segunda-feira, 8 de setembro de 2008

Borboleteando


Entrevista com Manuela Barem (26 de abril de 2007)

“De portas abertas, para quem lá chegar...”. O trecho é da música Castelânia, de Carlos Colman, que Manuela cita, sem intenção de parafrasear a canção, em uma metáfora para explicar que é receptiva para que as pessoas entrem em sua vida. Ela garante que essas “portas abertas” lhe trazem um saldo positivo.

Manu renega o título de pessoa que gosta de todo mundo, mas admite que gosta de um monte de gente e que tenta ver o lado positivo de cada pessoa. “Eu tenho a sorte de conhecer muita gente legal”, afirma tentando afastar o mito de boazinha, mas na verdade ela que é legal demais, uma fofa! Um exemplo disso, é que ela considera um momento de alegria toda vez que encontra um amigo.

A entrevista aconteceu no Esquina 21, bar no cruzamento das ruas 7 de Setembro e 13 de Junho, em Campo Grande, ao som de Galopera e outras músicas bregas que povoam o repertório sertanejo. Comemos frango a passarinho, com alho, pipoca para tirar gosto e tomamos cerveja. “O boteco é meu habitat natural”, brinca, falando sério.

Manu é uma das poucas pessoas que eu consigo chamar pelo apelido. Amigos, ela e eu temos afinidades, que descubro pelas respostas serem muitas: temos uma similaridade muito grande em ideais e sonhos. Na conversa, ela revela ainda um segredo: quer ser cantora. Na profissão, quer fazer um jornalismo que tem compromisso com o sentimento. Na vida pessoal, quer casar, ter filhos e conhecer lugares.

O que mais me impressiona na Manu não é a beleza do sorriso com covinhas, nem os cabelos negros que contrastam com a pele alva, mas sim o caráter. Ela é sempre a mesma mulher calma, decidida, divertida, inteligente, com um jeito de ser leve – como uma borboleta - que torna a vida daqueles que estão a sua volta quase poética. O melhor disso é que ela é assim 365 dias por ano, 24 horas por dia... É uma pessoa em que se pode confiar sem sustos ou surpresas desagradáveis. Ela é um ser humano do bem, pessoa-pessoa, como eu gosto de definir. E ser “do bem” está longe de ser aquele estereótipo que eu costumo propagar dela: o de uma pessoa que gosta de todo mundo e acha que tudo é lindo. Para Manuela, ser do bem (sem clichê ou exageros) é uma maneira de encarar a vida. Confira a entrevista:

Guilherme – Gostaria que você começasse se apresentando. Diga seu nome, sua idade, onde nasceu.
Manuela
– Me chamo Manuela Farina Barem. Não que eu acho que eu deva revelar, meu nome do meio, por que acho que devo preservar isso (risos, com covinhas).

Gui – Tem um motivo de verdade?
Manu
– Os americanos geralmente não revelam o nome do meio, para preservar a identidade... Não lembro agora o porquê. Vi isso em filmes (risos). Lembro de um filme que o FBI tinha que achar um criminoso só que não conseguia por que tinha vários homônimos. Só conseguiram achar o cara, quando descobriram por meio de um processo o nome do meio do cara que ele não revelava. Agora fiquei com esse negócio do nome do meio e também porque adotei o “Barem” jornalisticamente, então é isso.

Gui – Continue falando da sua idade, onde nasceu...
Manu
– Tenho 23 anos, nasci em 30 de março, ou seja, me sinto com 22. Sou nascida em Presidente Epitá... Não, Campo Grande, Mato Grosso do Sul. Nasci aqui, morei três anos da minha vida em Aquidauana e depois mudei para Epitácio (SP). Daí, minha confusão de não saber de onde sou direito, mas agora descobri que sou de Campo Grande mesmo, eu acho. Eu me sinto sul-mato-grossense por que minha família é do Mato Grosso do Sul, embora eu tenha vivido 18 anos da minha vida em Epitácio. Mas lá eu nunca me senti de lá. Sou daqui né?

Gui – O que você faz?
Manu
– Sou jornalista, ainda uma foca, né? Além de jornalismo gosto de pintar, desenhar, escrever, tocar. Ah! Sou baterista, toco maracatu e toco outros instrumentos de samba, que estou aprendendo, como o tamborim, pandeiro. Descobri que sou apaixonada por instrumentos. Outro dia peguei um berimbau, Guilherme, é uma coisa, maravilhoso.

Gui – Como foi sua infância, do que você brincava?
Manu
– Minha infância foi de uma pessoa quieta. Era uma criança quieta. Meus pais falam até que eles se arrependem um pouco de serem muito preocupados comigo. Aquela coisa de “vai cair”, “vai machucar”. Então, quando eu quis correr eles falavam “pára, vai cair”, quando eu quis subir em árvore, a mesma coisa. Tive uma infância meio introspectiva, tinha um quarto de brinquedos enorme, brincava ali sozinha. Criava os romances ali entre Barbies e Moranguinhos, por exemplo. Desenhava muito desde pequeninha, criava historinhas, tinha amigo imaginário. Não fui levada. Fui uma criança que gostava de conversa de adulto, prestava muita atenção, sabia conversar sobre várias coisas desde pequena. Sempre gostei de música. Acho que sempre fui comunicativa também. Minha mãe fala que eu ficava no portão de casa dando “oi” para todo mundo que passava. (Imitando voz de criança:) “Oi, tudo bem, sou Manuela”. Tive uma infância muito feliz, tenho muitas lembranças boas e consigo lembrar de muita coisa, muito fácil.

Gui – Como foi a fase seguinte, a adolescência? Como foram os primeiros namoros, os primeiros beijos?
Manu
– Não fui uma adolescente fácil, como muitas pessoas são. Tive muuuitas crises, muitas crises típicas de adolescente, de querer sair, pais não deixarem, de quer namorar, pais não deixarem. Comecei a namorar cedo, mesmo escondido, com 13 anos de idade, já ficava e tinha namorado. Meus primeiros namoros foram todos longos, tipo dois anos, três anos. Foi bem legal minha adolescência. Foi uma época em que eu já comecei a formar o que eu seria agora. Não sei se desde a infância, também. Li bastante, adorava biblioteca. Morava a uma quadra de uma biblioteca, então passava as tardes lá, depois de estudar as coisas do colégio. No meu colégio tinha provas toda terça e sexta o ano inteiro. Toda a semana estava estudando sempre, não tinha um dia de prova. Peguei hábito de leitura, até hoje gosto de ler. Eu era mais tranqüila, tinha menos essa avidez de conhecer o mundo. Naquela época, o meu mundo era um pouco mais limitado também. Hoje em dia como eu sei que posso fazer muita coisa, sou mais ansiosa para conhecer muita coisa.

Gui – Como surgiu o jornalismo nessa fase? Quando você decidiu fazer faculdade de jornalismo?
Manu
– Eu sabia desde cedo... (crise de tosse, estávamos comendo pipoca). Eu sabia desde cedo que eu não ia ser médica. Eu queria que fosse uma coisa que viajasse, que trabalhasse com idéia, não tinha interesse com Biológica e Exatas. Não tinha uma intimidade tão grande com os números, nem via a importância que eles têm. Foi meio por exclusão, ou eu seria escritora, pintora, iria fazer uma faculdade de Artes Plásticas, algo que trabalhasse com criatividade e desenvolvimento de idéias. Achei jornalismo maravilhoso pela possibilidade ainda de transformação. Além de aliar o meu perfil de ser, era uma profissão que eu acreditasse no teor ético, no teor ideológico, por isso a escolhi. Quando eu prestei e passei, não tinha certeza que era isso que eu queria realmente.

Manu – Durante a faculdade conhecemos muitas pessoas lindas. Gostaria que você dissesse quais foram as mais marcantes e por quê.
Gui
– Muita gente me ensinou muita coisa. Eu acho que foi uma troca na verdade, posso ter ensinado para algumas pessoas. É tão difícil falar, mas dos nossos amigos, da nossa turma que a gente se identificou mais, acho que a maior lição é ser autêntico. Essa é a maior lição antes de qualquer outra coisa, até do que a importância da amizade, sabe? As mais marcantes foram o Bruno e o Jefferson por que a gente era grudado. A Maria Fernanda pela postura de jornalista que ela sempre teve, nasceu com isso parece. A gente (ela e eu) por ter afinidade de idéias, ser confidente. A gente sempre se abriu muito. A Maria Eliza por que além de ela ter uma bagagem de vida maravilhosa, ter contribuído positivamente para a minha formação, de despertar para outros lados culturais, ela me ensinou tolerância. Eu tive que ensinar para ela, então, nós todos tivemos que aprender. Aprendi muito com as pessoas da nossa sala, a ter tolerância, a turminha que a gente andava, Maria Fernanda, Marina, Maureen, Maria Eliza, porque muitas vezes eu senti a necessidade de me afastar, porque nossa turma tinha julgamentos muito superficiais de um todo. Eu tenho uma posição de que não achava tão certo, isso foi fundamental para minha formação, para o meu senso crítico, nem sempre concordar. Ver que eu podia discordar de pessoas que eu amava. Isso melhorou minha relação com a minha família, porque eu percebi que meus pais podiam não estar sempre certos. O Hélio me marcou muito por que me ajudou a estar em paz com a minha auto-estima e também por colocar por terra diversos preconceitos. Acho que cada pessoa ensina uma coisa muito profunda, muito diferente. A Marina com essa persistência dela, nunca vou esquecer. A Maureen a mesma coisa. Uma persistência que dá para levar para toda a vida, lembrar e falar ‘nossa que maravilha’.

Gui – Como é sua relação comigo? O que você gosta e o que não gosta em mim?
Manu
– Com você? Acho que é mais fácil falar o que não gosto, que é menos coisa. O que não gosto é essa questão, foram algumas poucas vezes, quando você encabeçou uma dessas atitudes preconceituosas da classe.

Gui – Do tipo?
Manu
– De achar que um lado da sala era melhor que o outro. Não que você achasse isso, porque você sempre se deu bem com o restante da sala, mas não sei. Talvez fosse errado, mas a maioria das coisas foi por falta de maturidade. A maturidade que te faz parar e pensar e analisar os dois lados. Acho que suas maiores falhas são quando você compra de cara alguma coisa e toma aquilo como certo. E você mesmo já viu várias vezes que não era bem assim. Mas acho que você já mudou muito com relação a isso. Eu acho você impressionante pela determinação, por acreditar naquilo que você faz, você acredita muito naquilo que você faz. Acho legal o compromisso que você tem com você, com a tua coerência. Você ser coerente com o que você acredita que quer. Solidário demais, ótimo ouvinte, ótimo conselheiro, criativo. Acho você uma pessoa brilhante, idéias brilhantes, esforçado. Várias, várias qualidades...

Gui (rindo) – Eu sou o máximo né? Me senti o máximo agora! Obrigado. Como você se vê daqui a dez anos? O que você quer ter feito? O quer ter realizado? Você terá 33 anos, vai estar casada?
Manu
– Daqui a dez anos, eu pretendo ter realizado bons dos meus planos para daqui a cinco anos. (risos). Eu quero ter trabalhado em um jornal que eu respeito, não que eu não respeite o que eu trabalho, mas um jornal com relevância nacional. Quero ter trabalhado com um jornalismo que eu realmente acredito, quero estar trabalhando com isso.

Gui – Que jornalismo é esse?
Manu
– Um jornalismo que tem um compromisso com o sentimento antes de tudo. Antes desse negócio de compromisso com a verdade. Compromisso com o sentimento, com quem está lendo, não só esse negócio da importância de levar a informação para todas as pessoas, compromisso de como será que isso vai isso vai afetar sentimentalmente. Não sei ainda definir completamente. Um jornalismo que seja coerente, que seja preocupado com questões holísticas, que vão implicar em outras, com o funcionamento do mundo de forma circular. Esse jornalismo pode ser jovem, ter cabeça jovem, sem ser quadrado, uma coisa meio sem limite, mais permissivo. Eu pretendo estar casada, estar com dois filhos, no mínimo um. Pretendo ter viajado já, parte do que eu quero conhecer no mundo. E pretendo estar bem comigo, quero muito chegar nos 33 com essa curiosidade que eu tenho.

Gui – A gente tem ideais muito parecidos, sabia? Quem é a Manuela? Manuela por Manuela.
Manu
- Quem sou eu? Eu mudei essa semana a minha descrição no perfil do Orkut. Eu coloquei lá: “Me jogo e não sei jogar”. Eu acho que eu sou isso, se eu pudesse definir em uma frase. Eu não tenho medo de me jogar, de conhecer um lugar, de experimentar uma coisa, de conhecer pessoas, de amar. E não sei jogar, ou seja, não sei fazer joguinho. Toda vez que eu erro por amar uma pessoa, foi por que eu não fiz jogos. Toda vez que eu me dou mal em um relacionamento, como recentemente aconteceu comigo. Não me dou mal, mas o relacionamento não foi para frente. É porque eu me jogo e não sei jogar, não sei fazer joguinhos de relacionamento. Assim como não sei ser assim em amizade nenhuma, no meu trabalho e com a minha família e na minha vida.

Gui – Você é sempre “do bem”? O que te tira do sério? Você é pessoa leve. O que te tira dessa bossa-nova que parece que conduz a sua vida? (risos)
Manu (risos)
– Que lindo! O que me tira da minha bossa-nova é pensamento medíocre. Isso resume várias coisas, não se preocupar com a outra pessoa, saber que pode fazer e não fazer, por preguiça ou qualquer outra razão, egoísmo. Várias coisas distintas que partem de um pensamento medíocre, isso me tira do sério. Me tira do sério também duvidarem de mim, quando sei que estou dizendo aquilo por experiência ou algo que me dê propriedade para falar sobre o assunto. Incoerência me tira do sério, incoerência me tira muito do sério.

Gui – Aquele estereótipo seu que eu espalho de que você gosta de todo mundo o tempo todo, não é verdade por quê?
Manu
– Isso não é verdade por que... Eu gosto de muitas pessoas, isso é verdade. Talvez por isso você diga que eu goste de todo mundo. Eu consigo e sempre procuro ver um lado interessante, ou então se a pessoa tem alguma coisa muito ruim eu sempre tento explicar aquilo de alguma forma. Mas é lógico que eu não vou ficar passando a mão na cabeça de ninguém sempre. Se a pessoa tem alguns erros terríveis e não quer mudar aquilo, ou seja, é medíocre, eu não tenho paciência nenhuma e não gosto. Mas não que eu vá ser grossa, deixar de cumprimentar e deixar de ter educação, como faço com qualquer outra pessoa, mas não faço questão nenhuma de ter ela perto de mim. Só que eu tenho a sorte de conhecer muita gente legal.

Gui – Você já quebrou muito a cara por confiar muito nas pessoas?
Manu
– Já quebrei muito a cara. Uma vez eu estava tentando convencer o meu primo a ser menos fechado, e consegui convencer, aí eu tentei explicar para ele usando uma metáfora. É assim: se você deixa a porta da sua casa aberta e senta na sala, vai passar um monte de gente na rua, muitas dessas pessoas podem entrar, e fazer um bem enorme para você. Pode entrar também muita gente que não seja legal e que não vai fazer bem para você. Mesmo assim, acho que você ainda sai no lucro deixando a porta aberta, do que deixando ela fechada, e passando um monte de gente legal e ruim e nunca entrando na sua casa. O saldo que eu tiro hoje dessa porta aberta é muito maior. Até porque as pessoas que me fizeram mal, me fizeram muito aprender e me fazem fortalecer também o bem que as outras pessoas me fazem.

Gui – Você também faz poesia. O que a poesia representa para você?
Manu
– Acho que poesia é dizer o que você está sentindo. Poesia sai de mim quando eu não agüento mais ter uma emoção dentro de mim, aí eu pego e escrevo. Mas só sai quando palavras se desencadeiam, se juntam na minha cabeça, daí já sai uma poesia. A poesia se diferencia da prosa por que você conta o que está sentindo de uma forma menos séria e mais lúdica. Como eu acho que ser menos sério, mais despojado, é muito interessante, eu gosto.

Gui – Como você avalia o jornalismo praticado hoje?
Manu
– Acho que o jornalismo que é feito hoje parece que é feito pelo seguinte: por pessoas que se levam muito a sério, mas não levam realmente a sério o trabalho que elas fazem. Isso é a maioria, que é o resultado que podemos ver. É um jornalismo pouco engajado, pouco coerente, pouco esperto e limitado. Isso limita a visão do leitor, consequentemente a visão do que o brasileiro pode fazer por si próprio. Eu acredito no jornalismo opinativo, acredito no jornalismo literário, acredito no jornalismo que é feito com verdade, não a verdade do “compromisso com a verdade”, mas com a verdade da preocupação que você tem com o outro. A verdade de que se eu escrever uma coisa aqui, isso pode realmente mudar, pode ser realmente relevante na vida de alguém. Acho que partindo disso, se as coisas fossem assim seriam um pouco melhores. Tecnicamente temos um jornalismo ótimo, sério, super eficiente, no formato técnico, descobrimos que não precisa fazer as coisas quadradas, estamos desmanchando a coisa do lead, mas o principal não se tocaram ainda.

Gui – Como você avalia o governo Lula, que chegou com slogan de mudança e, neste ano, completa cinco anos no poder?
Manu
– Olha, eu acho que mudança, mudança mesmo, não se faz com tantos acordos. Uma mudança do que a gente tem hoje em dia, só se fosse radical, que transformaria significativamente o que a gente tem. Isso é uma questão complicada, a gente sabe da grandeza territorial que o Brasil tem. Com relação ao Lula, eu nunca esperei que fosse diferente. Eu não acreditei na balela que ele tentou vender, quando estava querendo se eleger. Mas eu acho que é um desperdício para quem acreditou, para quem ele era a última esperança. É um governo que eu não vejo diferença nenhuma da direita, que estava no poder. Se isso é mudança, se o PT é sinônimo de mudança não vai acontecer nenhuma mudança no Brasil. O País vai continuar cada vez mais sendo um grande celeiro para multinacionais extraírem coisas, e dar suporte a elas. Acho que o Brasil realmente é muito grande para se pensar em uma mudança eficaz, que vai atingir do norte ao sul do País. Só se fosse muito forte e muito significativo. O Lula reflete a própria postura do brasileiro, o que o brasileiro de esquerda anda fazendo hoje em dia? Ele anda se organizando? (riso) Ele anda se mobilizando? Ele reflete principalmente a falta de mobilização das pessoas. Se houvesse um pensamento crítico sobre a nossa realidade ele não estava no poder.

Gui – Como está o coração? Lembrando que eu vou postar isso no meu blog...
Manu
– Eu não tenho isso. Todo mundo sabe, não tenho problema em falar do meu coração. Estava apaixonada e não fui correspondida à altura. Eu me apaixono muito e me desapaixono muito. Eu tenho uma capacidade regenerativa tão boa quanto de uma planária (risos). Me apaixono muito, mas quando eu vejo que não vai rolar, que a pessoa não correspondeu, ou então que não é aquilo que eu esperava, eu já sacudo a poeira e vou me fortalecer para me preparar para o próximo amor. (PS: E Manu encontrou um novo amor, está apaixonada e namorando um rapaz chamado Luiz).

Gui – Você já sabe que você não é mais uma solteira convicta?
Manu – Por quê?


Gui – Parece que era isso que você estava vivendo. Depois de um namoro longo, você ficou solteira, para pensar e colocar a cabeça no lugar, e quando a gente está nessa fase de pós-namoro chega a passar pela cabeça da gente que será solteiro convicto...
Manu
– Nunca pensei isso. Sempre penso, quando termino um namoro, penso: “não foi dessa vez. Vou tirar esse tempo para cuidar de mim e esperar o próximo”. Eu tenho super coração de manteiga. Eu levei dois tombos enormes, leia-se: dois caras que eu amei muito e passaram como trator por cima de mim. Embora eles tenham feito isso, eu nunca deixei de acreditar no amor. Para mim amor não é amor a primeira vista, o homem da minha vida. Eu tenho a idéia de amor assim: uma pessoa que vai me entender, vai gostar de mim e que a gente vai ter afinidade o suficiente para se suportar e ter planos juntos. Isso para mim é amor. Eu não acho tão difícil de achar quem tem afinidades comigo. Eu acredito que não seja tão difícil, o que não é fácil é gostar, mas eu não acho impossível não. Até eu achar a pessoa que vou me casar, o processo de conhecer pessoas é interessante. Depois desses tombos que eu levei, eu ando meio assim: “caiu, levanta, arruma o cabelo, se prepara para o próximo...”. Não muito essa coisa da fila anda, por que eu não vejo as pessoas como “não deu certo você, vem você e depois você”. Tem de haver um motivo para eu me apaixonar, agora estou afim hein. Estou bem, depois que levei esses tombos foi muito importante para o meu crescimento como pessoa. Hoje acredito muito no que eu sou. Acredito que posso fazer alguém feliz e, então, estou tranqüila.

Gui – Me fala sobre Corumbá. Você tem uma atração, há uma magia daquela cidade com você?
Manu
– Tenho. Tenho mesmo. Desde quando eu pisei lá pela primeira vez fiquei encantada. Desde o aspecto físico da cidade, uma cidade em Mato Grosso do Sul que tem areia branca, que tem coqueiros, como assim? Coqueiros não, são palmeiras. Aquela visão do Pantanal, uma visão sem fim. Nunca tinha visto aquilo. As pessoas de lá são muito depreendidas, a maioria das pessoas que eu conheço de lá são maravilhosas. Tem um lado cultural muito forte, muito aguçado, tanto da proximidade do Pantanal, como o país vizinho que é a Bolívia, quanto o lado musical, o lado artístico em geral é muito forte. Então, eu me identifiquei, e também eu alimento minhas nostalgias com Corumbá. Minha nostalgia de um tempo que eu não vivi. No Casario do Porto eu me sinto confortável, aquela coisa romântica que a parte antiga tem. Adoro a Rua Delamare, toda vez que eu vou para Corumbá eu tenho que andar nessa rua, várias quadras, para sentir o que a cidade conta. Eu tenho uma relação muito forte com Corumbá. De todos os corumbaenses que conheci, a maioria é maravilhosa. Tenho muitos amigos corumbaenses, a maioria dos meus amigos de Campo Grande são corumbaenses. Eu falo a mesma língua deles e acho que eu entendo muito bem como funciona a cidade. Conheço muito bem a cidade já, só tenho lembranças boas de Corumbá.

Gui – Você tem vontade de morar em outra cidade, um local maior? Onde pretende passar sua velhice? Acha que vai voltar para Epitácio?
Manu
– Acho que eu não volto para Epitácio, se não pelos meus pais. A relação mais forte que eu tenho com Epitácio são os meus pais, que ainda moram lá. Campo Grande, eu não sei. Gosto muito de Campo Grande, mas ainda não tenho parâmetro de que aqui é um lugar maravilhoso de viver. Talvez se eu voltar para cá, depois que eu for, se eu for, se eu fosse escolher morar aqui seria em bairro. Por exemplo, Vila Carvalho, que é meu bairro preferido daqui, o mais legal. Um lugar que eu vou escolher para morar vai ter jeito de cidade tranqüila, independente de que seja em São Paulo (SP), por exemplo. Eu nunca morei em São Paulo, mas pode ser que eu me apaixone e pode ser que eu recuse a cidade. Mas ainda quero conhecer São Paulo, Rio de Janeiro, amo Minas Gerais. Então vai depender muito... Não sei, não tem uma cidade ainda que eu gostaria de morar, até porque eu não me sinto ainda ligada a uma cidade, a um chão. Por isso, essa minha dificuldade de descobrir da onde eu sou realmente, porque, na verdade, eu não me sinto muito de algum lugar. Na verdade, eu me sinto sul-mato-grossense por que a minha cultura é a cultura daqui. Esse moda que está tocando agora, me faz lembrar tal pessoa... Não sei, não sei nem se eu vou escolher morar no Brasil, por exemplo.

Gui – Me conta um segredo.
Manu
– Um segredo? (silêncio prolongado). Um segredo? Isso é um problema enorme porque eu escondo poucas coisas (risos). Deixa eu lembrar. Um segredo... (risos). Eu nunca contei isso para ninguém. Um segredo: eu queria ser cantora!

Gui – É mesmo?
Manu
– É. Nunca contei isso para ninguém, nunca admiti. Eu nunca contei isso para ninguém por que eu sei que não tenho voz suficiente para ser cantora, apesar de eu, às vezes arriscar a cantar. Hoje eu tenho vontade ser cantora. Não tive vontade quando eu era pequena, sabe? É isso.

Gui – Então é um desejo de agora?
Manu
– É um desejo de agora!

Gui – Pensei em uma relação nisso com o jornalismo. O Alessandro Perin e a Milena Crestani (repórteres do jornal O Estado) gostam de cobrir polícia e querem ser policiais, você gosta e é repórter de Cultura e toca instrumentos, tem necessidade de caminhar pelas artes. Você acha que tem uma ligação isso?
Manu
– As pessoas falam que todo jornalista é um escritor frustrado. Eu acho que não. Eu estava pensando isso noutro dia: “será que eu troco tudo pela música?”. Eu estudo muito música durante a semana: faço aula de bateria, faço maracatu. Sinto necessidade de mergulhar mais na música. Eu não trocaria música pelo jornalismo. Eu não tenho isso: faço jornalismo por que eu tenho frustrações que eu não consigo cumprir. Eu faço jornalismo por que eu acredito no jornalismo. Eu faço jornalismo de cultura por que eu acredito que a cultura precisa ser incentivada. E a cultura também precisa desses jornalistas que não levam a cultura tão a sério. Tenho certeza que eu sou jornalista, não por que não consegui ser outra coisa. Não é isso. Até por que a única coisa que eu tentei de verdade ser até hoje foi jornalista.

Gui – A conversa fluiu tanto que eu estou achando que a entrevista foi rápida. Você é leve. Vamos, então, para fase final que é o bate bola.
Manu
– Ah! Que coisa Xuxa! (risos)

Gui (rindo) – Escrever.
Manu
– Acreditar. Acho que se você não acreditar, você não escreve. Não sai. Isso eu tirei por tentativa de escrever poesia sem inspiração e tentativa de escrever texto para o jornal, quando não dominava totalmente o assunto da matéria.

Gui – Um defeito.
Manu
– Sou muito carente. Um defeito só? Ia falar vários já. Sou muito orgulhosa.

Gui – Você é muito orgulhosa? Se você é muito orgulhosa eu sou o quê? Uma qualidade.
Manu
– Ser paciente. Acho que essa deve ser a minha maior qualidade.

Gui – Um exemplo.
Manu
– Um exemplo? (silêncio). Ricardo Kotscho.

Gui – Porquê?
Manu
– Sou fã dele!

Gui – Um momento de alegria.
Manu
– Toda vez que eu encontro um amigo.

Gui (solta uma gargalhada)
Manu (rindo) –
Super ursinhos carinhosos isso né? Mas eu derreto.

Gui – Um momento de tristeza.
Manu
– Quando eu não atendo as projeções e as perspectivas que meus pais fazem... Quando eu não atendo o que os meus pais acham que eu devia ser, mas mesmo assim eu acredito que eu estou certa. Não gosto de ver eles tristes.

Gui – Uma atriz.
Manu
– Uma atriz? (silêncio) Glauce Rocha.

Gui – Um ator.
Manu
– Um ator? (silêncio). Ai, que difícil tem tantos bons... Gente, vou gastar toda essa fita (do gravador) e não vou lembrar de um...

Gui (mudando de pergunta e deixando o ator para depois) – Família
Manu
– Uma base maravilhosa. Por mais que eu tenha mudado alguns parâmetros que foram me dados desde a infância é o que eu sou hoje.

Gui – Amigos
Manu
– Impossível viver sem. São inspirações para as minhas conquistas.

Gui - Jornalismo
Manu
– Uma decisão de vida. Uma postura de viver.

Gui – Brasil
Manu
– Ai, Brasil...? O Brasil é minha casa.

Gui – Um filme
Manu
– Pulp Fiction. Pulp Fiction não, Kill Bil. Tanto o um como o dois.

Gui – Um livro.
Manu
– Enigma da Culpa, do Moacir Sciliazer.

Gui – Você comprou?
Manu (rindo)
– Compreeeei, lembra? (Passeando pelo Shopping comigo, Manu havia namorado o livro na prateleira de uma livraria, mas não o comprou neste dia). Pode ser dois livros?

Gui – Pode.
Manu
– A Idade da Razão, de Sartre.

Gui – Um sonho
Manu
– Poder viajar o mundo, conhecer muita gente, conhecer culturas legais, por meio do jornalismo. É isso que eu quero. Ah, outro sonho, sub-sonho, ter uma banda.

Gui – Na qual você vai ser vocalista, baterista...?
Manu
– Não. Vou ser percussionista ou baterista.

Gui – Um desejo
Manu
– Pode mudar a banda para o desejo?

Gui – Pode. Um ator.
Manu
– Ah, peraí. George Clooney, gente. Eu não queria falar dele, porque só me vem ele na cabeça, mas eu acho ele maravilhoso e lindo demaaaaaais!

Gui (riso) – Um lugar.
Manu
– Parque das Nações (Indígenas, em Campo Grande), ao entardecer.

Gui – Praia ou campo?
Manu
– Campo.

Gui – Você define muitas coisas como lindas, o que é feio?
Manu
– O que é feio? (silêncio) O que é feio? Gente difícil isso. O feio, geralmente quando eu acho alguma coisa feia, é quando ela é poluída, incoerente – uso muito incoerente também, né?. Isso é feio para mim.

Gui – Me dá um exemplo de uma coisa feia
Manu
– Eu não acho favela bonito. É feio favela, porque as pessoas não vivem bem ali. Mas a favela com um sol e pagodinho ajuda.

Gui – Uma frase.
Manu
– Me jogo e não sei jogar.

Gui – Um recado final... Pode mandar um beijo para o seu pai, para sua mãe, para Xuxa...
Manu
- Para Xuxa não, me decepcionou muito já.

Gui – Foi um paradigma que caiu?
Manu
– Caiu. Detesto... Acho que as pessoas, no geral, se elas fossem mais verdadeiras e conversassem mais, quando entrassem em conflito... Cada um entendesse as razões das outras pessoas, seria tão mais leve, tão mais fácil, tão menos nebuloso. É tão difícil você tentar compreender o universo de alguém. O porquê da pessoa estar fazendo aquilo. Acho que se as pessoas assumissem mais o que elas são, seria tudo tão mais fácil.

Gui – Esse é o segredo para ser leve? Tentar compreender o outro?
Manu
– Acho que sim. Você me acha leve?

Gui – Sim.
Manu
– Então deve ser por isso.

domingo, 7 de setembro de 2008

Dia de nada

Trabalhar domingo é uma arte. É uma ciência não exata que só entende quem pratica.
Domingo é um dia manso, leve em que a vida segue preguiçosa e a vida segue devagar.
As bolsas de valor não funcionam, o comércio não abre (ou não deveria abrir) e negócios não são fechados.

É dia de macarrão em família, Faustão e Gugu na TV - onde o reinado será sempre de Silvio Santos...
Dia de ficar em casa, curtindo no sofá tardes longas e mornas, após o almoço com quebra de regime obrigatório...
É dia de ir à igreja (para quem freqüenta uma), usar roupa nova, passear no parque, ir à avenida principal da cidade.
Dia de cinema, de chorinho, de tereré...

Véspera de segunda, é chato, monótono e quase cansativo. É um adorável dia odiável.
Para quem trabalha não é mais um dia. É um dia sagrado, da folga... É o sétimo dia da criação. É o resto do toco, é um pouco sozinho...

É quando o relógio desperta mais tarde e mesmo assim é difícil levantar. É ruim sair de casa e de bater o ponto. Tentar noticiar os fatos, enquanto seus protagonistas descansam...
Percorrer as ruas atrás das notícias, enquanto nas sombras toma-se tereré, nas quadras esportivas jogam bola e nos bares, a cerveja rola solta na discussão da rodada do futebol no fim de semana.

Tem ainda os namorados que se beijam, os pais que levam os filhos ao parque, os crentes que vão a igreja, só para te lembrar o que tenta esquecer: é domingo! Dia de viver, de ser quem é. É o dia mais cruel, em que a solidão dos solitários bate mais forte e que a saudade aperta.

Mesmo para quem trabalha domingo e tem no sábado o único dia de folga, domingo continua sendo domingo. Teu corpo sabe disso, tua mente sabe disso, o mundo sabe disso. Domingo é domingo e ponto.

No trabalho, as coisas seguem sem traumas ou sustos. Tudo leve, tudo flui. É domingo e nada de errado acontece. É o pior dia para ir trabalhar, mas o melhor dia de trabalho. O mais tranqüilo. E só quem enfrenta o domingo sabe. Vou indo por que amanhã é segunda, dia de acordar cedo, a semana começa e ainda vai tardar para o próximo domingo chegar...

Entre Aspas: Amanhã é domingo, menina, ninguém vai te acordar. Deixa chover na esquina, deixa a vida rolar.

sábado, 30 de agosto de 2008

Novo endereço

Caros, bem vindos a esse novo espaço para minhas publicações. O Weblogger, onde mantive por quatro ano um blog, cancelou o serviço e, por isso, migrei para o Blogspot. Tenho os arquivos dos quatros anos do http://www.guigocomvc.weblogger.com.br/ que posteriormente se transformou em http://www.brisanoquintal.weblogger.com.br/ e devo publicá-los aqui com o tempo.

Com o fim dos serviços do Weblogger resolvi que terei dois blogs. Este (http://www.quintaldogui.blogspot.com/), onde vou publicar meus anseios, dramas, alegrias e experiências. Além das famosas e já saudosas entrevistas com os amigos, além do http://www.brisanoquintal.blogspot.com/, que ainda não está no ar, mas será destinado para o jornalismo literário tão amado e difícil de ser praticado no dia-a-dia, mas que eu quero poder experimentar na democrática dinâmica dos blogs.

É isso aí, obrigado pela visita e volte sempre!

quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Arquivos do Quintal do Gui

Não estranhe se a partir de agora encontrar textos juvenis de 2004 a 2007 aqui. Comecei a postar os arquivos do antigo e primeiro Quintal do Gui, o extinto www.guigocomvcweblogger.com.br. Primeiro, fiquei com vergonha dos textos, das futilidades que escrevi, da forma como o fazia. Mas relaxei e comecei a publicar novamente. São parte de uma época, condizentes com que eu vivia e pensava. Não editei os textos, mas confesso que censurei um ou outro que achei muito sem noção (sim, há algo pior do que esses que começo a reproduzir aqui).

Para quem acompanhou o blog desde os idos da minha época de faculdade, é uma chance de reler os textos. Para quem não conhecia e se interessa por esses relatos, eles seguem nos posts abaixo. Divirtam-se!

sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O Sertão Possível

Terra branca e rachada, plantas secas, rios que só estão presentes em nomes de placas. Esse é o cenário de Independência, município, a 309 quilômetros de Fortaleza, no Ceará. Mesmo para quem mora no estado onde fica o Pantanal, a maior área alagada do mundo, a imagem soa familiar, já que o sertão nordestino é alvo de diversas reportagens que mostram a realidade da região.

Não dá para negar: o lugar que utiliza galhos secos como cercas tem um clima de tristeza. A melancolia, no entanto, é logo espantada por um coral de crianças que entoam uma música e parecem querer mostrar outras possibilidades do semi-árido brasileiro.

- Seja bem vindo a casa é a sua, fique a vontade - cantam os alunos da Escola Família Agrícola Dom Fragoso, em ritmo de ciranda, com sotaque local e orgulho nos olhos.

Mas em um cenário como esse, de que elas se orgulham? Elas logo se apressam em mostrar o motivo. No auge da seca, que já dura mais de sete meses, o que é comum todos os anos na região, os 72 alunos da escola conseguem cultivar frutas, verduras, hortaliças e ainda criar porcos, cabritos e galinhas. O segredo é a perseverança de um povo guerreiro que buscou várias alternativas para conseguir água em um local em que choveu apenas durante uma semana em 2007.

- Fazemos uma base embaixo do solo por meio de um buraco profundo, colocamos lona para proteger e represamos a água encontrada – relata Adão (foto).

O garoto de 17 anos lembra muito Elieldo, de 28. A semelhança não é física, mas pode ser percebida a olhos nus. Os dois moram na mesma região do país, a mais de três mil quilômetros de Campo Grande (MS), mas não se conhecem. Ambos são líderes natos e residem no interior do interior do Brasil e lá pretendem ficar.

Adão Sérvulo é aluno da 7ª série da Escola Família Agrícola Dom Fragoso, localizada na área rural do município de Independência. Já Elieldo Gonçalves é um dos diretores da Associação Comunitária de Pequenos Produtores de Várzea do Toco, comunidade que abriga 57 famílias e fica no outro extremo do município de Independência.

Os dois são personagens de uma história que se constrói no dia-a-dia, em um local em que o sol está presente em todos os lugares, inclusive nas pessoas: no cheiro, no tom e na textura da pele. Eles usam calça jeans e camisa, vestem o rótulo de sertanejo e têm brilho no olhar e alegria na voz. Ambos nasceram com o pé no chão, a mão na enxada, o sol na cabeça e muita determinação.

Elieldo é conhecido em sua comunidade como “chave”, afinal tudo o que os outros moradores - mesmos os mais velhos - vão fazer consultam-no. Elieldo é o responsável por ativar a mandala, tecnologia utilizada para irrigar a água para as hortaliças.

É ele também quem liga a luz e faz as contas da associação. É uma pessoa que vive lá, longe dos olhos dos governantes, da multidão, e constrói uma vida tentando ser justo e honesto, com admiração ao lugar em que mora. – Já trabalhei como garçom em Fortaleza, mas gosto daqui. É onde sou feliz e não quero sair. Vamos aprendendo as técnicas de plantar no semi-árido e repassando para os outros.

Na casa simples de Elieldo, assim como na maior parte das residências de Várzea do Toco, há uma antena parabólica. Ele, que é solteiro e mora com os pais, tem na sala aparelho de som, televisão, DVD, entre outros aparelhos eletroeletrônicos adquiridos a partir de 2004, quando chegou a luz na comunidade.

O porta-CDs abriga clássicos do forró local como “Limão com Mel” e ícones da música sertaneja como “João Mineiro e Marciano”. A família Gonçalves possui também sacos de alho, panelas grandes e fogão de barro na cozinha. No quarto, além da cama e do guarda-roupa há um ventilador e um violão, que o sertanejo arrisca tocar para os amigos nas noites enluaradas de Independência.

Tudo que acontece na comunidade é decidido em conjunto. A partir da união dos moradores da Várzea do Toco, que fundaram a associação há 12 anos, foi possível conseguir mais do que a luz, ou o que qualquer outro programa assistencial de governo pode dar a uma pessoa. Eles conquistaram a dignidade.

Passamos a produzir na horta comunitária o que comemos. Vendemos o excedente e dividimos o dinheiro. Fizemos a convivência com o semi-árido se tornar possível. Valorizamos o lugar onde vivemos e temos orgulho daqui – diz a professora Ana Neri, 27, moradora da Várzea do Toco e secretária da associação de moradores.

Driblando o tempo

Tanto na escola, onde Adão passa 15 dias seguidos, quanto no Assentamento Pintada, onde mora com os pais, e passa os outros 15 dias do seu mês, são utilizadas cisternas para captar a chuva. Por meio de calhas que recolhem a água que cai sobre o telhado das casas elas armazenam até seis litros. No assentamento onde Adão mora, são 31 reservatórios, que fazem parte do programa “Um Milhão de Cisternas Rurais”, da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (Asa), movimento que reúne 750 entidades, sindicatos e associações nos nove estados da região Nordeste, além de áreas de Minas Gerais e do Espírito Santo, que fazem parte do semi-árido brasileiro.

Ao todo, foram construídas pelo programa 220 mil cisternas em 1.031 municípios da região, beneficiando 1 milhão de pessoas. O objetivo do projeto é chegar a 1 milhão de cisternas, atingindo 5 milhões de pessoas. - A intenção é conviver com a região por meio de organização política e de produção, afinal, os açudes são rasos e vão evaporando ao longo do ano. Eles também não permitem a distribuição de água, que é fundamental para a segurança alimentar. Com a cisterna permitimos a democratização desse bem - afirma o articulador da Asa, Lourival Almeida.

Na Escola Família Agrícola Dom Fragoso, a cisterna está vazia e aguarda o “inverno” no sertão, período de chuva, que com sorte vai de janeiro a maio. Enquanto, a cisterna está vazia, a água é captada de um açude, que presencia diariamente um belo espetáculo de pôr-do-sol. Hora em que as crianças descansam das atividades escolares e jogam uma pelada.

Mas aqui, os verdadeiros gols são feitos em áreas experimentais em que cada aluno produz uma cultura agrícola na comunidade onde mora e ajuda a colocar comida na mesa de casa. - Na minha casa não fazia nada, começamos a produzir verduras depois que vim para escola. Agora cada dia minha mãe inventa uma comida diferente – diz, com sorriso tímido, Jaciara Pereira Sousa, 12, aluna do 7º ano da escola.

As lições presentes nos livros didáticos, nas paredes, na lida do campo, na ideologia e no hino da escola, são decoradas pelos alunos e estão na ponta da língua: “A Escola é fruto da luta do povo que quer ver um mundo novo, que ninguém tenha mais fome. Hoje uma conquista nossa do trabalhador da roça que quer ser cidadão”.


(30-12-2007)

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Eu moraria em São Paulo

Vista do alto a cidade parece um cemitério: concreto por todo lado, muito cinza e sujeira. Mas São Paulo ferve. É um centro cultural, um conglomerado de pessoas e de coisas que se cruzam e convivem no mesmo espaço - extremamente urbano. No entanto, na cidade também há paz. Ouvi patos coaxarem e vi cisnes no lago do Parque Ibirapuera.

Na Avenida Paulista, você não precisa de um programa específico, pode sentar em um banco qualquer da rua e reparar nos tipos humanos que transitam ali. É a diversidade! Quanta gente diferente dividindo a mesma calçada, caminhando apressadamente em direção a algum lugar. O barulho do trânsito parece não incomodá-los mais, falam ao celular, ouvem MP3, usam óculos escuros...

No Masp, terá a sensação de já conhecer o lugar, afinal é famoso pelas telas da TV. No museu quadros de Picasso, Monet, Renoir, Tolouse Lautrec, Van Gogh, Modigliani, entre outros que você só viu em livros ou pela Televisão. Juntos, proporcionam um sensação incrível de saciedade.

O paulista tem muitas caras, muita diversidade, é muita gente junta... Saí do museu e meu programa foi sentar numa mureta e ver pessoas passando apressadas voltando pra casa... E, eu tenho uma péssima mania de procurar gente conhecida nos lugares, lá não achei ninguém, daí fiquei tentando achar semelhanças: esse parece com não sei quem, esse lembra aquele outro...

Viajei pelos tipos humanos, e de repente, percebi que estava numa roubada, a minha volta apenas jovens com cara de alternativos, todos fumavam, e lá pelas tantas percebi que não era cigarro. Se a polícia chegasse ali, com certeza eu iria preso com eles. Se é que alguém é preso em São Paulo por usar drogas embaixo do Masp...

Entre num sebo da Avenida Paulista e compre muitos livros, uns seis pelo menos. Não gastará mais que R$ 40 e terá muitas obras para se deliciar. Títulos que você só encontra nesses lugares peculiares com vendedores que são verdadeiros tipos – interessantes e engraçados.

Palavras

No Museu da Língua Portuguesa, você aprende que não existe humanidade sem língua. “É ela que organiza crenças e o sistema. Faz ser quem somos. É a nossa identidade, nosso retrato”, afirma o locutor do vídeo, que começa repetindo diversas vezes a seguinte passagem: “penetra surdamente no mundo das palavras”. Ao todo 200 milhões de pessoas falam português nos cinco continentes.

O lugar é o que há de bom no Planeta! Poemas, vídeos, informações interativas, exposição sobre Clarice Lispector... Isso tudo na Luz, uma estação que fica em um prédio antigo lindíssimo, tudo perfeito, tudo São Paulo! Para as pessoas era o caos, a cidade estava sem metrô, para mim tava tudo ótimo.

No Parque Ibirapuera, andei de patins, bicicleta, espaireci, vi cisnes no laguinho... Sim, há paz também. Eu moraria em São Paulo, fiquei apaixonado pela cidade. Fui ao Museu de Arte Moderna e almocei em restaurante para gringos. Comida boa e nem tão cara assim, nada que um cartão de crédito não resolva.

Falso conejo

Na Barra Funda, há um lugar em que tudo converge. É estação de metrô, de trem, de ônibus urbano e intermunicipal. Ali fica, dentre outros comércios a Lotérica Adeus Patrão - o sonho de todo o brasileiro. As pessoas caminham dispersamente, uma sem perceber a outra até que ouve-se uma mulher gritando. O terminou todo parece parar para ouvi-la. No orelhão, ela discute com a pessoa do outro lado da linha. “Eu não acredito que você é casado, que me enganou todo esse tempo... Ah! não é? Então, me passa o endereço da sua casa que eu vou até aí”, branda em alto e bom som.

Uma aglomeração de gente pára para assistir a desgraça alheia, a mulher ousou interromper a “ordem” e o combinado oculto de convivência, que diz para uma pessoa não interferir no caminho da outra. Ela se enfurece, desliga abruptamente o telefone, e passa na minha frente marchando firme.... Segue - sob olhos atentos da multidão que atraiu - rumo a um guichê que vende passagem de ônibus intermunicipal.

De repente, ela desaba, e começa a chorar. Ela espera na fila e o seu mundo parece ter acabado, está desolada. As pessoas olham, admiram, comentam e do mesmo lugar que ela apareceu, se vai... Perdi-a numa pequena distração. Para onde terá ido? Como será que resolveu aquela situação? Mais algumas perguntas que a vida nunca vai nos responder...

Do Terminal da Barra Funda, saio em frente ao Memorial da América Latina, estou instalado a duas quadras dali. O Memorial é um centro do Mercosul. Naquele final de semana abrigou a Festa da Independência da Bolívia, comemorada no dia 6 de agosto.

Na festa, podia-se comer coisas típicas do país vizinho: fritanga, fricasse, chicarron, salchipapas, falso conejo e pique a lo macho, na via das dúvidas fico com a boa e conhecida saltenha. Alguém (além da Vivi) já ouviu falar no dia da independência da Bolívia ou nessas comidas típicas? Pensei em quão pouco conhecemos um país tão próximo.

Ao som de um ritmo chamado cumbia e trajes típicos, os bolivianos radicados em São Paulo faziam brilhar seus olhos pretos puxados, acompanhados de cílios grandes e negros. Os cabelos lisos e pretos estavam trançados, as vestes eram coloridas e compostas por lenços no pescoço. Os bolivianos vivenciavam sua cultura e matavam a saudade da terra natal, falavam a língua pátria e estavam visivelmente felizes.

Pôr-do-sol

No fim de tarde no Parque da Luz. Sente-se num banco. Atrás de você mulheres de mais de 30 e batom, conversam. Elas reclamam que só podem ver os filhos no fim de semana. As crianças de uma delas, fica com a avó. O filho da outra passa a semana toda sozinho em um apartamento. É compensado com um passeio no Shopping junto com a mãe, aos domingos. Uma terceira leva os filhos para passear em um parque.

Elas têm muito em comum: uma vida corrida, e muitos problemas a enfrentar. Um deles é quando seus clientes querem remunerá-las com cerveja. Falam abertamente, parecem não me ver. Eu? Finjo que estou em alfa mental, olho para o nada. Em nenhum momento dizem que são trabalhadoras do sexo, mas agora, depois de trabalhar no IBISS|CO, já consigo perceber isso sozinho...

São mulheres batalhadoras, que vivem o drama de milhões de brasileiras: o de sair para trabalhar e deixar os filhos. Não têm tempo para criação deles. Elas possuem outro padrão de beleza. Não são magras, nem loiras, nem têm mais 20 anos. São feias? Talvez. Sei que são charmosas e atraem os clientes por meio do olhar e assim conseguem grana para sustentar os filhos e alguns familiares.

Ao lado, na Pinacoteca, um prédio de tijolinhos à vista, em frente a Estação da Luz, estão várias exposições. Uma fotográfica: com três olhares de fotógrafos diferentes sobre a Rússia; outra expondo obras e imagens do Palácio Soberano de Versalles, da França; além de esculturas e pinturas modernas do acervo permanente. Cultura de graça e sexo pago ali no centro paulistano.

Da Pinacoteca, quero chegar a Estação Pinacoteca, outro lugar em que acontecem exposições. O guarda me aponta o local, fica a duas quadras dali. O problema é que o ponto é conhecido como cracolândia, e eu carrego sacolas da manhã de compra no comércio do Bom Retiro. Enfrento o desafio, o máximo que vejo são pessoas que moram na rua e usam drogas.

No sábado foi a primeira vez em que me bateu o cansaço, afinal andei muito, bati muita perna nas ruas da grande São Paulo. O metrô está de volta, para alegria do paulistano. No dia anterior, no meio do “caos”, da São Paulo sem metrô, foi a vez em que vi mais humanos juntos. Os jornalistas se aglomeravam para captar o melhor ângulo, eram abutres em cima dos problemas do povo.

Nenhum deles parece notar as pessoas e seus aflitos, se interessam apenas por explorar sua dor... Nos muros, cartazes do movimento da negação da negação que prega que as escolas, faculdades e fábricas falidas sejam invadidas... Viva a revolução e o MNN!!!

O loquinho (como diz minha avó)

No domingo, fui ao mercadão, comi sanduíche de mortadela e pastel de bacalhau, pratos típicos do local, foi meu almoço. Na Paulista, fui ao cine da TV Gazeta, assisti a um filme francês chamado “Medos privados em lugares públicos”. Na segunda, meu último dia na cidade, fui a Rua 25 de marco e na USP. Almocei no restaurante da Escola de Comunicação e Arte e estive na sala da Cremilda Medina - pela primeira vez em SP senti vontade de tirar uma foto: na porta, com o nome dela!

A viagem foi de avião. As pessoas me amedrontaram, afinal fazia um mês da queda do avião da TAM. Não tive receios, mas na hora em que ele subiu senti uma leve tontura, no entanto correu tudo certo: vôo no horário, pouso sem traumas, malas na esteira certa... Só demorei pra sair do aeroporto, tinha fila pra sair! E demorei 30 minutos nela, metade do tempo de vôo Campo Grande - São Paulo. Fiquei de 2 a 6 de agosto na capital de São Paulo, tempo muito bem aproveitado e intensamente vivido. Agora quero mais!

Entre Aspas: Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Clarice Lispector em A Descoberta do mundo. A frase do livro, da minha autora predileta, fazia parte da exposição sobre ela, na Estação da Luz.

PS: Não podia deixar de contar que vi o Luiz Fabiano, aquele ator que fazia propaganda das Casas Bahia (quer pagar quanto?). Ele estava andando na Paulista falando no celular. Gestos largos e jeito delicado... Caminhava a passos lentos e parecia combinar um programa com alguém...

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

O céu é de Hermila


A simpatia e o sorriso da atriz agora se misturam com seu sotaque pernambucano e já não lembram mais a mulher forte do filme que acaba de ser exibido. Hermila Guedes é a protagonista de "O Céu de Suely", que abriu o Festival de Cinema de Campo Grande. A jovem de 25 anos fez questão de participar do evento e viajou 12 horas para chegar à capital sul-mato-grossense.

No filme ela interpreta Hermila, 21 anos, que retorna à sua cidade natal, no interior do Ceará, após ser abandonada pelo namorado. Ela decide, então, rifar seu corpo para sobreviver e iniciar uma nova vida.

A atriz é a nova musa de Karim Aïnouz. Em seu segundo filme, dirigiu "Madame Satã" em 2002, ele agora lança mão de uma edição onde os tempos longos e enquadramentos inusitados também fazem parte da história. "O Céu de Suely" é um filme de silêncios.

A idéia do longa, que traz uma crítica social, surgiu de uma notinha de jornal. A partir daí, Karim Aïnouz misturou sua história a outras que ouviu e o resultado pode ser visto nas telas de alguns cines artes do país.

Assim, como Hermila, a personagem, Karim também viveu com a tia e a avó. Ele levou os atores e toda a equipe para Iguatu, no Ceará. As atrizes tiveram suas roupas confiscadas e começaram a viver e a se vestir como as personagens.

Na hora de gravar as cenas, Karim substituiu o famoso "Ação" por "Continuando". A escolha de utilizar os nomes dos atores nos personagens veio dessa idéia de fazer a ficção mais real. Georgina Castro, que interpreta uma trabalhadora do sexo no longa, também veio a Campo Grande para abertura do festival. A atriz conta que a experiência foi única e gratificante e que muitas vezes se confundiu com a personagem. No elenco do filme estão ainda os atores João Miguel, Marcélia Cartaxo e Flávio Bauraqui.

A protagonista, Hermila Guedes, revela que a entrega foi total e que considera estranho ver os 88 minutos de filme já que gravaram 42 horas. "O Karin teve de escolher qual filme ele queria, é um pedacinho do que a gente fez", diz a atriz, que usa vestido moderno e grampos para prender o cabelo.

Hermila revela que a equipe do longa vivenciou Iguatu, e que a cidade não teve de parar por causa da produção, mesmo tendo muitas moradores atuando como personagens do filme. A atriz conta que gosta de desafios, mas diz que teve dificuldade nas cenas de nudez. "É quase uma pessoa arreganhada", fala, em meio a uma gostosa gargalhada.

Ao assistir ao filme naquela noite, ela garante que passou da fase da autocrítica para conseguir pensar dentro do filme. "Nos debates, também tem comentários que são legais, faz te ver o que você não viu". Naquela noite, uma pessoa da platéia a fez perceber que os homens do filme são passivos e que são as mulheres as protagonistas da história.

Rodado em 2006, "O Céu de Suely" já acumula vários prêmios no Brasil e no exterior. O longa recebeu os prêmios de melhor filme e melhor atriz (Hermila Guedes), no Festival de Havana, em Cuba; troféu Redentor de melhor filme, melhor diretor e melhor atriz (Hermila Guedes), no Festival do Rio; e melhor roteiro, mérito artístico e o prêmio FIPRESCI, no Festival de Salônica, na Grécia.


Uma nova estrela

A atriz interpreta sua primeira protagonista em "O Céu de Suely" e diz que ao terminar o trabalho teve a sensação de missão cumprida, mas se mostra surpresa com a reação das pessoas e da crítica. Ela avalia que teve sorte em começar em filmes que estimulam as pessoas a pensarem na realidade do país. "Quero fugir dos filmes comerciais".
Ela é considerada hoje uma das grandes revelações do cinema brasileiro. Uma responsabilidade que a atriz diz receber com muita sensibilidade. "Sei que ser considerada uma promessa é muita responsabilidade, pois é viver o sonho de muita gente", ressalta.

Hermila começou fazendo cinema e não fez teatro. "Acredito que isto me possibilita interpretar com mais realidade. Deixo minha intuição me guiar", confessou. Ela esteve também em "Entre Paredes", de Eric Laurence, e no longa-metragem "Cinemas, Aspirinas e Urubus".

Aclamada pela crítica, Hermila Guedes recentemente interpretou a cantora Elis Regina no especial da TV Globo, surpreendendo pela semelhança e interpretação. Até então ela tinha medo de fazer TV por considerar difícil. No entanto, não teve como recusar o convite para interpretar Elis Regina. "Tinha medo porque achava que ia ser difícil e foi. Em duas semanas tive que fazer uma mulher intensa, trocar meu sotaque pernambucano pelo gauchês dela", argumenta.

Ela diz que valeu pela homenagem, mas que queria ter vivenciado mais para a interpretação. "Me ferrei. É muito difícil mesmo", confessa. Quanto a novelas, Hermila diz que não pode morrer falando que não gosta sem nunca ter feito. "Vou fazer para saber como é, mas quero que as pessoas continuem vendo o personagem e não a atriz, que é o que acontece quando se faz TV", avalia.

Hermila segue agora para o teatro com a peça "Noite Feliz". Nasce uma grande estrela que já brilha no Céu. E nesta noite o céu é todo dela, o céu é de Hermila.

Já, o longa "O Céu de Suely" é um filme sem globais, de baixo orçamento que pode ser resumido pelas palavras da atriz: "Não diz nada e diz tudo ao mesmo tempo".

O festival de Cinema de Campo Grande segue com a exibição de mais de 40 filmes até o dia 11 de fevereiro. O Cinecultura está localizado no Pátio Avenida, que fica na Avenida Afonso Pena, 5.420. Mais informações sobre o festival no site www.cinecultura.com.br ou pelo telefone 3027-5858.
 
Entre Aspas: Se fica agarrado ao que tem agora nunca vai saber o que a vida poderia te dar depois.