em Mato Grosso do Sul. Quando ocorreu a semana de Jornalismo da Uniderp, uma universidade privada local, fui convidado a participar de uma mesa-redonda. O tema do encontro naquele ano era Jornalismo Literário. A abertura foi com Edvaldo Pereira Lima. Eu me esbaldei. Articulei uma entrevista e consegui página inteira para falar de Jornalismo Literário em um jornal que fazia questão de ignorá-lo.

Vir para São Paulo era uma questão de tempo. Fui mantendo contato com Edvaldo e sabia que a pós começaria em fevereiro/março de 2009. Fui preparando para fechar minha vida em Campo Grande e começar do zero em São Paulo. Economizava grana, terminava a monografia da outra pós e ia tentando olhar para fora do meu quadrado.

O ano terminava e sabia que a mudança era inevitável. Ela latejava dentro de mim. Na chegada de 2009, sabia que aquele não seria um ano como os outros. Era a chegada de aquário, hora de inovar. Tinha que comunicar minha decisão à minha mãe, ao jornal em que trabalhava e aos amigos. Assim o fiz. Todos olharam com desconfiança. Muitos me acharam corajoso. Alguns temerosos, recomendaram parcimônia – Será que é a hora? Não é melhor esperar essa crise mundial passar? – questionou um colega de jornal. Respondi que aquela era a minha hora e que estava disposto enfrentar desafios e correr riscos.

Mesmo que não conseguisse me firmar em São Paulo, sabia que naquele momento precisava sair. Fui me desligando do jornal, as relações com as pessoas ficavam mais intensas. Cada amigo que encontrava na rua dava um aperto no peito, podia ser a última vez que o veria em muito tempo. Mandei minha ficha com dados e recebi o boleto para pagar a matrícula. As coisas começavam a se concretizar.

Recebi um e-mail da secretaria da pós pedindo documentação. Fiquei de enviar pelo correio e protelei até que pudesse entregar pessoalmente no primeiro dia de aula. Alguns amigos ainda aconselhavam que não pedisse demissão e que apenas saísse de férias do jornal em que trabalhava. Eu dizia que não adiantava, que era teimoso, que um mês era pouco para arranjar emprego em São Paulo e que, por mais que não tivesse dinheiro para me bancar muito tempo na cidade sem trabalho, iria resistir até onde pudesse.

“Jornalismo Literário?!” Alguns torciam o nariz. Eu sempre falava empolgado, com paixão nos olhos, brilho e sentimentos que acabavam convencendo que aquela era a atitude certa. Uma história com muitos coadjuvantes, amigos que incentivaram, ponderaram e que sentiram minha ausência. Sentimento recíproco de quem encerrou um ciclo em 28 de fevereiro de 2009 (último dia em que trabalhei no jornal) e começou um novo em 2 de março (o dia em que cheguei em São Paulo, o primeiro dia de aula). Aqui estou eu, empregado, contando essa história, construindo novas histórias, pronto para viver esse sonho possível que a cada dia se concretiza.

[5 de maio de 2009]

Entre Aspas I: Seja a mudança que você quer ver. Autor desconhecido por mim.

Entre Aspas II:Para ter algo que nunca teve, é preciso fazer algo que nunca fez. Autor desconhecido por mim.

domingo, 6 de junho de 2010

Do sertão para o mar*


- É preciso que alguém cuide dos cavalos - , murmurou Sebastião ao abandonar os animais amarrados e ir procurar alimentos na floresta.
- Mas por quê? -, questionou Eleonor, acreditando que eles ficariam parados, esperando que voltassem.

Depois de 400 quilômetros de cavalgada era natural que eles também quisessem descansar. Após amarrar os animais em árvores, os dois entraram mata a dentro a pé e finalmente ouviram barulho de água. Havia uma cachoeira, árvores frutíferas e fauna diversificada. Era tanta vida que transitava no meio daquele verde que os dois ficaram boquiabertos. O sertão havia ficado para trás.

- Ah, que surpresa! Estava bem longe encontrá-lo -, deliciou-se Eleonor, ao se deparar com o rio e lembrar que pensou em desviar o caminho, pegando um atalho que os levariam em direção oposta.

O casal estava maravilhado com a cena e já sentia que a jornada tinha valido a pena. Ainda não sabiam o quanto teriam que percorrer para achar o mar e nem se conseguiriam chegar até ele em tais condições. Mas esse era o sonho de uma vida, o objetivo de toda uma gente e que a cada dia se tornava mais próximo.

A mulher, no entanto, começava a vacilar em suas metas. Será que achariam o mar? Não era melhor parar e garantir a estadia naquele lugar paradisíaco? Precisavam continuar e arriscar a vida em uma busca em que o resultado era incerto? - Ah! São coisas que sucedem! – respondeu o marido, com a tranquilidade de quem tinha certeza de que o melhor estava por vir.

Sentiram-se plenos com a vista e recarregaram energias, livrando-se das incertezas. Começaram a voltar. Os cavalos se deliciavam brincando com seus rabos. O macho tentava pegar a égua a força, quando Sebastião disparou: - Eh! Que fazes tu, a vagabundear?

Montaram após alimentar e darem água aos animais. O macho maior, marrom e brilhante não demonstrava cansaço. Já a égua tinha cor clara e já cavalgava mais vacilante. O casal também conversava menos. A mulher que antes declamava poesias, entoava cânticos, agora apenas respondia: - Vou ver - , quando o marido questionava sobre o mar.

Estavam há 20 dias na estrada. O tempo tinha sido intenso nesse período. Marcou o casal centenário (ambos tinham 50 anos e já aparentavam 60 com a jornada). Seguiram por uma estrada de chão, passaram por uma boiada e foram vistos às margens de uma BR movimentada. O mar chegou perdendo-se em sua imensidão azul e os chamou. Entraram com animais e tudo. Nunca voltaram a Cacoalzinho, no serão pernambucano.


*Texto produzido como exercício na pós em jornalismo literário. Tínhamos que criá-lo a partir dos diálogos dados pelo professor.
Com o tempo aprendi a publicar mesmo aquilo que não acho bom. Escrever é o que importa.

Entre Aspas: Escrevo uma página de obra de arte e 91 páginas de lixo. Tento por o lixo na lixeira. Ernest Heminguay.

sábado, 29 de maio de 2010

Cheiro de sábado*

A chuva desce como se fosse sábado. Das sacadas escorre como se pudesse tranquila cair das pequenas varandas dos apartamentos do 585. Protegida, repousa a esteira, a passadeira, o varal, a lavandeira, a cadeira... Também é dia de feria, lembra o entregador que desce a rua plainar, como se sábado fosse e descesse devagar. Ocupa os lugares que durante a semana são dos carros e que hoje fogem da rua para não precisarem se isentar das taxas para estacionar.

Os sons fluem como se a calmaria tivesse tomado conta do bairro. Crianças brincam, o forró esquenta, a bola roda, o cabeleireiro pesca a falta de uma festa que capturasse fregueses. A chuva espanta, mas calma, volta a dar lugar ao sol.

Nada é intenso. Tudo ocorre calmo, como uma tragada prolongada no cigarro e corre como a fumaça que faz ondas e some no ar. Está tudo indo, vindo, saindo, caindo e partindo na General Jardim. Nada parou, mas a semana tem gosto de fim – e como é sábio o tempo, que permite que se corra sem precisar andar.


[novembro de 2009]

*Texto produzido em escrita rápida durante aula de pós-graduação. (mais um da série chuva...)

Entre Aspas: O fim atrapalha todo o meu voo. Mário Peixoto.

domingo, 23 de maio de 2010

Café*


Era uma tarde de domingo, o que deixava tudo com ar mais grave. Chovia. E isso tornava o clima ainda mais tenso. Passos carregados de água, carros cortando as gotas e o café quente descendo a garganta fazem seus olhos se arregalarem ainda mais. Poderia assassinar alguém para aliviar tudo isso. Um desconhecido ou aquela atendente feia que insistia em não olhar nos seus olhos?

Precisava ser logo. O azul escuro predominava o céu, anunciando o preto da noite. A mesma cor da camisa que vestiu no outro dia para ir ao enterro de sua vítima. Costumava fazer isso. Aquela moça sem graça nunca mais serviria cafés com cara azeda. Não voltaria a esquivar-se de responder “boa noite”, “obrigado” e “por favor”, lançados por ele. Ao ver o caixão aberto, surpreendeu-se com uma característica: esboçava um sorriso. Ato que nunca a viu fazer em vida. Pelo menos, não nos 15 minutos em que conviveram. Saiu do cemitério com a sensação de dever cumprido: mais uma alma estava liberta.

[14/03/2010]

*Amanhã, 24 de maio, é comemorado o Dia Nacional do Café.

Entre Aspas: Uma tarde de domingo mora dentro de mim. GSD.

sábado, 15 de maio de 2010

Tarde chuvosa*


Quando o sol se esconde atrás das nuvens, lá vem a chuva molhar o gato que passeia pela rua. A dona-de-casa, que volta do supermercado com as compras para o almoço, tenta se proteger com uma das mãos. O motoqueiro apressadinho acelera, mas fica num buraco na esquina. A jovem universitária já se recusa a sair de casa, o cabelo com chapinha não pode molhar.

Seu Pedro adiou mais uma vez a procura de emprego: “Chovendo hoje?! Então, nem pensar”, justificou à esposa. Quem mais naquela rua ousaria a sair de casa? Paulo, o nerd, ficou na internet. Suzana, a vizinha gostosona, preferiu um filme na Sessão da Tarde. Ah! O Paulo e a Inês, o casal apaixonado e recém-casado do 911, resolveram tomar banho de chuva e namorar. Dividem espaço com as crianças do 615, que logo são repreendidas pela mãe.

A enxurrada desce vermelha, colorindo a rua de asfalto e lavando a sujeira deixada pelos muitos cães que transitam por ali. A cena toda é composta e vista pelos taxistas que estavam ali desde o começo, mas nem tomam nota da chuva que cai e já ganhou ares de tempestade. Eles continuam vendo a reprise dos melhores momentos de um jogo entre o Guarani e Portuguesa na TV. Na conversa, a chuva não entra na pauta, mas as jogadas da rodada são todas esmiuçadas. Minutos depois, quando a chuva para, a rua brilha. Todos voltam aos seus afazeres. Aquele gol perdido pelo atacante ainda povoa a cabeça dos homens que esperam uma corrida. Há um lamento no ar.

[13/04/2009]

*Texto produzido em escrita rápida durante aula de Criatividade na pós de Jornalismo Literário

Entre Aspas: Domingo só quem tem mulher feia quer sair de casa. Sabedoria popular.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

À decadência digo nada!*

video

Sem entender nada de nada.
Dá nada. O nada não é nada.
A mensagem está dada: dê nada!
A danada não tem nada a dizer, a não ser: de nada.

[23/01/2010]

Sem aspas para pressionar uma frase e botar aqui.

PS: Esse é o primeiro vídeo que posto em seis anos como blogueiro (já que esperei tanto tempo, podia ter sido algo mais "edificante", né? Ah, deixa para lá: enquanto à decadência digo nada!).

*Dedicado à Mafer Maia, a líder dos vídeos engraçados do Youtube, a amiga de todos os loucos do Masp...hauhau

sábado, 1 de maio de 2010

(Está)

Sem mulher, sem discurso,
Sem muro, sem vontade,
Sem casa, sem dinheiro,
Sem cigarro, sem liberdade,
Sem álcool, sem cachorro,
Sem espelho, sem cidade,
Sem juízo, sem carro,
Sem camisa, sem idade,
Sem sorriso, sem mochila,
Sem ideias, sem coragem,
Sem rimas, sem beleza,
Sem sapato, sem tristeza,
Sem audácia, sem identidade,
Nem senha, nem paisagem

Sem ternura, sem por quês,
Sem morrer, sem dívida,
Sem tamanho, sem temor,
Sem angústia, sem com quê,
Sem lençol, sem música,
E com sensação de 100 anos, nem mais espera você.

[23/01/10]


Entre Aspas
: Literatura não é para nos convencer de nossas virtudes, é para encarar nossas limitações. Fabrício Carpinejar.

sábado, 24 de abril de 2010

Do pequeno cotidiano

A vida é de uma sutileza tamanha, que os filmes do Almodóvar podem não ter sentido, mas seus sentimentos e emoções gritam em quadros rubros.
Dessas sutilezas que não precisam ser ditas, mas são pensadas, pescadas no silêncio, reveladas pelo cheiro.
Sutis como o levantar de uma sobrancelha, como o revoar das borboletas, como o voraz e implacável ponteiro que marca os segundos do relógio.
E vão dando sentido à vida, explicando o mundo, preenchendo os quadros e significando o todo.

É dessa pequenez que falo, olho e sinto...
Desses segredos que não precisam ser ditos. Dessas coisas que todos já viram.
Uma miudeza presente, rica e exposta, apesar de tentar se esconder como um primeiro fio branco em um cacho negro.
Lá está ela, que olha por cima dos óculos, que se revela pela maneira que pisca.
Lá estou eu sentado no carpete do elevador, mochila no chão, caneta em punho e agenda no colo, escrevendo tudo isso para não perder a “genialidade da descoberta das sutilezas”.

As árvores falam, o filme profundo não tocou, a jornalista pinça.
As histórias – as grandes – refletem, mas as sombras e as nuances das pequenas é que valem.
Só preciso apertar o “4” e chegar em casa levemente feliz, lançando olhar curioso para as minhas convivas e jogando palavras ao vento, apesar de só querer ouvir o silêncio que bate no coração de cada uma, de cada coisa e no meu mesmo. Vou fazer isso. Amanhã será um dia cheio de atividades e ainda preciso voltar a notar as sutilezas.

[16/12/2009]

Entre Aspas: Noventa por cento do que vivemos é imaginação. Joan Didion.

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Nublado, com possibilidade de chuva


As pessoas ficam cinzas em São Paulo.
É como se com o tempo suas caras fossem sendo pichadas e ficassem carrancudas e melancólicas como os milhares de prédios enfileirados pela cidade.
São tristes, de céu fechado, sempre prestes a chover.
Escondem-se nas sombras do concreto.
Falta-lhes sol, calor, motivos para sorrir...
São muitas.
Dormem cansadas nos ônibus, atropelam-se mal-humoradas na entrada do metrô, buzinam incessantemente no cruzamento atravancado...
Ostentam seus casacos marrons, as jaquetas pretas, as camisetas grafite, os corpos tatuados, os rostos barbudos, a face escondida por franjas, os olhos por aros grossos dos óculos, a cara nublando.
Saem de todos os lugares e colorem a cidade com seu monocromatismo.
O tempo, os prédios, as construções, as pessoas... Tudo parece um único e extenso céu que se encobriu num eterno outono.

[5/4/2010]

Entre Aspas: [Em São Paulo] Na falta de horizonte geográfico, o horizonte humano se estende. Paulistana lembrando que o céu da cidade vai além do que está sobre nossas cabeças.

quinta-feira, 25 de março de 2010

A melhor resposta é o silêncio?

Esse post, na verdade, devia ser um não-texto. Um espaço em branco. Uma sequência de vazio, sem palavras, só ecos e reflexões internas. Mas como calar se a sociedade nos exige respostas, atitudes, ações? Diante de um mundo que tem solução para tudo, no qual todos os problemas têm saída, as maiores dúvidas ainda são aquelas perguntas que saem quase infantis como se viessem de uma criança e criam embaraço por não ter respostas.

Sempre achei que algumas perguntas fossem melhores do que qualquer resposta. Ficava pensando que algumas delas não tinham solução mesmo por mais bem explicadas que fossem. Sempre questionei, inseri uma interrogação e ainda adicionei mais um porquê em tudo que me davam como pronto. Talvez seja mal de jornalista.

Sempre falei pelos cotovelos. Sobre tudo, como se de alguma coisa eu entendesse. Como se eu fosse conhecedor de alguma ciência ou fosse capaz de opinar sobre qualquer tema ou como se minha opinião valesse para algo. Ou por que então eu teria três blogs? Sim, três (Quintal do Gui, Brisa no Quintal e Dias de Guilherme). Talvez por que eu goste de filosofia de boteco e dessas reflexões bem baratas desse tipo que forjo aqui e impressiono alguns poucos amigos.

Esse post, na verdade, é só para dizer que não sei responder a uma pergunta que me fizeram ontem. Eu me despedia de amigos e colegas no MSN após um dia cheio. Mais do que trabalho, eu tinha planejado uma vida toda, após receber boas notícias. O corpo já estava cansado, a cabeça consumida o suficiente para pensar em desligar. Planos, sorrisos, telefonemas, e-mails, contatos, cerveja, trabalho, leitura. Muita coisa já estava acomodada no histórico daquele dia. Ele já tinha sido o suficientemente bom e já estava acabado. Ou quase. Ia desligar o computador, dar “boa noite” para Marcelle, com que divido o apartamento e, ao deitar, dormiria como só os justos conseguem. Mas antes que o fizesse, ela resolveu sanar uma dúvida profunda que assolava seu ser. Daquela cabeça adulta, sustentada por um corpo recém-saído da adolescência – como eu gosto de ressaltar – ela me atirou uma pergunta infantil pela essência:

- Gui, será que agora a gente vai viver o resto da vida com saudade?

Ela referia-se ao fato de termos saído de nossa cidade natal, Campo Grande, onde deixamos além da família, amigos e uma terra querida. Saímos, mas muitos amigos saíram também. Mesmo que voltássemos, alguns amigos já teriam partido, outros – novos – continuariam por aqui. E aquele sentimento de vazio que persistia em existir dentro de nós poderia perdurar. A pergunta tentava desvendar se ele era intrínseco ao ser humano, se a vida adulta era permeada de novos caminhos e de novos espaços atrelada a um sentimento de esperar um por vir e cultivar saudadades pelo(s) que se foi (foram). Uma pergunta pertinente, mas quem sabe a resposta?


Indicação: Há até um blog inteiro dedicado a perguntas. Ótimo e oportuno, ele é o melhor dos diários virtuais que acompanho. Escrito por Armando Anternore, editor da Revista Bravo, sua descrição faz a seguinte pergunta: O que é melhor para nos fazer entender o mundo: as respostas ou as perguntas? Leiam mais aqui: http://armandoantenore.com.br/blog/

Entre Aspas: Saudades é amor. Não se tem saudades do que não se amou. O amor não acaba, porque tenho saudades, me lembro dela, me preocupo com ela, torço por ela, e se sonho com ela, meu dia está feito. O amor não pode acabar, porque sem ela ou sem a esperança de revê-la, até a chance de tê-la de volta, não vejo a paz. Ela é uma trégua na minha guerra pessoal contra a minha paixão por ela. Marcelo Rubens Paiva.

Vale a pena ler o post completo que contém a crônica 'O amor acaba?' http://blogs.estadao.com.br/marcelo-rubens-paiva/90-minutos/

PS: Post dedicado à Marcelle. Como disse a Pati(minha amiga e dela): amigo é a melhor invenção. É com eles que a gente divide perguntas, saudades, expectativa pela nova diarista, risos da cara plastificada da Ana Maria Braga, contas e tantas outras coisas...É com eles que a gente vai ressignificando os acontecimentos do dia, a vida... E, talvez, por isso, o assunto nunca acabe. Então, qual será a próxima novidade? A próxima pergunta?

domingo, 21 de março de 2010

Casos de verão


Tive vontade de fumar aquela noite. Queria prolongar o prazer e acalentar um pouco mais do fogo que havia entre nós. Mas tudo acabou sem promessas, sem troca de telefone, apenas com um selinho (na verdade, dois) e desejos de “tudo de bom”. De qualquer maneira, o que aconteceu antes valeu por toda uma vida que não teríamos juntos.

[05/03/10]

Entre Aspas: O que existe de mais extraordinário na realidade é que a realidade não existe. Do filme Salve Geral.

sábado, 13 de março de 2010

Rascunho 06/10/2009


Tenho medo de com o tempo perder essa inocência
De achar os prédios altos
As mansões surreais
A Berrini glamorosa e ostentadora
O centro sujo
Os mendigos gente
As pessoas gélidas
De não olhar nos olhar
De não me surpreender mais
De acostumar com os barulhos
E ser mais um deles
Nem posso.

Entre Aspas: O importante não é um lugar nem outro. É a viagem. É a solidão com seus pensamentos, você e seu espírito. Antunes Filho

segunda-feira, 1 de março de 2010

É como se patinasse no gelo, perdido no vazio urbano, tentando escapar de um monstro que teima em engoli-lo

E quando a gente se perde no tempo, esquece o nome, não sabe de onde veio e os dias passam. A cabeça não processa mais nenhuma informação nova. As antigas só fazem parte da memória quase esquecida. Faz tudo no automático, como se deixasse pegadas na areia para o vento apagar em instantes.

Da brisa lembra do frescor, do antigo amor não ficaram nem as cicatrizes, os que já foram amigos não o vêem mis. Nem se lembra quando é seu aniversário. Nada tem importância. Vai de uma esquina para outra buscando o prazer momentâneo. Sai do chão e vai as nuvens num choque de realidade que traz flashes de imagens. A sensação o incomoda. Não viu nada de bom ou que presta.

Não importa, nem se recorda porquê começou a escrever isso aqui. Larga tudo, sem saber o quê e como escreveu e vai para o próximo cruzamento. Poderia ser confundido com uma placa, a não ser pelo fato que nela constam informações e nele não. Os olhos são opacos, sem vida, não parecem serem habitados por um ser. Nem conseguem enxergar os que passam por ali. Tem uma coisa que emite um barulho que o incomoda. Ele balança a cabeça e segue para a próxima esquina e para a próxima, e mais uma... Até voltar tudo de novo. Está perdido e arrependido. Mais uma vez. Do que mesmo?

15-08-2009

Entre Aspas: Os rótulos amarram as garrafas e enforcam as almas. GSD

quarta-feira, 3 de fevereiro de 2010

[Das grandes] Descobertas



Tinha oito anos. Só isso já fazia dele um ser – branquinho e rolicinho – potencialmente interessante. Seus cabelos escorridos em forma de tigela e o tom aloirado tornavam aquele rosto, vermelho e suado, engraçado. Estava especialmente agitado naquele fim de tarde. Chegava em casa após um dia na escola e, com seu conjunto de uniforme vermelho, ganhava a corrida imaginária entre o estacionamento do prédio, onde morava em Higienópolis, até a portaria.

Ele disputava o percurso sozinho, mas ao chegar na calçada era como se vencesse um batalhão de quenianos. (Eles, na verdade, deviam estar ali, eu que não conseguia captá-los). Ali, encontrou a mulher que o cria e protege desde as primeiras semanas de vida e pela qual ele nutre carinho. Ficou surpreso ao ver lágrimas chovendo do seu rosto. Do alto da sua vontade de entender o mundo e o que se passa na cabeça daqueles seres grandes, esquisitos e desengonçados, soltou: – Por que está chorando?

A mulher mal podia esconder a tristeza, mas conseguiu balbuciar uma resposta que o deixaria ainda mais intrigado: – Porque sou gente, oras!

Pela primeira vez, o rosto dele tomava um tom grave e perdia parte da energia, afoitamento e alegria de quem só se preocupa em ganhar corridas imaginárias, vencer em jogos virtuais ou ter que escolher entre sorvete de morango ou picolé de chocolate. Agora a frase reverberava em seu ser e talvez ele a soltasse inconscientemente da próxima vez que caísse de bicicleta e tentasse amenizar a dor da mesma forma que a mãe fazia agora.

Seu mundo reacomodou-se de volta na pequena cabeça rechonchuda de bochechas rosadas. A mulher parecia esperar por alguém que não vinha mais. Nem percebia que ele queria entregar a chave do carro, estacionado na garagem, por um funcionário do condomínio. Aquele menino paulistano também achava os adultos enigmáticos. Ora tão preocupados com chaves e carros, ora desesperados porque era ele quem chorava, resolviam esquecer de tudo isso e entristecer simplesmente por que eram gente.

Um tipo de ser que aos poucos vai escondendo o pranto e esquecendo o quanto ele alivia e desengasga. Com a hipocrisia de manter a imagem social de pessoa forte, vão reprimindo as lágrimas que seriam suas, mas acabam pagando por chorar o sentimento alheio no teatro ou no cinema, embarcando numa tristeza que também é deles. Situações que tornam esses seres gente de novo, pelo menos por alguns momentos. Mas que o menino ainda não sabia simular. Apenas fazia. E, assim, agarrou a mão da mãe e dos olhos, agora também vermelhos, brotaram uma gota. E por gente ser, também chorou.

[De uma vida real e imaginada - agosto 2009/janeiro 2010]

Entre Aspas: Não há simples acaso, o acaso é sempre complexo. Vivian Whiteman.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

De soslaio*


A gente se apaixona por um olhar, por um sorriso, pela pureza exalada pelo outro. Um amor à primeira vista surge da beleza verde inesperada daqueles olhos desafiadores e meigos. Brota do que a gente espera que a pessoa seja. Renasce, reproduz e replica no dia a dia. Se alimenta do que a pessoa é, do que ela passa a ser e representar para nós.

Um amor juvenil é sincero, espontâneo e intenso - como tudo nessa fase. Do alto dos 1,80 metros de altura, aquele adolescente com espinhas no rosto e vontade de mudar o mundo, que um dia fui, amava aquela menina pela beleza de seu ser, pelo seu jeito meigo e descompromissado, pela sua personalidade dócil e forte.

Era quase inalcançável, inatingível. Intangível! Era isso que me impulsionava. Até hoje acho que o amor real não é possível. Mas durante alguns anos ele foi. Aquela timidez, as pedras de gelo na barriga, aquela vontade de parecer interessante, de agradar, aquele desejo de estar com ela, os hormônios, a química, aqueles risos, palavras e olhares nutriram durante bons anos a união de nós dois. Fomos dois, fomos um e soubemos a hora certa de sermos nós mesmos, de cada um seguir seu caminho e seus sonhos.

Não somos mais aqueles adolescentes que se apaixonam por um olhar. Seria preciso muito mais para que estivéssemos juntos até agora. Não houve vontade, sintonia e amor que resistissem aos conflitos e aflições da juventude. Passamos pela adolescência e fomos catapultados à idade adulta sem nenhum aviso, meio que contra a nossa vontade. Aquele amor juvenil já não fazia sentido em uma relação desgastada entre duas pessoas tão diferentes, com visões de mundo e futuro divergentes.

Os corpos se separaram, as línguas desentrelaçaram-se, os olhos derramaram lágrimas e lançaram olhares mais tristes por um tempo, mas depois seguiram mirando outros horizontes. Hoje distantes, olhamos para essa história com carinho. Ainda nos incomodamos ao nos rever. Afinal, como canta Chico Buarque “é desconcertante rever um grande amor, como é”. E visto com lentes atuais esse foi só um amor juvenil entre pessoas que nem existem mais. Mas como foi bom amar aqueles olhos.

*Texto produzido durante aula de Ensaio Pessoal e Memórias da Pós-graduação de Jornalismo Literário. [31/10/2009]

Entre Aspas: A qualidade literária está na reflexão abstrata. Sérgio Vilas Boas

domingo, 3 de janeiro de 2010

Apenas um sujeito médio

Época de aniversário é sempre tempo de repensar a vida, trocar de fase. Nessa fase, cada vez mais me percebo adulto, me admito como tal e me comporto como um, apesar de uma criança ainda habitar meu interior. Meus amigos também cresceram, saíram da casa dos pais, mudaram de cidade, se casaram, tiveram filhos e despontam em suas profissões...É, a adolescência também acabou...O mais difícil de se perceber como adulto, não é a idade em si ou a condição de ser responsável por si mesmo e ter que se virar sozinho, mas a sensação de que o tempo passa e que caminhamos, mesmo se não quisermos. Nesse caso, é melhor decidirmos o caminho a trilhar e nos prepararmos para a jornada... Seguindo, cada um da sua maneira, fazendo seu caminho, colhendo o que plantou e sendo hoje, justamente o que procurou para si....

Outra dificuldade da idade adulta é constatar que você não é (e não será) um gênio. Na infância, sempre achei que seria alguém muito importante para a humanidade. Eu seria presidente do Brasil, depois astronauta, depois o melhor arquiteto do País e ainda aos cinco anos decidi que seria jornalista para salvar o mundo e parar as guerras, como eu acreditava que o Pedro Bial fazia no Golfo em 1991. Ainda como jornalista, eu escreveria um livro muito vendido e que mudaria a história universal, denunciaria mazelas e melhoria a vida das pessoas. Eu seria um grande escritor, um jornalista célebre, um homem admirado.

Os anos passaram. Nunca fui uma pessoa que se destacou pela inteligência. Não que seja ignorante ou burro, mas também não sou aqueles caras naturalmente inteligentes. Esforçado e esperto, ok. Não fui aluno nota 10 na escola, não passei em primeiro lugar no vestibular e não fiz um primeiro livro genial, que foi reconhecido ou será no meu pós-morte. Eu sei, ainda dá tempo. Mas cada dia que passa luto com uma conclusão que cada vez me agrada mais, não quero ser o bom, o melhor, o reconhecido. Só quero ser eu mesmo. E, neste caso, talvez isso signifique ser um sujeito médio. Viram que ainda há uma resistência? Não assumo completamente essa constatação, talvez ainda vá algum tempo para isso...

Sempre admirei os pequenos gênios, as pessoas que se destacam, aqueles que são acima da média. A vida inteira tentei ser um deles. É isso que nossos pais nos ensinam, que os meios de comunicação valorizam, que os professores premiam com boas notas e que a sociedade reconhece. Sempre abominei os medíocres, aqueles medianos que patinam sobre suas próprias existências, se boicotando ou apenas se contentando em ser mais um. Bom, os ruins, são ruins e pronto. Esses, possuem algum défict ou têm algum problema e acabam se contentando em, no máximo, ser medianos.

Pois bem, depois de um pouco mais de duas décadas de vida, eu também quero ser um sujeiro médio! Não medíocre. Quero ser apenas melhor do que eu mesmo, com meu esforço e minhas dificuldades, minhas qualidades e meus defeitos. Não para que a humanidade me reconheça, mas para que consiga avançar sobre as condições que me foram dadas e que eu criei. Quero percorrer o caminho com dignidade e almejar não o fim, pelo fim – saltar da massa formada pela média – mas ser bom no que faço. E para isso não preciso trabalhar em um lugar que me traga reconhecimento perante os outros, mas que tenha sentido para mim, que me desafie e motive, mesmo que trabalhando em um veículo de comunicação pequeno e desconhecido. E isso tem a ver com a minha não vontade de ficar em São Paulo por muito tempo e migrar para uma cidade mais viva, feliz e com identidade definida.

Quero ser justo com os que estão a minha volta e privilegiar os meus familiares e amigos com a minha nobre e simples presença. Quero a sutiliza do dia a dia, a futilidade das conversas de cotidiano, o contato com gente, o compromisso comigo mesmo de sempre assumir desafios e avançar sobre as complexas situações enraizadas em nossa sociedade. A direção não é mais o céu, o estrelato, a fama, mas o mundo. A amplitude agora é para os lados, é em ocupar os espaços, sempre com menos. Menos soberba, menos arrogância, menos agressividade e menos ambição.

Talvez eu queira me transformar naquele sujeito bobo, que ri de tudo, que conversa com todos e que está sempre ali para ajudar. Aquele que poucos prestam atenção, e, por isso, mesmo está longe de ser notório até entre os amigos, mas está sempre pronto para cumprir sua missão. Taí, uma coisa que eu quero para os meus próximos anos, contribuir com os que estão a minha a volta e estar disponível para somar e dividir. Sentimento que os muito célebres jamais vão poder usufruir. Quis ser muito, hoje quero ser médio, talvez aos cinquenta só queira ser pouco... E assim caminha a humanidade e a gente caminha com ela. Cada um na sua jornada.

Entre Aspas: Essa conversa foi um dos momentos belos da minha vida. Já o guardei na minha caixinha invisível de memórias impalpáveis. Eliane Brum e suas sutilezas cotidianas no texto que me inspirou para esse post:

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EMI97973-15230,00.html