quinta-feira, 9 de março de 2006

Entrevista com Marina Martins



Enfim a segunda entrevista do meu fotolog (blog). Essa é com Marina Martins. (A primeira foi com a Laiana há oito meses atrás). A entrevista foi realizada no dia 10 de junho de 2005 no Centro Acadêmico de Jornalismo (Caju) da UFMS. Desta vez quem exigiu a entrevista foi a entrevistada. Marina me intimou a fazer a entrevista.


A Personagem Marina:

Ela tenta nos remeter para a menina simples, de monocelha, com cabelo à la Chitãozinho e Xororó, de joelhos grandes, com pés descalços e sujos. Mas, o que vemos é uma mulher linda com rosto de menina que para alguns é inimaginável lavando roupas. Apaixonada, responsável, frágil, perfeccionista e inteligente, ela logo nos conquista e faz com que a admiremos.

Porém, a imagem da mulher forte e determinada é apenas uma maneira de proteger a menina carente e completamente dependente da família, dos amigos e do namorado. Dependência afetiva que fique bem claro. Por que é ela que faz a todos ficar dependentes de sua eficiência e companhia.


Confira a entrevista:

Guilherme - Eu quero que você se apresente, fale seu nome, sua idade, aonde você nasceu.
Marina
- Peraí, vamos por partes. Meu nome é Marina Martins eu tenho 20 anos. [agora 21 completos no último dia 13 de novembro]


Gui - Marina Martins?!
Ma
- Marina Martins da Silva. Da Silva do meu pai e Martins da minha mãe. Tenho 20 anos e eu nasci em Iguatemi, uma cidade pacata e bucólica que fica no sul de Mato Grosso do Sul.

Gui - E o que você faz da vida?
Ma
- Eu... Faço faculdade de jornalismo, 3º ano [4º ano agora], eu faço estágio em telejornalismo numa emissora de TV. Faço cursos...


G - De?
M
- Eu faço curso de inglês, no momento é o que eu estou fazendo agora, porque o resto eu tive que parar tudo por caso do trabalho, né? Eu... Que mais que eu faço? Eu faço, eu gosto de fazer artesanato, então eu faço com a minha mãe nos finais de semana. Eu uso esse meu tempo livre pra fazer artesanato e pra mexer com essas coisas que eu gosto.

G - Aonde você faz estágio? É uma emissora de TV, que emissora é essa?
M
- Na TV Guanandi, a TV Guanandi é filial da TV Bandeirantes (Canal 13).

G - Que programa que você faz lá?
M
- Eu faço o "Shopping da Cidade" que é programa de compras, aliás um programa de vendas, que passa às 18h05, todos os dias, de segunda a sábado, vou fazer um merchan e é um programa da TV Guanandi, não é terceirizado, não é enlatado. E eu sou contratada da TV pra fazer esse programa. [Agora Marina trabalha pela manhã no Zoom Rural, no canal 2 da net, e no jornalismo da TV Guanandi]


G - Eu queria você contasse como foi a sua infância. Como você era quando criança? Do que você brincava?
M
- Ai meu Deus, minha infância foi muito feliz passei em toda em cidades do interior, bem pequenas... minha família é muito grande, então vivia rodeada de tios, primos, amigos. Recebi sempre muito carinho, amor, atenção. Minhas brincadeiras eram saudáveis, minhas casas sempre tiveram um grande quintal, com terra, árvores, frutas, lugar pra correr, se sujar também sempre me dei muito bem com meus irmãos, e brincávamos juntos... foi uma infância deliciosa.

G - como você era quando criança?
M
- Bom, fisicamente, parecia mais um menino.,tinha cabelos curtos, sombracelhas grossas, pernas finas, sempre machucadas, magrela. Minha personalidade não era muito diferente do que é hoje, tinha sempre opinião sobre as coisas, era comunicativa, falante mesmo. gostava de liderar as brincadeiras, inventar era comigo mesmo...

G - Do que você brincava?
M
- Brincava na rua, de correr, de pipa, bicicleta, bola, queimada, bandeirinha, carrinho, boneca, de tudo, gostava de ir até as fazendas vizinhas, pra mexer com os bois, sempre gostei de boi, vaca, outra brincadeira, quando fiquei mais velha, era inventar com meus irmãos, programas de rádio, ganhei um gravador,, de tv... fazíamos um jornalzinho...etc

G - Como foi sua adolescência? o primeiro namoro...
M
- como todo adolescente, devo ter sido meio boba, às vezes me lembro de algumas coisas e dou risada. Mas, desde cedo fui muito responsável, fiz cursos e comecei a trabalhar pra ganhar meu dinheiro. mas sem deixar de aproveitar minha adolescência, nessa época, fiz amigos verdadeiros, que estão comigo até hoje, me apaixonei por meu primeiro namorado, e pelo segundo, e pelo terceiro...(risos). Festei muito, aproveitei as novidades, mas sempre com responsabilidade. Nunca fumei, nem usei drogas, nem mesmo maconha. Mas tudo foi válido, fui amadurecendo com cada experiência e escolhendo como eu queria agir pra ser uma pessoa melhor.

G - Porque você escolheu fazer faculdade de jornalismo?
M
- Bom, eu nem sabia o que era um vestibular, mas quando descobri, decidi que ia fazer jornalismo. Eu nem sabia o que queria dizer, isso com uns 12 anos, fui crescendo, gostando de telejornais, de ler, de rádio e descobri que era isso mesmo que eu queria ser, aliás, tudo isso, meu pai me deu o maior apoio e até hoje espera me ver um dia na Globo (risos) me descobri no meu curso e na minha profissão, sou apaixonada pelo jornalismo e pela rotina, nada monótona, da redação, acho que foi isso.

G - Marina por Marina, se defina. Como você é, do que você gosta.
M
- isso é difícil, mas acredito ser uma pessoa responsável, ansiosa, determinada, às vezes aflita demais. Afoita demais, meus defeitos são visíveis: sou estressada, a paciência não é meu forte; muito exigente, perfeccionista e chata. Mas tenho qualidades também: sou carinhosa, amorosa, gosto de dar e receber atenção e sou competente.


G - Como que é sua relação comigo? Como que eu sou? Críticas e elogios.
M
- É uma relação de amor e de ciúmes, eu tenho ciúmes de todos os meus amigos. Ontem eu tive uma crise de ciúmes por causa da Maureen, antes de ontem eu tive uma crise ciúmes por causa da Maria Fernanda. Só que ao mesmo tempo em que eu sou muito espontânea quanto aos meus sentimentos, eu também sou muito fechada. A Maria Fernanda sempre me fala isso, ela sabe o que eu estou sentindo por que ela me conhece, mas eu não deixo transparecer o porquê que eu estou chateada ou o porquê que eu não estou bem. Ontem eu tive uma crise de choro porque a Maureen passou por mim e não me cumprimentou. E às vezes é uma coisa que você se vê tanto que pra você um cumprimento não é importante, mas pra mim é. E a minha relação com você é assim: eu tenho paixão por você, eu adoro ler as coisas que você escreve por que acho que você é muito inteligente. Eu falo para o Luís que às vezes eu tenho uma invejinha, eu já escrevi isso no seu blog, do que você consegue passar pra gente com o que você escreve, às vezes eu estou triste e eu leio um negócio e fico alegre, ou ao contrário. Eu fico pensando, eu começo a pensar nas coisas, eu adoro isso. Adoro seu jeito cativante, seu jeito alegre e o seu jeito de sempre ver uma qualidade nas pessoas, acho que isso é sua maior qualidade. Você consegue ver uma qualidade em todas as pessoas, em todos os seus amigos, talvez eu não consiga isso.

G - E qual é o meu defeito?
M
- Seu defeito? O seu defeito...Cara, qual é o seu defeito? Talvez o seu defeito seja você ser meio arrogante, às vezes você não aceita muita sugestão, e você acha que a pessoa nem devia estar falando com você e a pessoa está te dando uma sugestão e talvez isso seja importante para nossa vida, a gente tentar ouvir as pessoas que estão de fora. E às vezes a gente não ouve. Não que seja um defeito, mas é o que eu me lembro agora.

G - Você é amiga de todo mundo aqui na faculdade, se relaciona bem com todos. Mas, com quem você tem mais afinidade? E Por quê?
M
- Hum, olha, são algumas pessoas, não é uma pessoa. Uma pessoa que, tirando o Luís, o Luís não conta, amigo. Cara, são muitas pessoas, se eu for falar eu vou falar uma por uma porque eu tenho mais afinidade. Mas, as pessoas que eu tenho mais afinidade são: a Laiana. Porque a Laiana é um caso de amor e ódio, sabe? A gente morou junto, então a gente passou por muita coisa junto, eu passei muita raiva com ela, ela passou muita raiva comigo, a gente brigou muito. Mas, eu amo a Laiana de um jeito, cara, tudo que ela faz eu acho engraçado, eu acho o jeito Laiana de ser, eu adoro ela. Eu tenho afinidade com ela por ela ter morado comigo e por a gente ter divido muitas coisas, muitos problemas, muitas alegrias. Ela me salvou duas vezes (risos). Eu não sei se ela falou isso para você.


G - Não, como ela te salvou?
M
- Ela e o Luís. Eu estava morrendo do coração sufocada, eu tenho arritmia, eu comecei a chorar muito, estava chorando, eu não lembro por que. Estávamos nós três, estávamos falando de algum amigo, sei lá, e eu comecei a chorar muito e começou a faltar ar, faltar ar e simplesmente acabou o ar. E eles jogaram água na minha cara, me chacoalharam na janela. Aí eu falo que ela salvou a minha vida. Outra pessoa que eu tenho muita afinidade é a Maureen. A Maureen é a minha irmãzinha, ela foi uma das primeiras pessoas que eu conheci, foi a pessoa que falou assim, ela sempre fala isso, ela se acha (imitando a voz da Maureen): "Ai, você tem jeito pra Televisão, você não quer fazer televisão?". Ela me levou para produtora, ela estava fazendo estágio e eu fui ser assistente da estagiária (risos). A gente ficou muito amiga, esse jeito da Maureen de paty, isso é tudo fachada, a Maureen é uma pessoa maravilhosa, a gente briga demais, porque a gente tem opiniões muito diferentes e a gente disputa. É uma coisa de disputa que eu não tenho com as outras meninas e que ela não tem com as outras meninas, a gente disputa o tempo todo. Talvez quando a gente for profissional a gente vá disputar, ou vá trabalhar juntas. Eu adoro trabalhar com a Maureen, adoro estudar com a Maureen, adoro ser amiga dela. Amo a Maureen porque ela me alegra. Ela que vai atrás de mim. Outra pessoa, eu não posso falar de todos, a Marê, a Maria Fernanda,a Priscilla, a Vivi, a Abelha, a Manuela, a Isabel, com todas elas eu tenho uma certa afinidade, com as meninas é mais a Maureen e a Laiana, por essas questões, e com os meninos é o Gui, você, que eu acho que tenho mais afinidade, por que você tem sempre uma palavra pra animar a gente, toda vez que eu precisei você estava junto comigo, você dividiu as coisas comigo. Eu conto as coisas pra você. As primeiras coisas que acontecem na minha vida eu conto pra Maureen, pra Laiana e pra você. São sempre as primeiras pessoas a saber, quando eu estou desanimada eu conto, quando eu tenho dúvidas, dificuldades. E você sempre me ajudou, foi muito alegre e completa essas horas que não está muito bem, acho que é isso que é ser um amigo mesmo. Acho que são essas três pessoas.


G - É... quase chorei mas tudo bem, rs. Você quer trabalhar com o quê?
M
- Trabalhar?


G - TV, impresso...
M
- Eu quero continuar fazendo jornalismo, que fique bem claro, eu não quero mudar de profissão. Mas, talvez, eu não tenho vontade de trabalhar em impresso, aliás, eu tenho vontade de passar, mas a minha grande vontade, a minha grande paixão, é o telejornalismo. Talvez não apresentando, sendo repórter, nada disso, mas na produção, me identifico muito com a produção de telejornalismo, adoro fazer produção e adoro editar também. Adoro edição, essa parte de produção e edição, acho que vou acabar indo para esse lado. Eu acho que vou largar um pouco, não sei se meu pai vai gostar muito disso, mas acho que vou acabar fazendo isso que é o que eu mais gosto.


G - Como você se vê daqui dez anos? Você vai ter 30 anos, eu quero você fale como você se vê, sonho mesmo, você vai estar casada? Vai ter filhos? O que você vai ter feito?
M
- Cara, eu sempre penso isso de dez anos, dez anos é rapidinho. Daqui 20 anos é mais longe. Eu acho que com 30 anos eu vou estar casada, vou estar casando, porque eu acho que encontrei a pessoa com quem eu quero me casar, e com quem vou ser feliz. Mas, filhos não vou ter, mas também não vou demorar muito para ter filho não, no máximo com 32. Deixa eu te contar uma estatística, não sei se está muito certa, mas, já ouvi.


G - Você assiste Sob Nova Direção (risos)?
M
- Não, mas não é essa da Pitty. Quando a mulher tem 20 anos ela tem 90% de chance de engravidar, quando ela tem 30 anos essa chance cai para 70%, quando ela tem 40 anos essa chance cai para 40%. Então é uma queda muito radical. Esses dias eu estava lendo e não acreditei, mas é verdade, e é muito grande, então se eu deixar pra ficar grávida muito tarde eu posso ter complicações e não ter mais filhos. E eu quero ter muitos filhos, muitos assim, uns três ou quatro, acho que quatro. Depende da minha situação financeira, que eu não quero por filho no mundo sem ter como criar. Mas, acho que quero ter uns quatro e um temporão, porque quando os outros estiverem na faculdade eu quero ter um pequeno perto de mim. Ou pelo menos vou adotar, eu tenho essa vontade adotar e tenho vontade de ter um filho negro, eu sempre quis isso. Minha mãe falava que ia casar com um negão. Então, eu acho que vou acabar tendo três filhos e adotando uma criança.


G - O que você já vai ter feito? Você vai estar em Campo Grande?
M
- Difícil isso. Eu comprei um apartamento e eu tenho que ficar muito tempo em Campo Grande, só que eu não me vejo aqui eu me vejo em outra cidade, casada com filhos, mas em outra cidade. Trabalhando, meu marido também trabalhando. Mas, não aqui em Campo Grande. Vindo em Campo Grande nas férias, talvez Brasília, ou alguma coisa assim. É um sonho, não tenho nada de perspectiva, nada em vista. Eu vejo Brasília, Goiânia, Aqui no Centro-Oeste mesmo, eu vejo isso.


G - Como você vê o jornalismo de uma maneira geral?
M
- Hoje? Ai, Gui pergunta difícil. O jornalismo de maneira geral: melhorou muito tecnicamente, melhorou muito em produção. O jornalismo regional está muito legal, só que quando você começa a estudar você começa a ser mais crítico. Eu assisto hoje ao MSTV, eu não agüento mais assistir, tem horas que eu falo meu Deus o que a gente está fazendo? Porque a gente está fazendo isso. Tanto que esses dias passou um negócio assim: Trabalho infantil lá,lálá,. Eu falei aconteceu alguma coisa, o que aconteceu que eles estão querendo mostrar? Aí que eu fui ver que a Regina Rupe tinha feito não sei o que lá, estavam assinando um documento, aí eles tocam no assunto. Eu acho que jornalismo poderia ser um instrumento social, só que acho que não é, se desvirtuou.

G - Você acha que está muito preso ao factual?
M
- É. Esses dias a gente recebeu uma pauta assim: Estão assaltando muitas lojas, porque vocês não fazem uma matéria sobre a segurança da Capital, diz que a polícia estava envolvida no meio. E o que a gente respondeu? Que não daria para fazer, que era muito rápido o negócio e a gente tinha que fazer a notícia do dia, nem quem a notícia do dia fosse: Morreram tantas pessoas. Porque para o jornalismo hoje você pode ver todos os sites, todos os telejornais, vão dar o mesmo acidente que morreu tantas pessoas. Todos. Ontem, morreram três mulheres na saída para Três Lagoas, tinha várias notícias importantes, várias notícias que poderiam ser mais exploradas, em Iguatemi mesmo apreenderam duas toneladas de maconha, tinha aquela notícia de empresas de captação que foram fechadas, aquilo é muito importante, aquele negócio de compra programada é ilusão, já enrolaram um monte de consumidores, para ele pagar a vista. "Ah, eu estou precisando de empréstimo de R$ 100 mil, tudo bem, mas você vai ter que pagar as taxas administrativas de R$ 7mil, você deposita na minha conta e amanhã R$ 100 mil está na sua conta", então o babacão vai lá e deposita e a empresa some com os documentos, tudo falso, tudo estelionatário. Isso aconteceu ontem, e todo mundo falou que foi preso, ninguém foi a fundo. Era um negócio importante de ser divulgado, mas o acidente teve muito mais repercussão do que isso. Então isso às vezes desanima, mas você sabe que é assim que você vai ter que conviver com isso. É o comércio e o sensacionalismo na TV, o tempo todo.


G - Como você avalia o governo Lula?
M
- Gente que forte! (risos) Governo Lula? Cara, olha vou falar bem a verdade, eu não sou de nenhum partido, mas eu odeio o PT. Eu odeio o PT, não por experiências minhas, mas por experiências da minha mãe. Eu acredito muito na minha mãe, e ela disse que acreditava no Lula, votou no Lula antes, quando eu era criança, e que nada deu certo e que se desvirtuou. E agora o que a gente está vivendo agora, é um partido que é dominante, que está governando o Brasil, que é uma coisa muito importante, um partido que se dizia arrojado, que ai mudanças, nós temos muitas mudanças, vamos ser ousados e lá, lá, lá, e está com a mesma ladainha do governo anterior, dos governos anteriores, está com as mesmas palhaçadas, política não tem jeito. Questão de mensalão, isso sempre existiu, não é só nesse partido é em todos os partidos. Uma vergonha, esses dias a gente estava vendo que deputado vai ter um recesso agora no meio do ano, pra quê que deputado tem recesso no meio do ano? Às vezes eu tenho uma postura até meio radical, eu queria que político não ganhasse nada. Recebesse só lá seu auxílio, um salário normal como de qualquer cidadão, R$ 1000. Por que se a intenção que não foi deturpada, a intenção verdadeira de um político, eu quero ajudar o povo, eu quero fazer pelo povo, então isso aí vem dele, ele não tem que receber por isso. Não tem que receber por isso, não tem que receber auxílio paletó, não tem que receber porra nenhuma. Eles só roubam dinheiro. Eu tenho um negócio com político que assim ,eu não conheço nenhum partido, não vou muito afundo nessas questões, mas eu acho que eu procuro sempre levar é: o social está bem? Não, não está bem. É só com os políticos, talvez não. Eles fazem discurso de paletó, enquanto as pessoas estão passando fome, eles têm auxílio paletó enquanto as pessoas passam fome e não têm onde morar, nem o que se vestir. E ficam fazendo discurso, eu odeio demagogia e odeio hipocrisia. E político pra mim é hipócrita no Brasil hoje.


G - Iguatemi. Você falou que seus pais voltaram a morar em Campo Grande, você acha que Iguatemi nunca mais ou você volta a morar lá um dia?
M
- Não. Eu acho que não volto a morar em Iguatemi, talvez eu possa voltar pra Iguatemi, numa questão assim, eu sempre tive vontade de ajudar Iguatemi a crescer, alguma coisa nesse sentido. Mas, como eu não sou empresária, nem pretendo ser. Talvez eu seja uma empresária, talvez eu instale uma indústria em Iguatemi que ajude a crescer, por que eu tenho um carinho especial por Iguatemi, por que lá é a cidade que nasci, onde meus irmãos nasceram, onde eu tive a minha infância, onde eu passei a maior parte do tempo com meus avós, que a minha avó já faleceu, então assim eu tenho esse carinho por Iguatemi. Mas voltar a morar lá eu acho que eu não volto. Não é que Iguatemi nunca mais, agora com meus pais aqui fica muito mais difícil eu ir pra lá. Eu tenho alguns tios e primos lá, mas é muito mais difícil agora eu ir pra lá. Quando meus pais estavam lá já era difícil. Mesmo assim meus amigos me cobram, a gente vive falando, eles vivem me cobrando, mas tenho vontade sim de ir lá passear, encontrar meus amigos, quando eu tiver um tempo, eu vou com certeza, não vou dizer nunca mais. Mas, com relação a morar e trabalhar não. Agora eu não sei, o futuro, vamos dizer que eu consiga me fazer profissionalmente e tenha condições de dar melhoria para o povo eu vou dar porque Iguatemi é muito carente. É uma roubalheira, a prefeitura é roubalheira, o povo sofre, e o povo é burro, passa fome, mas vai atrás de pessoas que prometem. O povo é ignorante porque não têm professores descentes, essa questão de fazer capacitação de professores. O que precisa em Iguatemi, eu acho que no Brasil todo, é de educação. Nesse sentido, eu ajudaria se eu tivesse condições, tenho vontade.


G - Como é Iguatemi, o que tem lá de bom? A praça, a igreja...
M
- Tudo é bom em Iguatemi. Iguatemi, a praça, na verdade, têm duas praças. Uma praça tem a quadra de futebol, o futebol de areia lá, que é em frente da casa de uma amiga minha, que todos os eventos, carnaval de rua a gente ficava lá na frente da casa da minha amiga, e tem o parquinho, tem a biblioteca da cidade, que é bem pequenininha, mas é lá que fica. E a outra praça é a praça da igreja, que eu passei muito tempo também, que daí tem o salão paroquial. O pessoal não se encontra mais em praça, tem um lugar em Iguatemi onde todo mundo se encontra que chama New Point, que é uma lanchonete, começou com um trailer e todo mundo começou a se encontrar lá, então começou a crescer e virou uma lanchonete grande, e todo mundo que vai pra Iguatemi vai pra New Point, até o Luís já foi pra New Point jogar sinuca quando ele foi lá (risos).


M - Na entrevista com a Laiana ela disse que não conhece ninguém da nossa idade que seja tão responsável quanto você. Da onde vem essa responsabilidade toda?
G
- Ai meu Deus. Eu não sei, foi o que eu te falei aquela hora o que eu achava sobre mim, eu me cobro muito das coisas, sofro antecipadamente, e eu tenho mania achar que eu tenho que carregar tudo que está em volta de mim nas costas. Eu tenho que dar um jeito. Se meu irmão não está bem eu tenho que ajudar, se meu namorado não está bem eu quero ajudar, se a minha mãe está precisando de alguma coisa, eu quero ir lá na casa dela fazer, e ao mesmo tempo eu quero estar trabalhando, quero estar aqui na universidade, sair com quem tiver saindo. E ao mesmo tempo eu quero pagar todas as minhas contas, se eu fico devendo uma conta eu fico enlouquecida, pode ser uma conta de R$ 10. Acho que essa responsabilidade minha mãe me passou, o meu pai me passou, os meu avós, só que eles nunca me cobraram tanto para que eu fosse tão responsável. Eu sinceramente não sei da onde vem essa minha mania e é chato isso. Eu incomodo as pessoas, eu irrito, eu sou perfeccionista e eu sou adulta, eu fui adulta muito precoce, fui morar sozinha, aprender a pagar as contas, trabalhar, fazer compra, lavar roupa, limpar casa, a cuidar do meu irmão que estava doente, tudo isso, sabe? Eu não sei, sinceramente, os meus pais me passaram isso, mas nunca me cobraram tanto. Eu não sei da onde que vem é uma coisa minha mesmo, é pessoal, não sei se meu filho vai ser assim, vou passar os valores para ele. Mas, também não quero que... Isso faz a gente sofrer também, sofre porque a gente cobra das pessoas o que elas não podem dar. Daí você chega em casa e põe a cabeça no travesseiro e pensa que não deveria ter feito aquilo, então se cobra por ter cobrado outra pessoa. Isso é muito ruim, é muito complicado.


G - Você tocou no ponto de morar sozinha, hoje, por exemplo, você mora sozinha por opção, por que seus pais moram em Campo Grande. Fale dos pontos negativos e positivos de morar sozinha.
M
- Os pontos negativos, primeiro, de se morar sozinha: eu odeio solidão, odeio ficar sozinha, então eu não posso ficar sozinha, quando eu estou sozinha eu vou atrás do meu namorado, ou eu vou atrás da minha mãe, ou eu vou pra casa da minha tia, que é super perto, vou ver o Diego, ou eu ligo para minha prima, que é perto também e vou pra casa dela, então eu não gosto de ficar sozinha. Tinha medo de dormir sozinha logo que a Laiana foi embora, eu chorava a noite, sentindo a falta dela. Tem pontos negativos nesse sentido, de você não poder contar com a pessoa o tempo todo. Eu já sentia a presença dela ali o tempo todo, isso é ruim. Agora os pontos positivos. Eu moro sozinha desde que eu sai de casa, eu tinha 17 anos e você adquire uma responsabilidade e você, é engraçado, eu sempre uso esse exemplo, você vai à banheiro, você faz suas necessidades e não tem papel higiênico, você não vai poder gritar para sua mãe, você vai ter que descer e comprar o papel higiênico. É tudo mais complicado, mas ao mesmo tempo é muito engrandecedor, faz você crescer, faz você aprender as coisas, é bom porque você vai arrumando o seu cantinho. Eu como estou comprando o meu apartamento, eu quero comprar as minhas coisas eu fiz a minha cozinha, eu quero fazer o meu banheiro, e isso é muito bom quando você vê que você fez aquilo com o seu dinheiro e que o canto é seu. Isso é muito bom, as pessoas respeitam, meus pais confiam plenamente em mim, plenamente, por eu já morar sozinha, tanto que agora eles mandaram meu irmão para eu cuidar né? Para morar comigo, e eu sou super, coitado do meu irmão saiu uma mãe chata para ficar com uma irmã pior.


G - Quando você começou a gostar do Luís? Qual foi o primeiro dia que vocês ficaram?
M
- O primeiro dia, ai que vergonha, na segunda-feira começaram as aulas, na quinta-feira a gente ficou (risos). Eu o conheci na segunda-feira, aí ele ficou me cantando a semana inteira e eu bobona não estava percebendo, só que eu também o achei bonitinho, daí ele me chamou para ir na festa de um veterano dele, daí eu chamei a Laiana, foi a única que aceitou ir na festa com a gente, daí a gente foi. Eu fiquei muito bêbada, eu tinha mania de ficar bêbada, agora não, e aí eu fiquei com ele. Ele roubou um beijo, eu fiquei brava no começo, mas depois... E no começo eu não queria muito ficar com ele por que eu tinha acabado de terminar um namoro e vim pra Campo Grande pensando vou entrar pra faculdade, não vou namorar ninguém, vou festar muito. E não foi isso que aconteceu, eu festei muito, conheci muitas pessoas, lógico, mas conheci uma pessoa muito importante também, que eu agradeço até hoje. Só que eu só fui perceber isso uns três meses depois quando eu chorei. Foi no dia 1º de junho em um churrasco na casa do Hélio, que daí a gente começou mesmo, a gente já estava namorando, mas foi nesse dia que eu me toquei que eu gostava dele mesmo, que eu queria ficar com ele.


G - Vocês vão se casar, ter filhos?
M
- Vamos. A gente vai casar. A gente faz planos para casar, não agora, a gente está estudando, a gente não tem nada. Mas, a gente fala: eu tenho o apartamento, ele tem o carro. A gente vai casar, a gente tem muita vontade, eu tenho sonho de casar, de ser um casamento diferente, dos meus amigos todos serem meus padrinhos, e a gente vai ter filho, ele vai cuidar dos nossos filhos todos muito bem, ele vai ser um pai maravilhoso, um marido maravilhoso, ele é maravilhoso.


G - O que você sente por ele? O que faz ele ser especial pra você?
M
- Ai, eu vou chorar. Ele é uma pessoa responsável, como eu. Ele é responsável, ele é batalhador, ele é carinhoso, ele me aconselha, me ajuda, sei lá, ele é muito respeitado pelas outras pessoas. Ele se faz respeitar, gosto muito disso nele, ele preza muito o respeito, por mim também, a gente se respeita muito e se ama muito, sei lá, ele é tudo isso e mais um pouco. Ele é um monte de coisa.


G - Você é uma pessoa forte e decidida, mas ao mesmo tempo é frágil e desprotegida, como é isso?
M
- Pior que é, né? É verdade, principalmente quando é pra lutar pelas pessoas eu sou mais forte, eu sou decidida pra ir atrás das coisas que eu quero profissionalmente, mas eu sou muito carente, muito frágil, muito insegura. Muitas vezes tenho insegurança, fico às vezes em dúvida, às vezes eu preciso ligar pra casa da minha mãe pra ouvir a voz dela, pra ela me dar um pouco de força, por que as vezes eu estou lá fazendo tudo dia-a-dia, pagando conta, limpando casa, indo trabalhar, fazendo almoço, levando meu irmão pra faculdade e aí chega no final da noite que eu estou tão cansada que eu começo a chorar, eu quero colo, que eu quero dormir. Tenho vontade de voltar a morar com a minha mãe para não ter mais essas responsabilidades. Que na verdade eu gosto disso, por isso, que eu preciso dos meus amigos, preciso de atenção, sou ciumenta e preciso do Luís né? Ele que me ajuda.


G - Agora é o bate-bola
M
- Eu não vou saber falar, me ajuda...


G - Família
M
- Tudo



G - Um lugar
M
- A minha casa


G - Um exemplo
M
- O meu pai

G - Amor
M
- (imitando voz de criança) o Luís


G - Amizade
M
- Amizade? Eu preciso de amizade, eu preciso dos meus amigos, eu preciso de todos vocês o tempo todo.

G - O Brasil
M
- É lindo


G - Jornalismo
M
- Jornalismo, que difícil. Jornalismo é o que eu quero.


G - Uma qualidade
M
- Sinceridade


G - Um defeito
M
- Mentira


G - Sonho
M
- Me realizar profissionalmente e ser feliz


G - Escrever
M
- Ah! É bom para extravasar, mas eu não sou muito boa nisso (risos)


G - Um momento de alegria, da sua vida
M
- Foi quando eu fiz dez anos, eu vou chorar, que estava todo mundo na minha casa. (chorando). A minha avó, a minha tia, todo mundo que já morreu e não está mais aqui, todo mundo que é importante para mim, meu avô. Foi uma festa linda que era do Bozo e tinha balões, que minha mãe fez no papel vegetal, que eram uns girassóis.


G - Um momento de tristeza
M
- Tiveram muitos, mas eu acho que todos se resumem na morte da minha avó, do meu avô, da minha madrinha, de todo mundo, mas a morte da minha avó que começou.


G - Paterna?
M
- Paterna, foi com ela que começou, foram perdas significativas pra mim.

G - Uma frase
M
- Ah, tem várias, cada uma fala de uma circunstância, depende, mas eu acho que no momento é: "não importa sua idade, nem o tamanho do seu sonho, você pode mais do que imagina..."


G - Um recado final.
M
- Ai, meu Deus, agora Guilherme? Cara, um recado final? Eu quero dizer que eu amo todos os meus amigos e que mesmo com a distância, não daqui de Campo Grande, (chorando) eu continuo preservando todos eles, zelando por todos eles por nossa amizade, e pela confiança que eu tenho nas pessoas, pelo amor, porque eu acho que é o essencial. Eu amo muito minha família, mas eu amo demais os meus amigos, eu preciso deles o tempo todo. Não é só por que eu estou distante, que eu não preciso, eu preciso o tempo todo de atenção, então eu quero deixar esse recado eu amo todos os meus amigos, que sejam todos felizes, perto de mim.


G - É isso, obrigado.

Marina é a filha mais velha de Marcos João da Silva e Celina Maria Martins da Silva. Têm dois irmãos: Marcus Vinicius (Vini) e Marcelo Henrique (Téio).


guilherme - 11:59:51
envie este texto para um amigo - 4

domingo, 5 de fevereiro de 2006

Porto Murtinho encontra a arte

"Espetinho, Cachorro quente, bebidas e Dum Dum", diz a placa de uma barraca na Praça de Eventos, em Porto Murtinho. Mas, o que é Dum Dum? Uma comida típica murtinhense? Vamos, perguntar. O Espetinho é R$ 4, o Cachorro Quente R$ 1,50, Dum Dum não tem preço e não está à venda, é o meu marido dono da barraca. Droga! Ninguém vai poder comer Dum Dum. (rs).

Na barraca ao lado, são vendidas cestas feitas com a palha do Carandá, árvore típica da região. Quanto custa? "Uma por R$7 e duas por R$ 15", responde a vendedora. Ah, Tá!! O prédio antigo da prefeitura está iluminado com pisca-pisca, é assim sempre? "Não só na época do natal", explica o guarda. Natal, mas já é fevereiro? A pequena e promissora cidade fronteiriça tem ainda a Pizzaria Sorveteria Restaurante Tropical. Quanta coisa em um lugar só hein? Quanta modernidade!

Progresso sim. Porto Murtinho ganhou um pólo regional da UFMS (Universidade Federal de Mato Grosso do Sul), serão abertos os cursos de pedagogia e administração.
"Se não levarmos a poesia, a arte, a cultura e a beleza conosco, é inútil percorrermos o mundo. E em nenhum lugar as encontraremos".

Concurso de Miss

Não há nada mais engraçado que concurso de beleza. Descobri que sempre tive vontade de fazer cobertura de um evento desses. Não tenha medo de estereotipar. Aqui os cabeleireiros, organizadores e maquiadores todos são bibas. A meninas (todas) dizem que a amizade entre elas é o mais importante, aprendizado que levarão pela vida toda (aham).

Pelo hotel, desfilam cada uma com a faixa com o nome de sua cidade. Elas são como roupas em uma vitrine. Todos olham e analisam. A conclusão é que são meio "derrubadinhas". Mesmo assim, o concurso atrai cinco mil pessoas que tiveram de pagar R$ 3 para assistir ao desfile - único evento pago do 1º Encontro das Artes.

Na platéia os deputados federais Vander Loubet (PT) e Murilo Zauth (PFL), o dono do grupo Correio do Estado e presidente regional do PTB, Antônio Hugo Rodrigues, o secretário estadual de cultura, Silvio Nucci, a delegada regional do trabalho, Eloine Marques, o vereador de Campo Grande Edmar Neto (PSDB), o carnavalesco e colunista Francis Fabiam, entre outros.

Foi montada uma Casa para as misses ensaiarem e se arrumarem. Na primeira entrada do desfile as 25 candidatas dançaram a música de abertura do Fantástico. Era sábado à noite, e foi bem melhor do que ver Zorra Total. Nos bastidores o aroma ambiente era o de laquê. O nervosismo, a suadeira e as bichas maquiadoras imperavam no ambiente. "Deixa-me armar esse cabelo. Na passarela volume é tudo", dizia o cabeleireiro. Ah! Tinha também mãe de miss abanando, secando o suor e arrumando o cabelo das filhas. "Rio Verde vem aqui", diz um dos organizadores, aqui todas são os nomes das cidades, ninguém lembra de seus nomes de batismo.

Veja o que "pensam" e falam as misses:

Paranaíba (3º lugar). Leontina Rafa de Souza Neta, 18 anos, alta e loira. Ela foi eleita a miss de sua cidade, após ter perdido o concurso e sua família tradicional pressionar o prefeito para enviá-la como representante. Leo, apesar disso, era bonita e legal, só precisava de um pouco mais de inteligência, mas aqui isso não importa muito. "Faço cursinho, atravessei o Estado para estar aqui, viajei 800 km quero contagiar os jurados e o público através da minha beleza, simpatia e carisma. É um orgulho representar a minha cidade, quero levar a beleza da mulher paranaibense para o Brasil". Quanta modéstia!

Campo Grande (ficou entre as 5). Fernanda Moraes, 18 anos, faz psicologia na UCDB, levou dois ônibus com torcida e distribuiu camisetas com seu rosto. Cabelos pretos, rosto e corpo bonitos. Simpática, ela sorria e tentava agradar as outras meninas querendo abocanhar o Miss Amizade (não é mais Miss Simpatia). Porém, todas pareciam estar contra ela por ser da Capital como todos os jurados. Na hora de responder o que uma Miss representa, Fernanda empacou, pediu para Marisa Machado, a apresentadora, repetir a pergunta. O público vaiou. "Meus amigos e minha família estão me dando força, dá um friozinho na barriga, eu adorei estar aqui, fiz muitas amizades com as meninas, passei momentos maravilhosos", considera.

Porto Murtinho (ficou entre as 5). Marluce Ocampos, 18 anos, estudante. Não era bela nem feia, mas a simpatia com a ajuda do público levaram a menina pela passarela. Marluce viveu sua noite de glória. "Estou incentivando a meninas a valorizarem a beleza. Estou dentro da minha cidade, a expectativa está a mil, eu vou guardar para sempre essa oportunidade marcante", ressalta.

Miss Mato Grosso do Sul 2004. Laila Ramos, 18 anos, é de Dois Irmãos do Buriti e veio para passar a faixa já que em 2005 não teve concurso. Feiiinha... "Represento o nome do Estado, tenho que estar sempre bonita. No Miss Brasil, fiquei trêmula, o país inteiro nos vendo ao vivo, mas foi fantástico representar nosso Estado. Fui sozinha para lá.Hoje dei muitos conselhos de como se portar e de como é o dia-a-dia de uma miss", fala a "segura" e "experiente" miss.

Ponta Porã. (ficou entre as 11). Elizabete Auxiliadora Fernandes Calanga, 23 anos, trabalha fazendo cerimonial e de atendente em uma clínica de estética. Ela se destaca das outras por ter uma beleza exótica, usa um enorme topete e brinco de argola grande e dourado. A maquiagem é pesada. "Eu vim pra ganhar, acho que a beleza exótica é o meu diferencial. É um orgulho muito grande representar minha cidade, a convivência não é fácil, mas mesmo assim fizemos amizades. Agora deixa eu subir lá (sic) para ganhar!". Acho que não deu né?!

Amambaí (ganhou o concurso e é a Miss MS 2006). Rayssa Espíndola, 18 anos, é estudante e trouxe 45 pessoas para torcida. A moça foi modelo durante um ano em São Paulo, voltou a MS para o Miss, na preparação engordou 8 kg. Onde? Na sua cidade tem um projeto de inserção de jovens no mercado da moda. É bonita (não muito, mas é) e tem uma simpatia radiante. Entra com braços abertos na passarela e conquista os jurados. Abanando Rayssa, está a mãe Célia. "É emocionante, sou uma mãe coruja, a faixa veio com o acento no "i" está errado", defende. Rayssa está preste a entrar de maiô na passarela. "Dá um friozinho na barriga, os jurados fazem um raio X em nosso corpo, essa parte conta bastante", afirma. Depois de ganhar o concurso a menina prometeu ampliar seu projeto social. Tudo pela paz mundial!

Dois Irmãos do Buriti (26º lugar, eram 25 participantes). Patrícia da Silva Oliveira, 18 anos, estudante, parecia irmã de uma "amiga" nossa. Era feia, o cabelo com relaxamento era ondulado da raiz até a metade e alisado nas pontas. Na noite do desfile, fizeram uma maquiagem e "arrumaram" o cabelo da menina de uma maneira que a deixava mais feia. O seu vestido era brega. Nada salvava? Não, e para piorar, quando entra na passarela, Patrícia tropeça, ela está nervosa, os olhos enchem d'água. Tento entrevistar Patrícia, de tão nervosa ela mal consegue me olhar, a única coisa que consegue dizer é: "Estou nervosa". Deu para perceber Patrícia.

Sidrolândia (ficou entre as 25, rs). Istela Lissara, 18 anos, loira falsa, baixinha, cabelo escovado, lente azul, nariz e soberba grandes. A moça tinha uma agente que respondia as perguntas por ela já que não tinha cérebro o bastante para pensar. "O que você leva de aprendizado para sua vida?", pergunto. "O que eu posso levar de aprendizado?", ela questiona para a agente. A mulher responde por ela. No fim ela consegue dizer que terá uma boa lembrança de tudo. Olha até conseguiu formular uma frase sozinha, aprendeu bastante garota!

Santa Rita do Pardo (também ficou entre as 25). Nádia Bronze, 23 anos, formada em jornalismo pela UFMS, faz mestrado em Curitiba e já ganhou o prêmio jornalista amiga da criança. "O que você faz em um concurso de miss?", questiono. Ela responde: "Desde pequena meus pais e amigos diziam que eu seria a Miss Brasil 2000. Os concursos estão evoluindo, os penteados, as roupas, a mulher brasileira não é só bonitinha, tem que trabalhar, lutar, ter conhecimento. Além disso, é uma experiência conhecer outros lugares outras pessoas", diz a morena de 102 cm de quadril. Simpática, Nádia se cobre apenas com um pano azul. Pena que miss tem que ser magricela e burra né?

Bonito...ops...ela não participou, mas no outro dia sua faixa era usada por Ney Amaral, biba organizadora do concurso que desfilava com o pedaço de pano branco pelo hotel. "Miss é um jogo, elas são embaixatrizes da beleza. Hoje esse concurso foi uma superação. Vamos fazer uma forte preparação para o Miss Brasil que acontece dia 1º de abril, quero ir para concorrer e não apenas participar". Tudo bem Miss Bonito...rs.


O MISS MS foi transmitido ao vivo pela TVE Regional. O MISS Brasil será transmitido pela Band. Ah! Quanta bagagem para meu currículo emocional e intelectual

Entre Aspas: Cada um por si e ninguém ajuda o resto. Frase da peça Dois Perdidos em uma Noite Suja.

guilherme - 23:16:53
envie este texto para um amigo - 3

-----------------------------------------------------------------------------

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Porã

Porã em guarani quer dizer coisa boa, bela. Bela é Porto Murtinho, cidade a 450 km de Campo Grande. Da Capital, a distância é grande, só não é maior que o calor. Quente é o povo dessa terra. Solo branco, assim como o de Corumbá. Da cidade branca tem também o Rio Paraguai. O Paraguai é bem ali do outro lado do rio. A água é turva e cheia de camalotes e chalanas. Essas embarcações de madeira dividem espaço com as balsas e grandes barcos turísticos.

Turismo é o que fizemos por lá durante o 1º Encontro das Artes. Teatro, música, poesia e exposições plástica e fotográfica invadiram a pequena cidade de 13 mil habitantes. Pessoas que nunca haviam assistido a uma peça de teatro. Durante as apresentações, gestos largos, figurinos coloridos e cenários que aguçam a imaginação e invadem a Praça de Eventos. Local construído no centro da cidade para abrigar as festas. Festa é o que os 180 artistas de Campo Grande, Nova Alvorada do Sul, Três Lagoas, Nioaque, Dourados e Aparecida do Taboado fazem durante cinco dias. Dias que são claros até às 20h30 e repletos de atividades.

Atividade é o que fazem os murtinhenses no final da tarde, quando andam em cima do dique. A elevação de terra foi construída na década de 80 para conter o Rio Paraguai que provocou duas grandes enchentes naquela época. Épocas passadas são o forte da cidade que preserva nos prédios antigos a sua história. Tempo em que havia fábrica de taninho, erva-mate e porto. As exportações marítimas voltaram a acontecer e os produtos brasileiros atravessam o Rio. Atravessam também os artistas que levaram ao Paraguai a peça "Pluft o Fantasminha". O texto de 1956 de Maria Clara Machado é a peça infantil mais encenada no Brasil. Do país, os atores levam a língua, as roupas e os costumes para se apresentar na igreja da Colônia Carmello Peralta. Em solo paraguaio, os olhos brilham com a fantástica história do fantasminha.


Fantasma é a vila de Quebracho, bairro de trabalhadores da antiga companhia de erva-mate laranjeira, que foi maior que Porto Murtinho e hoje é apenas um abandonado distrito. Outro distrito é a Colônia Cachoeira Grande, a 100 km da cidade, que também recebeu teatro. Teatro? Aqui ninguém nunca ouviu falar nisso. Isso é a peça "Chapeuzinho Vermelho na casa da Vovozinha". Chapeuzinho Vermelho? Se questionam as crianças, esse contos elas não conhecem. Sabem dos causos pantaneiros e das histórias de caçador. Aqui - na história - se caçam lobo-mau. "Mãe, um lobo!", choraminga assustada uma criança.

O menino logo fica sabendo pela mãe que na verdade é uma pessoa vestida de lobo. Ele é mau e assusta crianças e mulheres. Elas riem e voltam à infância, época em que não tiveram oportunidade de ter contato com o teatro. A arte agora faz parte de seus mundos e agora querem poder sempre assistir espetáculos. Espetacular é o concurso de Miss Mato Grosso do Sul com fogos, torcida, glamour e moças bonitas. Beleza é uma coisa relativa, e coisa para poucas nesse caso. Situação em que inteligência contava pouco. Pequeno era o cérebro das moças que mal souberam responder as perguntas ridículas dos jurados. Júri que tirou ponto por tropeços das misses e deu lugar a Miss Porto Murtinho entre as 5 mais devido a torcida.

O povo aplaudiu e levou Marluce pela passarela. Lugar que consagrou como grande vencedora a ex-modelo Rayssa de Amambai. Amambaí, dizia, erroneamente sua faixa. Outra ela recebeu com o título de Miss Mato Grosso do Sul 2006, ela é a mulher mais bela do Estado por um ano. Um ano foi o tempo em que os cabeleireiros, maquiadores e organizadores do concurso - todos homossexuais - passaram investindo nas 25 meninas que participaram do concurso. Evento que foi transmitido ao vivo pela TVE Regional.

A região sudoeste de Mato Grosso do Sul ganha mais uma festa em seu calendário. A folhinha do prefeito de Porto Murtinho, que bancou todo o evento e não mediu esforços para que ele acontecesse, é distribuída na prefeitura. O prédio antigo foi restaurado e ainda está iluminado com as luzes do Natal. Época em que a cidade também recebeu turistas e ficou com hotéis cheios. Cheio ficou o Rio Paraguai no domingo, quando todos em suas águas foram se banhar. Tomar banho de três a quatro vezes por dia é regra no calor de 40 graus.

De grau é o óculos vermelho da Maureen, que ficou com cara de intelectual, mas mesmo assim não escapou de ganhar o prêmio de "Eu Faria" no Troféu Banana. "Fruta, Salame, Mussarela!", pediam aos gritos os jovens artistas durante o café da manhã. Na refeição desse dia só serviram pão e leite. Os jovens famintos após uma noite de diversão e de um sarau no dique, em frente à prefeitura, batiam com as mãos na mesa e exigiam uma refeição melhor. Boa foi a resposta do funcionário que lembrou que eram 6 da manhã e que haviam hóspedes dormindo no Hotel Americano. Local que abrigou jornalistas, misses e críticos de artes. Os produtores da Arte (atores e diretores) ficaram na Escola Municipal Tomaz Laranjeira.

O alojamento onde faltou água e que foi palco da festa "in off" do miss e mister teatro. O tradicional evento alternativo dos festivais tem fama de festa onde acontece tudo, mas pelo menos em 2006 foi comportada. O comportamento de um vigia e de um fugitivo da polícia que se encontram em um teatro, esse é o tema da peça "Na Boca Da Noite", de Curitiba que foi encenada no colégio e participou como espetáculo convidado.

Convidada também foi a peça "Dois Perdidos em Uma Noite Suja" apresentada no antigo prédio do cinema da cidade que está em obras de restauração. Na construção, cimento, vigas, cavaletes, tijolos, arquibancada e público. Pessoas que aplaudiram calorosamente o duo Filho dos Livres que fez uma apresentação inspirada. Inspirado é o poeta Emmanuel Marinho com seus doces e críticos versos. Um deles diz: "Poesia não compra sapato, mas como andar sem poesia". Em outro poema ele diz: "Por aqui, Tudo Porã".

guilherme - 22:47:31
envie este texto para um amigo - 1

--------------------------------------------------------------------------------

segunda-feira, 2 de janeiro de 2006

Uma Vida com Quintal

O ano está começando e estamos naquela época de fazer pedidos e planos. Para 2006 eu quero uma vida com quintal, simplicidade e tempo para curtir uma sombra de mangueira no fundo de casa, proseando com os meus.

Em dois dias muita coisa já aconteceu: viajei, fui assaltado, um primo faleceu, outro nasceu, reencontrei uma amiga e amanhã é o meu aniversário. 2006 promete ser o ano dos acontecimentos, mas pretendo desacelerá-lo e fazer com que corra manso e sereno.

É o ano de correr atrás, que começa sem rédeas e sem medo de chegar. Um ano intenso (e que seja assim). Que o vento nos leve para os lugares sonhados e que a estrada possa ser divida com amigos de caminhada.

A partir de agora nosso encontro é aqui: no meu quintal, que todos entrem e se aconcheguem. Um abraço e Feliz 2006.


guilherme - 16:14:13
envie este texto para um amigo - 2

domingo, 13 de novembro de 2005

Um Duro Golpe

1º de fevereiro de 2004, amanhecia um domingo nublado e cinzento em Campo Grande. Era um dia atípico de verão, ventava e parecia que ia acontecer algo não muito bom. Os irmãos Soares antes jovens, fortes, já tinham todos passados dos sessenta, uns tinha quase oitenta anos, ou seja, estavam em franca decadência. Porém, apesar de alguns terem a saúde fragilizada, pareciam [todos] uma fortaleza insuperável.

Os nove irmãos, que perderam os pais cedo, pareciam que não morreriam nunca. A família não estava acostumada com as perdas. Dois irmãos Soares já haviam partido, mas isso fora há mais de 20 anos. Os filhos brincavam mortiferamente que quando algum se fosse iria um atrás do outro. Falavam isso sem culpa, afinal os Irmãos patriarcas e matriarcas da família eram fortalezas intransponíveis.

Só se esqueciam que ninguém é instransponível para a morte. Zeferino [Levê], 78 anos, agora o mais velho dos irmãos, frágil pela velhice e cansaço de anos da lida no mato, foi internado na Santa Casa da Capital com forte dor de cabeça. Amanheceu tomando soro. No domingo a visita seria ao meio-dia e sua esposa ficou com ele durante todo o tempo. Sua sobrinha Célia, suas irmãs e suas muitas filhas iriam visitá-lo. Os irmãos e filhos que moravam em outras cidades foram avisados.

O caso não parecia grave, já que ele fora internado algumas vezes e em estado bem pior. Mas, o quadro agravou-se. Ele não ouvia e nem via mais ninguém! A cada notícia Célia avisava o menino da esquina que repassava a notícia para sua mãe e para os outros parentes. Até que veio a sentença: ele morreria. Só Deus agora... Bastava esperar... E foram horas... A cada toque do telefone, a angústia e o medo: O que será que havia acontecido? O que será? Depois de três alarmes falsos, o inevitável aconteceu, a fortaleza foi quebrada, estraçalhada.

No meio da tarde, Zeferino, que já estava em coma, se foi. Todos choraram, todos desmoronaram, todos velaram, todos faleceram um pouco com ele. Intransponível parecia o coração do menino da esquina, que nada parece ter sentido, afinal ele já estava velho e doente! Monstro!

Depois de vários e sucessivos golpes a Fortaleza se quebrou. E uma vez rompida, o seu destino é só continuar em ruínas até desmoronar por completo. O velório foi um verdadeiro encontro. Os irmãos Soares reunidos pela dor, várias gerações do clã, as várias divisões, as diversas raças e crenças, a mesma família.

E agora via de longe todos, como se fossem estranhos a mim, para poder analisá-los friamente. Cheguei a uma triste e desesperadora conclusão: alguns irmãos Soares não durariam muito, quão fragilizados estavam. Velhinhos e acabados, era desesperador ver aquelas pessoas tão importantes, tão próximas de partir.

Depois de uma noite sem dormir, rostos abatidos, corpos magros, cabelos com raiz branca...Frágeis como uma taça de vidro, valiosos como um cristal. Agora bastava rezar e aproveitá-los enquanto dá tempo, pois depois do precedente aberto, da primeira coluna desmoronar, era uma questão de tempo...

PS: Ao longo de 2004 e 2005 os golpes foram cada vez mais fortes, mas os irmãos resistem com garra. Os nove Soares citados são irmãos da minha vó (ela está incluída!).

Números

Em 27 de setembro de 2003 criava meu blog, 55 dias depois (21 de novembro) excluía-o, por problemas no servidor, e criava outro com o mesmo endereço. De lá para cá são 737 dias. Até a coluna passada foram 59 publicações (a de hoje é a 60ª), são 42.031 palavras. Foram 204 comentários. O endereço www.guigocomvc.weblogger.com.br foi acessado 4.800 vezes nesse tempo.

Entre Aspas I: A vida é a magia de descobrir o novo no velho; de reinventar sentimentos, lugares e situações; de mudar a maneira que enxergamos o mundo. É aí que descobrimos a felicidade, que fugimos da rotina, e só então, podemos dizer que aprendemos a viver. GSD [10/03/2005].

Entre Aspas II: Se você é capaz de tremer de indignação cada vez que se comete uma injustiça no mundo, então somos companheiros. Che Guevara.

Abraços.

guilherme - 00:23:16
envie este texto para um amigo - 1

sábado, 3 de setembro de 2005

Mudanças de Janeiro

Janeiro é o mês em que começam as mudanças em nossas vidas. É o começo de um novo ciclo, de um novo ano e porque não de uma nova vida. Eu nasci em janeiro, então, considero essas mudanças mais profundas. É neste mês que procuro me nortear, rumar os lugares a que pretendo chegar. Não sei se por ser o mês de meu aniversário ou por ser o mês das férias, mas Janeiro é meu mês predileto.

E o que dizer do Rio de Janeiro que carrega o nome do "meu" mês. Férias o ano inteiro. No Brasil crescemos admirando essa cidade maravilhosa. As novelas nos remetem a fantasia. E lá o cenário dos romances que vemos na TV, das chacinas e principalmente das belezas naturais. Tema de músicas populares cantamos a magia deste lugar.

Sem nunca termos ido a esse paraíso acreditamos conhece-lo profundamente. Talvez, o conheçamos mesmo, melhor até que nossas cidades. Metrô, Rocinha, Funk Ipanema, Leblon, Copacabana, Jardim Botânico, Museu de Getúlio Vargas, Maracanã, Bondinho Cristo, Pão de Açúcar, Ensaio da Mangueira...as praias, a Central do Brasil....quanta coisa para se conhecer, para se ver, para se deleitar.

O IBGE divulgou esta semana a estimativa da população brasileira em julho de 2005. Campo Grande têm 750 mil habitantes e o Rio 6.094.183, equivalente nove vezes a população da nossa cidade.

Algo dentro de mim (profundo isso) pressente que nunca mais a minha vida será a mesma depois da viagem que farei para lá (profundo de novo). Vou para o Intercom, Congresso de Comunicação, que será na UERJ. Assim como Janeiro, o Rio deve trazer mudanças profundas em minha vida, pelo menos é o que sinto.

Depois de meses de espera, ansiedade e economias estou pronto. Rio aí vou eu. Janeiro, acredito nas mudanças (não as do Lula, por favor!). E claro, você leitor do meu blog (alguém ainda lê?) saberá de cada detalhe da viagem com os Diários de Bordo...

Abraço, até a volta (será que eu volto?).


guilherme - 11:36:38
envie este texto para um amigo - 4

---------------------------------------------------------------------------

terça-feira, 16 de agosto de 2005
Padrão não foge do padrão


A estréia do tão esperado e alardeado SBT Brasil foi uma prova que o jornalismo dificilmente sairá do padrão já estabelecido. Ana Paula não fugiu do padrão da Globo, não vi explicação de notícia, contextualização, comentários como se havia prometido. Ana também não conseguiu fugir do padrão brega do SBT, com um cenário vermelho e roxo, com repórteres estranhos com microfones mais estranhos ainda.

Para uma emissora que nunca teve tradição no telejornalismo o SBT Brasil é muito bom sim! (O SBT já teve o TJ Brasil com Boris Casoy, mas foi só) É louvável a tentativa de fazer um bom jornalismo e abertura desse espaço. Quanto ao cenário poderia ter a redação no fundo ter cores mais claras e porque não o verde-e-amerelo para caracterizar o Brasil do nome.

O suspense criado no começo do jornal foi ridículo, anunciou-se umas quatro vezes que o jornal iria começar. Falhas técnicas, padrões no SBT. Que a Ana Paula se acostume. As viradinhas, padrão de Ana Paula na Globo, também continuam na emissora de Silvio Santos.

O pronunciamento do presidente Lula antes do início do jornal foi duvidoso. Pareceu uma bênção. Eles tentaram uma entrevista exclusiva e como só conseguiram aquilo colocaram no ar. Não soou muito bem...

Só assisti aos dois primeiros blocos, mas vi que o jornal não teve nenhuma matéria exclusiva, nenhuma reportagem especial e ainda teve erro de informação. Disseram com todas as letras que o presidente da CPI dos Correios, senador Delcídio do Amaral (PT/MS) saiu do partido. E ainda pegaram uma declaração dele descontextualizada. Delcídio disse, em Campo Grande, que sairia do PT caso eles apoiassem outro candidato na sucessão do governo estadual...Sairia...Padrão...Sairia!

Ainda teve comentário dispensável como aqueles do Jornal Hoje. Após uma matéria sobre o feriado da ascensão de Nossa Senhora, Ana disse: "Que sorte estrear no dia da Santa". Ridículo!

O jornal não teve diferencial. Tudo bem já é uma evolução o SBT ter um jornal no padrão da Globo, querer que seu jornal seja um diferencial e oferece mais que os outros talvez seja pedir demais.

A Eliane Cantanhêde, que falou sobre a crise política direto de Brasília, foi um dos pontos positivos. Ela é ótima para traduzir os meandros do mundo político e deve acrescentar bastante ao telejornal. Ana Paula também continua ótima apresentadora. E com o tempo o jornal deve ir se aprimorando, criar um estilo próprio, não que não o tenha, mas que crie um que seja seu de verdade.

Outra coisa que percebi é que a equipe contratada por Padrão ainda não faz tanta diferença assim. Explico: Ao assistir o Jornal do SBT, aquele que passa às 23 horas com apresentação do Hermano Hening, vi as mesmas matérias do SBT Brasil. Mas, não foi o Jornal do SBT que usou as matérias do SBT Brasil e sim o contrário. Já que as notícias de Brasília e as internacionais sempre foram prioridades do jornal. E agora passam a ser utilizadas por Padrão. Ou seja, o SBT já tinha jornalismo, e no caso de Brasília até eficiente, e Ana Paula não começou do zero, mas se utiliza de uma estrutura pré-existente, claro fugindo do padrão de jornalismo do SBT.

A audiência do SBT também não fugiu do padrão (não agüento mais essa palavra, mas é verdade). A ex-global substituiu Ratinho que dava média de 10 pontos no Ibope. Ana também deu 10 pontos e picos de 12.

Bem vinda Ana Paula, eu esperava mais. Talvez esperasse muito, mas como Lula, também desejo vida longa ao SBT Brasil. É bom ter opção, por mais que ela seja igual as outras.


Vejam também a publicação anterior.

Até o fim de semana.


guilherme - 11:20:27
envie este texto para um amigo - 2

-----------------------------------------------------------------------------

domingo, 26 de junho de 2005
Campo Grande é palco de torneio mundial

GSD, Lívia Marson, Talitha Moya e Thiara Lima

Mais de 16 mil pessoas vestidas de verde e amarelo lotaram o Ginásio de Esportes Guanandizão, em Campo Grande, nos dias 19 e 20 de junho. O motivo foram os dois jogos entre as seleções masculinas de vôlei de Brasil e Portugal pela Liga Mundial.

A capital sul-mato-grossense montou uma grande estrutura para sediar os jogos. Além da reforma do Ginásio Avelino dos Reis, o Guanandizão, na qual o governo estadual gastou aproximadamente 300 mil reais, foram contratados 200 seguranças de empresas privadas e mobilizados 200 policiais militares. "Nós montamos toda a estrutura possível para dar segurança aos jogadores e torcedores", disse o Coronel Alcântara, responsável pela PM.

Ao ser perguntado sobre como foi a escolha de Campo Grande para sediar os jogos, o diretor de segurança e membro da Federação de Vôlei de Mato Grosso do Sul, Luis Cláudio Faria, explicou que foi através de muitas negociações políticas feitas desde setembro do ano passado por Rodrigo Terra, atual secretário de Esportes. Foi mencionado também o fato do Maracanãzinho no Rio de Janeiro, estar em reforma, o que aumentou as chances de Campo Grande.

A cobertura dos jogos foi feita por veículos da mídia nacional, como os jornais O Estado de São Paulo, Jornal do Brasil-RJ, Correio Braziliense-DF e Hoje em Dia-MG. A Rede Globo transmitiu os jogos ao vivo para todo o Brasil e para mais de 40 países, trazendo para a capital uma unidade móvel, que é uma emissora de televisão com maior potência do que a TV Morena.

Vendedores ambulantes comercializaram produtos variados em barracas montadas ao redor do ginásio. Além de contribuir com os vendedores, o evento mudou a rotina de diversas pessoas. Ao passar as noites anteriores aos jogos na fila, fãs viveram uma aventura inusitada na tentativa de comprar os últimos ingressos. "Quando na terça-feira fiquei sabendo que os ingressos haviam se esgotado, fiquei desesperada, pois queria muito ver o jogo", disse a universitária Thaís Almeida.

Os torcedores vibraram satisfeitos com as vitórias da seleção brasileira, que segue invicta na competição. "Nossa equipe se portou muito bem, eles erraram bastante e a gente conseguiu imprimir um ritmo bom no saque e no bloqueio", declarou o atacante Murilo, um dos principais reservas que brilhou no segundo jogo.

A Liga Mundial, que já distribuiu US$105 milhões em prêmios, é o principal evento anual de voleibol masculino. O Brasil, atual detentor da tríplice coroa (com os títulos da Liga Mundial, Campeonato Mundial e Copa do Mundo) busca seu 4º título. Neste ano, por causa dos Jogos Olímpicos de Atenas, a 15º edição da Liga Mundial reúne 12 países, ao contrário dos tradicionais 16.

O time segue confiante para as próximas fases que, se vencidas, o levarão para a grande final em Roma, na Itália.

*Esse foi o resultado da cobertura dos jogos da seleção de vôlei em Campo Grande.

Abraço!

guilherme - 00:49:57
envie este texto para um amigo - 2

-----------------------------------------------------------------------------

quinta-feira, 25 de agosto de 2005

Almoçando com Jesus

Deus é fiel”, diz a placa com o nome da igreja. O prédio antigo e simples fica no Bairro São Francisco, em Campo Grande. O nome santo do bairro destoa de alguns seres que transitam por ali. A região precisa de preces constantes. Na Santa Casa, milhares de pessoas aguardam por um milagre. Assim como acontece no entorno do hospital, onde há clínicas, farmácias e lanchonetes frequentadas pelos enfermos.

Na igreja, um cartaz convida para orações diárias. Ao lado dela, um corredor leva a um salão nos fundos do templo. A calçada é irregular e já no início do trajeto uma mulher, que veste saia comprida e blusa sem decotes, parece se surpreender com os jovens que querem acessar o salão: “Vieram almoçar?”. Os dois amigos conversam animadamente e confirmam que sim.

Eles trabalham em frente a igreja e planejaram durante um bom tempo provar o “Almoço com Jesus” anunciado na placa em frente ao templo. Entram no salão, que fica nos fundos da igreja, e não parecem se abalar com o cenário de improviso. Continuam o papo sobre o cotidiano. São servidos em um prato de uma louça esmaltada, daquelas que não quebram, e quando fica velha começa a descascar no fundo. A comida parece uma papa. Nem lembram direito o que comeram. Ao lado deles, uma “irmã” puxa assunto. Ela é loira e tem a pele e a expressão desgastadas por anos vividos na rua. Recém-convertida, a mulher que já passou dos 40 anos, mistura as gírias da rua -“corre”-, com as expressões da igreja “tá amarrado, em nome de Jesus”.

Pronto. Encontraram o que queriam. Uma pessoa para bater papo e que expressa muito daquele lugar. O “Almoço com Jesus” é um chamariz para os moradores de rua, na sua maioria, usuários de drogas, irem até a igreja e se converterem. As refeições começam a ser servidas às 11 horas. Como já era meio-dia, não tinha restado mais ninguém no salão e também não tinha muita comida, mais isso era o de menos. Sentiram falta apenas das orações. Como não eram o público-alvo do almoço, os pastores parecem ter ficado intimidados com a presença deles. No entanto, os dois jornalistas sem religião não saíram do lugar sem o desejo de “vão com Deus, irmãos!”.

Agora, quando quiser almoçar com Jesus você já sabe que é só procurar a Igreja Mistérios da Fé – Deus é fiel, localizada no cruzamento das ruas Eduardo Santos Pereira e 13 de Maio, no Bairro São Francisco, em frente a Santa Casa de Campo Grande.

*Minha companheira na refeição com Jesus foi Marcelle Souza.


(25-08-2007)

segunda-feira, 13 de junho de 2005

Encontros: a vida me dá uma irmã

Entrevista com Laiana Horing

Quando tive a ideia de fazer entrevistas com meus amigos de faculdade para o meu blog, Laiana foi a primeira a me vir na cabeça. A nossa proximidade, semelhanças e forte ligação justificam essa escolha. As entrevistas seriam uma maneira de conhecer mais dessas pessoas incríveis com que estudei a graduação de jornalismo, falar da nossa amizade, do passado, do presente e do futuro.

Com Laiana, o papo foi no dia 31 de maio de 2005. A publicação ocorreu em 13 de junho de 2005 no meu fotolog da época. Como ele saiu do ar, perdi a chamada da entrevista, que reescrevo agora, maio de 2010, cinco anos depois da mesma.

Esquecida, ela se define como uma pessoa pouco decidida. É, na verdade, uma sonhadora nata. Menina simples, do interior, teve a primeira infância numa fazenda. O contato com os bichos e o meio rural formaram uma mulher que sabe enxergar o sentimento das pessoas. É ótima ouvinte. Grande amiga.

Vindos de lugares onde a vida é mais real, nosso encontro rendeu frutos: amizade, parcerias, um livro-reportagem. Laiana é uma irmã que a vida me trouxe e que para sempre vou carregar no coração. Conheça um pouco mais dela na nossa conversa a seguir:

Guilherme - Eu gostaria que você se apresentasse, nome, idade, onde você nasceu,
Laiana
- Bom, eu sou Laiana Horing Nantes, tenho...19 anos? 19 anos! (risos). Nasci em 24 de setembro de 1985 em Campo Grande. Mas, eu só nasci em Campo Grande, né? Meu tempo aqui foram três dias. Depois morei até os meus seis anos de idade em uma fazenda, aqui perto de Campo Grande,

G - como era o nome da fazenda?
L
- Eu morei na fazenda Imbira primeiro até um ano e meio e na Futurista de uma ano e meio até quase 6 anos, depois fui para o Anhanduí para estudar. Lá eu estudei toda minha vida de Ensino Médio, Ensino Fundamental, tudo na mesma escola. O meu último ano foi na escola estadual, mas tudo no mesmo prédio, uma confusão louca, não vou explicar. E, aos 17 anos em 2003, passei na faculdade, sem saber muito como eu passei porque foi meio na louca. E aí estou aqui agora, vai fazer três anos que moro em Campo Grande e moro sozinha...

G – O que você faz da vida?
L
– Eu estudo, faço faculdade de jornalismo na Universidade Federal de Mato Grosso do Sul, faz três anos, faço o terceiro ano, e trabalho, faço estágio na (voz impostada) Associação Sul-Mato-Grossense do Ministério Público, não é o Ministério Público é a Associação do Ministério Público. Trabalho de manhã e faço muitas coisas. Faço francês há três anos, toda segunda-feira estou lá firme e forte je parle, ui parle. E pretendo muitas coisas na minha vida, mas por enquanto é só isso.

G – E como foi sua infância? Como você era quando criança? Do que você brincava?
L
– (toda animada) Ah!, Eu era muito à toa, nunca brinquei de boneca! Eu brinquei uma ou duas vezes. Eu gostava de subir em árvore, eu tinha uma casa na árvore imaginária, tipo um galho era o meu quarto, o outro galho era a cozinha, aí eu brincava com a minha irmã, e ela sempre pentelhava porque ela nunca conseguia subir na árvore e morria de ódio. Sempre tive mais amigos do que amigas não sei por quê. Gostava de brincar com... não que eu não gostasse de brincar com meninas, mas os meus amigos mais fiéis sempre foram meninos. Nunca foram muitos, mas era um ou dois. Durante um tempo da infância, morei o início de minha infância numa fazenda, essa foi uma fase não de filha única, mas quase isso, porque eu não tinha contato com ninguém, as minhas irmãs eram muito pequenas. Só tinha uma irmã que era bebê, sempre brincava com bicho, conversava com gato (risos), sabe? Conversava com boi, por que eu morava em uma fazenda e sempre me estrepava muito, caía de bicicleta, já caí duas vezes e machuquei o mesmo lugar, gostava de brincadeiras de natureza, eu nunca gostei de brincar trancada. Gostava de brincar no mato, na rua, no campo de futebol, sempre acreditava que eu jogava vôlei, futebol eu não jogava bosta nenhuma, mais atrapalhava. Tive assim muitos amigos na vida. Muitos começaram na infância e talvez tenha até hoje.

G – E na adolescência como foi? O primeiro namoro... Conta pra gente.
L
- Ai, meu Deus, o primeiro namoro foi muito engraçado, sempre fui muito precoce, eu não sei se foi bom ou foi ruim, eu acho que foi bom, tiveram coisas ruins, mas foi bom. Assim, eu gostei da primeira pessoa aos 9 anos e ele tinha 19, era aquele sonho imaginário, eu olhava pra ele, ele não olhava pra mim (risos). Ai meu deus! Um amor platônico começou e terminou sem nada acontecer. Aí, depois quando eu gostei de uma pessoa eu tinha 11 anos de idade, foi meu primeiro paquera, não foi um namoro, mas foi quase. Eu sempre me liguei mais em amigos assim, sabe? Mas, ao mesmo tempo eu tinha namorados, era uma situação complicada na minha vida, por que os namorados nunca entendiam eu estar com os amigos e amigas, mas entre as minhas amizades eram mais homens e sempre tiveram ciúmes dos meus namorados. Mas, a minha vida sempre foi assim muito louca, eu morava em um lugar pequeno, como eu morava e sempre morei até os 17 anos em um lugar pequeno, eu sempre fui, não sei se briguenta, muito pra frente. Não é pra frente, minha mãe fala que eu sou pra frente, mas é assim eu sempre tive uma coisa meio que de liderança, ali eu desenvolvi as minhas primeiras vontades, foi ali que eu comecei a perceber que talvez eu faria jornalismo, sem muito saber que eu teria o poder de representar uma sociedade, mas eu já imaginava mais ou menos isso. E a minha adolescência foi assim maravilhosa, eu tive poucos namorados, nunca fui uma menina de namorar muito, tive três namorados até hoje em minha vida.

G – Eram namoros duradouros?
L
– Duradouros. Um eu namorei, o que durou menos foi seis meses, o terceiro namoro, que é a história da minha vida, tem seis anos, e acho que desde o início da minha adolescência eu fiquei com essa pessoa, e acho interessante você crescer ao lado de uma pessoa, e ao mesmo tempo distante, porque um namoro de seis anos não é como outros namoros que você está sempre junto da pessoa, tem aquela maluquice de, quando você se vê na situação de que terminou e que dura muito você fica sem chão, você fala meu Deus! Ah! Você acha que você tem condição de levar uma vida normal com seus amigos, mas não tem, parece que falta alguma coisa. Minha adolescência foi toda em Anhanduí, eu não tive contato com coisas que outras crianças têm, por exemplo, internet. Eu não saía muito tipo para balada, coisas que adolescentes de hoje fazem, não tive muito esse contato, eu ia em feiras e festas, mas era uma coisa mais sertaneja, porque eu morava em um lugar bem rural. Campo Grande é um lugar rural, mas está deixando de ser. Pelo menos, na minha adolescência era muito forte essa questão das músicas sertanejas, de bailes, dessas coisas assim, foi o que eu vivi na minha adolescência. Hoje eu sou bem diferente, eu acho. Bastante diferente não, mas um pouco diferente do que eu fui na minha adolescência, e o interessante é que quando eu tinha 12 anos, 13 eu pensava quando eu tiver 18 anos eu vou ser uma super mulher, linda e maravilhosa, toda cheia de idéias e não é assim, o tempo passa e você vê que ainda quer ser mais coisas, na adolescência você acha que é o período de você sonhar, mas eu acho que eu ainda sou adolescente se for isso. Eu ainda sonho, eu ainda não me sinto adulta completamente.

G – E quem que é a Laiana? Laiana por Laiana, sabe aquela coisa de Marília Gabriela...
L
– Ai, meu Deus! Eu sabia que você ia perguntar isso e que eu não ia conseguir responder (risos). Odeio essa pergunta Guilherme... Ai eu odeio essas coisas de perfil, eu nunca preencho meus perfils, eu não sei sabe...

G - Por quê?
L
– Não sei eu tenho pânico, tenho medo de ser prepotente e ao mesmo tempo me, não é me diminuir, não me colocar por inteiro. Tenho medo de que as pessoas vejam aquilo e achem que eu sou só aquilo. Eu tenho certeza que não sou só aquilo, ou achem que ali eu estou querendo ser mais do que eu sou. E às vezes não é isso que eu quero passar

G – Mas como é a Laiana? É uma menina sonhadora ou é uma mulher forte e decidida, ou é um pouco das duas? Como é a Laiana?
L
– Ah, eu sou libriana, não sou nada decidida, nem um pouco decidida. Sou muito sonhadora, sonho muito, a minha vida foi feita de sonhos, para te falar a verdade. Eu me lembro quando eu morava em Anhanduí, quando eu tinha uns 6 anos. Gente isso é ridículo, mas eu vou ter que falar: não é 6 anos eu tinha mais, uns 10 anos. E eu pensava que, esses dias que eu me lembrei, eu não sabia o que eu queria ser, porque desde pequena eu pensava: ‘já pensou um dia eu numa TV’. Eu pensava em TV, já pensou um dia eu apresentando um jornal, sem saber muito, mas era isso que eu queria. Passou o tempo e tal, quando eu fiz meu 3º ano, por morar em Anhanduí, por estudar em uma escola municipal, que já é difícil, ainda mais na distância que é, do centro urbano... Era muito desacreditado um aluno de lá, nunca ninguém tinha passado em uma federal pra Campo Grande. Passava pro interior pra fazer Pedagogia, essas coisas, quando eu falava que eu pretendia... Eu sou assim, sonhadora, mas ao mesmo tempo eu tenho pavor que as pessoas me achem ridícula. Pessoas que me conhecem de verdade. Até os meus amigos, poucos me conhecem de verdade, porque eu não deixo transparecer os meus desejos. Eu sou sonhadora, mas pra dentro. Então eu sonhava: “ah, vou passar na federal”. Só que eu sonhava, mas os meus sonhos se realizam, por isso, que eu sou sonhadora. Você têm sonhos que ficam para trás, mas muitos se realizam. Isso é importante pra quem é sonhador, pra você não perder o pique. É legal quando você tem a sorte das coisas acontecerem na vida. Mas eu sou sonhadora, sou muito indecisa. Eu não sei se consigo passar, mas eu sou muito amiga, quando eu vejo um amigo meu sofrer, eu sofro junto e não consigo falar pra ele “fala pra mim, você quer alguma ajuda? Eu quero te ajudar em tudo”. Eu sou uma pessoa que não consigo às vezes demonstrar o meu sentimento, talvez as pessoas percebam, mas se percebem não falam também, ainda não percebi alguém que tenha percebido os meus desejos e as minhas vontades. Eu sou uma pessoa muito família, eu amo... eu percebi isso depois que eu vim pra cá, que eu sinto muita falta, das minhas irmãs, da minha mãe, do meu pai. Apesar de ter sido criada um pouco longe da minha mãe, que era professora e dava aula em um lugar mais longe que o Anhanduí. Então sou muito família, então me apego muito, sabe brincadeira quando a gente era criança todo mundo fala “quem é que nunca brincou de médico com o primo?”, eu não nunca brinquei. Eu tive sempre meus primos como meus irmãos. E eu amo meus amigos, hoje eu consigo falar eu amo você, antes eu não conseguia. E assim eu sonho muito para minha vida, mas ao mesmo tempo tenho muito medo. Tenho medo de não conseguir ser uma boa profissional. Tenho medo de perder tempo, tenho medo de não chegar nos meus lugares. Acho que todos os sonhadores também tem esse medo. Eu não sei, tenho certeza que eu vou deixar de falar um monte de coisas, mas é isso.

G – Você tem medo de não conseguir chegar a alguns lugares, que lugares seriam esses?
L
– Assim, de não realizar os meus sonhos profissionais, de não realizar, de não chegar... Um dos meus sonhos é conhecer países, conhecer lugares do Brasil. Eu me sinto muito presa no lugar que eu tô aqui. Eu sinto que o mundo está aí e eu quero conhecer o mundo. Por exemplo, eu faço francês e o meu maior sonho é ir para França, poucas pessoas sabem isso. É meu maior sonho. Quero conhecer outros lugares, outras pessoas, sei que minha profissão pode me possibilitar isso, mas ao mesmo tempo, eu sou uma pessoa muito família. Então, eu tenho medo que meus sentimentos limitem os meus sonhos. Não é bem isso: eu tenho medo de tomar a decisão errada. Como eu sou muito indecisa, eu tenho medo de tomar a decisão errada. Demorar, demorar, demorar e tomar a decisão errada...

G – Você tem medo de um dia ter que escolher entre o casamento e ser uma correspondente internacional, por exemplo?
L
– Tenho. Tenho medo. Por que ao mesmo tempo em que eu quero me realizar profissionalmente e conhecer outros lugares, também quero formar uma família, mas eu sinto que eu não tenho vocação. Eu tenho medo que eu vá para outros lugares realizar esse meu sonho, mas que lá pra frente eu veja que esse sonho de ser mãe, de ser esposa, ficou para trás e eu não pesei e lá na frente vai me fazer falta. E ao mesmo tempo o contrário, de talvez pensar eu vou pra lá e só me ferre e não ganhe nada, e ficar frustrada.

G – Você tem um namoro de 6 anos, você pretende se casar, ter filhos?
L
– Pretendo. Pretendo me casar, pretendo ter filhos, com essa pessoa e tal. É o Anderson é uma pessoa muito esquisita. Outro problema na minha vida é esse.

G – O que ele faz?
L
- Ele trabalha com o pai dele, ele estudou até o Ensino Médio e não quis continuar. Ele trabalha com o pai dele, o pai dele têm caminhões e já teve fazenda, e trabalha com isso. E ele é bem diferente de mim porque eu sou uma pessoa do mundo e ele é uma pessoa de casa. Ao mesmo tempo que eu quero voar, ele quer criar raízes. Ao mesmo tempo que eu brigo com todo mundo por causa de muitas coisas, ele é uma pessoa de ótimo coração, tem um senso de justiça muito grande, mas não tem... Não é coragem... Não tem a ousadia que eu tenho. Nós discutimos às vezes por isso. Ele diz que eu até ofendo as pessoas, o que eu acho que realmente é um defeito. Essa vontade que a gente tem de, vontade não, essa coisa que a gente não consegue ficar quieto. Eu falo às vezes me mandar ficar quieta é a mesma coisa que falar para um Angola calar a boca. Esse é o medo, um dos medos que eu tenho, mas ao mesmo tempo, são seis anos de namoro de completas adversidades entendeu? Ele pensa uma coisa e eu penso outra e a gente sobrevive, eu acho que isso é uma coisa... Eu vivo um namoro muito engraçado, talvez uma prova realmente de amor, de que o amor não é você ser igual uma pessoa e sim diferente. Mas ao mesmo tempo essas diferenças te torna parecida com a pessoa. Você não consegue se imaginar, sei lá, com outra pessoa, num sei.

G – Anhanduí nunca mais, ou um dia você volta a morar lá?
L
Eu acho que Anhanduí nunca mais. Eu acho, talvez assim na minha... Não digo velhice. Mas assim depois que eu tiver, se eu conseguir a ter uma vida estável, boa, talvez eu vá terminar lá no Anhanduí, mas assim voltar a morar... Eu não consigo mais, eu sinto que o Anhanduí venceu todas as expectativas, todas as possibilidades que eu tinha ali. Eu não tenho mais meus amigos lá, eu tenho meu pai, minha mãe, meu namorado, minhas irmãs e uns dois ou três amigos, poucas pessoas eu tenho lá. Então eu acho que Anhanduí nunca mais.

G – E faz falta? Como é morar sozinha? Fale dos pontos positivos e dos pontos negativos.
L
– Bem, morar sozinha é maravilhoso e odioso ao mesmo tempo. Os pontos positivos é que você faz o que você quer. Você não precisa brigar com a sua irmã porque ela está vestindo a sua roupa ou porque ela largou toalha molhada em cima da tua cama, ou por que ela fez qualquer tipo de coisa. O seu pai não fica te regulando a hora que você tem que chegar. Se você quiser fazer uma coisa, você faz. Você recebe quem você quiser na sua casa. Mas, ao mesmo tempo, a sua roupa nunca está na gaveta, está sempre no varal ou fora, ou sem passar. Você só passa roupa para vestir, você não come muito bem. Você não tem o carinho, porque, ao mesmo tempo em que você não tem os problemas de irmãs, você tem o carinho a proteção do pai e da mãe, quando você fica doente é horrível. Não quando você fica doente, quando você espirra você se sente a pessoa mais frágil do mundo. (Imitando voz de criança:) “Porque ai Meu Deus a minha mãe não está aqui está a não sei quantos quilômetros, eu não sei pra onde eu vou”. E esses tempos eu passei por umas situações assim, que estava sangrando meu nariz, e eu falei meu Deus já pensou se eu desmaio aqui. E eu começo a entrar em paranóia, porque se eu desmaio, eu morro aqui, porque ninguém me acha, essas coisas. E eu também moro assim fora de casa, porque eu moro com outra pessoa completamente diferente, foi criada em outra casa, tem outros costumes completamente diferentes dos meus, que se te desagrada você não vai brigar com ela, porque ela não é sua irmã. E se você brigar você não vai voltar a falar daqui dez minutos, como você fala com a sua irmã ou com seu pai, então você tem que ponderar muito as palavras. Para uma pessoa que, como eu, falo sem pensar é muito difícil. Você ter que ponderar as palavras. E às vezes até me calar para não gerar uma discussão maior, eu acho que quando você mora com outras pessoas esse é o pior problema.

G – E nesse período você amadureceu bastante?
L
– Muito. Nossa! Aprendi a me controlar! Depois que eu morei com outras pessoas e quando eu morei sozinha eu aprendi a ter mais responsabilidade com coisas que eu não tinha. Eu passei a perceber que os problemas que eu achava que eram os maiores da minha vida eram nossa, pífios! É ridículo perto de uma situação assim. Não que eu tenha vivido situações difíceis. Mas quando você mora sozinha você vê o mundo de outra forma, você está sozinho para fazer outras coisas. Aí você enxerga as outras pessoas. Porque quando você mora em casa, acha que aquela briga que você teve com a sua mãe, nossa, é a pior do mundo, e você é a pessoa mais infeliz do mundo. Quando você mora sozinha, parece que você abre os olhos para as outras pessoas, que têm outros problemas. Eu morei num lugar em que moravam 12 pessoas, tinham 12 apartamentos, 12 kitnets. Cada pessoa é de um jeito diferente. E eu olhava, às vezes, para a minha casa e eu tinha cama, eu tinha geladeira, eu tinha televisão. E tinha uma menina, amiga minha, que morava do meu lado que só tinha um colchão e uma geladeira e nada mais. Você começa a aprender com a convivência. Porque você mora sozinha, mas conhece milhares de outras pessoas, em situações de família ou de ausência de família

G – Como é Anhanduí? O que tem lá de bom? Conta como é a cidade... A praça... A igreja... O que tem na cidade.
L
– Engraçado, a gente fala que o Anhanduí nunca vai ser cidade, porque tem um ditado que fala que pra uma cidade ser cidade tem que ter uma igreja, uma praça e a zona. O Anhanduí só tem a igreja, então só tem um terço (risos)

G – (em tom de espanto) Anhanduí não tem praça?
L
– Não tem praça. Anhanduí tem campo de futebol. Anhanduí, quando eu era adolescente, o point era a escola, porque a gente fazia da escola a nossa praça. Lá que a gente se encontrava, lá às vezes tinham músicas, paquera, na época da paquera. E lá a gente jogava bola, e lá a gente encontrava os amigos. Então, o campo de futebol e, lá onde você vai rir, sofrer. Eu sou uma pessoa torcedora assídua do futebol. Adoro futebol e as pessoas riem: “Ah! Uma mulher que gosta de futebol”, talvez eu acho que deva isso a Anhanduí

G – E Anhanduí tem algum time de futebol?
L
– Anhanduí tem time de futebol. Tem vários times de futebol!

G – Quais são os principais?
L
– Mas, claro que o time do meu coração eu vou falar que é o melhor, óbvio. Então, tem o time da Conveniência Anhanduí que já foi denominado como Juventude e caiu e não pode usar o nome, mas é o mesmo time. Tem o time do Posto Eucalipto Locatelli que é o maior rival da Conveniência Anhanduí, que inclusive ganhou o campeonato este ano e eu quase morri do coração.

G – E qual que é o seu?
L
– O meu é o da conveniência Anhanduí. E aí tem (em tom de deboche) o time da Fazenda Esperança que são os pernas de pau (risos)

G – (morrendo de rir) Então tem um campeonato de futebol em Anhanduí, com os times de Anhanduí!?
L
– Tem um campeonato com os times de Anhanduí e adjacências (risos). Por exemplo, os times do centro urbano de Anhanduí são: a Conveniência Anhanduí, o Ájax e o Locatelli, Auto Posto Eucalipto Locatelli. Aí tem, o da Fazenda Esperança, da Fazenda Guanabara, tem o time de Nova Alvorada, tem o time do outro Posto Locatelli que é aqui perto de Campo Grande. É um campeonato até grande, têm uns dez times, 15 times. E tem o campeonato dos veteranos, para você ver como o futebol é um esporte bem cultivado no Anhanduí. As pessoas ficam velhas e continuam jogando futebol porque não tem muita coisa pra fazer. Mas tem a igreja... Têm muitas igrejas, mas tem a igreja católica, que concentra um número maior de pessoas e assim a diversão em Anhanduí se dá nesses lugares, em instituições: na escola, a igreja, são os lugares onde você faz seu grupo de jovem, na igreja você se encontra com as pessoas. Ali, você se diverte, bagunça, você faz tudo. E tem, já teve uma rádio no Anhanduí inclusive. Era a rádio, o maior point em Anhanduí, era tudo em Anhanduí. Só que Anhanduí é o lugar que a gente fala que “lá tinha”: lá tinha rádio, lá tinha banco (risos). Lá tinha o quê mais?...

G – Não tem banco?
L
– Não tem mais banco, o HSBC, quando era o Bamerindos...

G - Têm Correios?
L
– Têm Correios e o Banco Postal do Brasil.

G – Como que funciona o Distrito? Tem, sei lá, uma mini-prefeitura ou alguma coisa desse tipo?
L
– Então, todo mundo que passa por Anhanduí acha que aquilo ali é uma cidade, que tem pelo menos um prefeito, ou um subprefeito, mas não. Anhanduí é um bairro de Campo Grande. É um bairro afastado. A representação que a gente tem é o presidente da Associação dos Moradores. Anhanduí não tem, por exemplo, uma pessoa que tenha contato direto com a prefeitura, com a Câmara de Vereadores. Essa é a nossa maior luta no Anhanduí. E as coisas funcionam assim, o posto de saúde, é o posto de saúde daqui de Campo Grande. Então, por exemplo, todos os funcionários que trabalham no posto, na escola, têm que receber em Campo Grande. Anhanduí é muito dependente do centro da Capital.

G – Fica a quantos quilômetros?
L
– A 55 quilômetros. Anhanduí fica na saída de São Paulo, à 55 quilômetros da Capital. Mas ao mesmo tempo tem coisas peculiares específicas de Anhanduí, como por exemplo, as barracas. Não sei da onde que aquilo veio, sabe? Foi uma coisa que começou e aglomerou... A primeira barraca, eu me lembro muito bem, que ficava na frente da minha casa. Meu pai tinha uma lanchonete e também foi o point, esqueci de mencionar.

G – E como que era o nome?
L
– (rindo) Era a Lanchonete do Titio, o meu pai é o titio até hoje no Anhanduí. A primeira barraca foi de coco, água de coco, hoje não se vende mais água de coco.

G – Você se lembra mais ou menos em que ano foi isso?...90?
L
– Não foi mais pra cá, tipo a gente entrou em 94 na lanchonete, foi tipo 96, assim. E foi a primeira barraca e tinha uma outra que vendia queijo. Essa vendia coco e mel e a outra vendia queijo, então foi uma coisa, foi chegando aquele... Hoje se você passa por Anhanduí, a primeira coisa é “ah, aquele lugar que tem barraquinha!”. E é uma coisa muito do lugar. É uma parada de caminhoneiros, a gente conhece muitos caminhoneiros. A gente conhece muito a vida deles. É um lugar onde passam pessoas, é um lugar muito parado, e ao mesmo tempo, um lugar movimentado ao extremo, porque é uma BR que passa por dentro. Então, eu já conheci um ciclista que passou lá uma vez e falou que tinha ido para muitos lugares, e um dia eu vi o cara no Jô [Soares]. É uma coisa muito engraçada, e caminhoneiros que passam por lá, às vezes pessoas, tipo celebridades, os artistas. Os motoqueiros param muito lá, tipo essas coisas de Moto Road, essas coisas que tem, não só em Campo Grande, mas no interior do Estado e vai pra Mato Grosso, pra esses lugares. E às vezes passam muito por lá. Então Anhanduí é dependente e, ao mesmo tempo, tem a sua característica que é o comércio. As pessoas são muito comerciantes em Anhanduí. Todo mundo vende alguma coisa.

G – E o que tem nessas barracas hoje?
L
– Hoje as barracas têm basicamente pimenta, que também é produzido no Anhanduí. E, Anhanduí tem um centro e tem também um assentamento, que fica próximo ao Anhanduí, fica no município de Sidrolândia, mas fica muito próximo do Anhanduí. Então, além dos moradores de lá tem os assentados que ficam perto. Eles tiram pimentas e as barracas vendem. Então, eles compram dos assentados pimenta, e licores, licor de pequi, licor de não sei o quê, essas frutas nativas do cerrado. E tem mel que é... Tudo da região, das fazendas, ou até mesmo do Anhanduí. Lá, inclusive, vai abrir um lacticínio. É uma coisa que vai abrir em Anhanduí, exatamente por causa das barracas, porque eles vendem um queijo mussarela que era feito artesanalmente nas casas das pessoas. Então têm os queijos provolones, tem o mel, tem o pequi, tem o queijo natural, in natura, o queijo caipira, tem artesanato agora, andaram... Engraçado, como não cola, eles andaram querendo vender artesanato que é uma coisa da região de Dourados, daquelas vilas que ficam em volta de Dourados, e não pegou, sabe?

G – Anhanduí vai virar cidade? É uma vocação do distrito virar cidade um dia? O que você acha?
L
– É um sonho, que eu como moradora de lá, tipo cria anhanduiense. Mas, eu acho muito difícil por vários fatores, que o Anhanduí vire cidade. Tipo daqui uns 10 anos, 15 anos, talvez. Primeiro porque o Anhanduí... O município de Campo Grande hoje, ele vai até o Rio Pardo, até perto de Ribas do Rio Pardo, pelo Anhanduí. Então se o Anhanduí virasse município toda a arrecadação que o município de Campo Grande tem com todas as fazendas daquela região seriam perdidas e a área também. É muito difícil que Anhanduí vire cidade por isso, por causa dos fazendeiros que tem em volta. É muito difícil que o município de Campo Grande vá um dia apoiar a emancipação do Anhanduí. E o principal problema que eu vejo no Anhanduí é a falta de união dos moradores nesse sentido. Agora que o Anhanduí está aprendendo a se unir por um desejo, porque assim, Anhanduí têm uns dois ou três mil votantes e na última eleição mais de 30 vereadores foram votados. Anhanduí não tem uma representatividade política estabelecida. Infelizmente muitas pessoas tem um nível de escolaridade baixo e a consciência de cidadania está pouco consolidada no Anhanduí. Mas, eu vejo com esperança, eu volto por pouco tempo, eu fico pouco tempo lá, e eu vejo que as pessoas querem se unir. O que falta no Anhanduí é uma pessoa que queira representar o local. Porque as pessoas que se...

G – Representam a si mesmas né...
L
– Representam a si mesmas, exatamente isso! Faltam pessoas que queiram representar as pessoas e não a si mesmas. Existem umas pessoas, dois ou três do Anhanduí que se manifestaram, como lideranças políticas, mas eles nunca estiveram preocupados com as necessidades do local, entendeu? E é um pouco por isso que falta a união, porque quando você se une em torno de uma pessoa, a pessoa não corresponde aos objetivos do lugar. Mas, acho que essa consciência está se formando. Existem pessoas novas, da minha idade, cinco ou seis anos mais velhas, que hoje já são adultos. Pessoas estabelecidas e tal, esclarecidas que querem lutar pelo lugar, mas eu acho que vira sim, mas vai demorar bastante.

G – Como surgiu a idéia do Jornalismo, você pensou em fazer outras coisas?
L
– Gente, eu sempre digo que por dinheiro eu pensei em fazer Agronomia (risos)

G - Que mais você pensou em fazer?
L
– Mas, foi muito rápido, eu pensei por um segundo e nunca mais pensei. Eu pensei em fazer história, porque eu adorava História. Eu pensei muito em fazer História, mas o que me fez mesmo fazer jornalismo é essa coisa de ser... De ser assim, de querer resolver os problemas. Não todos, mas pelo menos um ou outro, de não aceitar que as coisas fiquem escondidas. Foi isso! Eu nunca aceitei que as coisas ficassem escondidas e eu nunca aceitei que as coisas fossem feitas e não fossem a favor de uma maioria de pessoas, entendeu? E eu acho que foi isso assim. Principalmente pelo lugar de onde eu venho, porque o Anhanduí, já foi muito massacrado, as pessoas já usaram muito nós, os moradores de lá. Então quando criança eu fui aprendendo isso. Eu fui começando a detestar política sem saber por quê. Depois quando a gente fica mais velho, é que a gente percebe, porque todo político que ia lá só enganava. Eu nunca pensei em fazer política por que eu acho que não dou conta. Mas, uma forma que eu pensei que eu poderia ajudar o meu lugar. Pensei, não foi no coletivo, hoje eu penso no coletivo, depois que você entra na universidade. Mas, eu pensei em ajudar o meu lugar, um lugar pequeno, e eu pensei no jornalismo, foi isso.

G – E o que você acha do nosso curso?
L
– Ai, olha, às vezes, eu tenho vontade de sair correndo desesperada: “ai meu Deus, eu estou perdendo meu tempo aqui. Esse lugar é devagar, mas existem momentos como a aula de ontem, a nossa reunião de ontem [discussão da pauta do nosso programa de rádio, que falou do poder da imprensa], que eu vejo o quanto eu melhorei, depois que comecei a fazer o curso e o quando nós melhoramos, sabe? Tipo que nem a Maria Fernanda diz eu entrei querendo fazer televisão, aí eu entrei para aparecer, hoje a gente tem outra visão. Eu acho que jamais faria, se fosse para fazer jornalismo, eu jamais faria em outra universidade aqui em Campo Grande. Eu faria na federal. Apesar de todas as dificuldades, apesar de todos os defeitos, eu me identifico com aquele lugar. Só que assim, dificuldades existem, e muitas. A questão da estrutura, todo mundo fala você aprende com o tempo, mas não é. O fato de você não ter um computador que você possa usar, que você possa explorar todos os campos, talvez eu até me interessasse pelo On-line se eu tivesse uma disciplina de On-line, por exemplo, que não tem. Eu acho que a principal fraqueza do jornalismo na Federal é a falta de grade curricular. Não é a falta, é a falta de seguir uma grade curricular, e de incluir outras coisas. Eu acho que a grade está muito defasada. E a falta da estrutura não precisa citar: é uma coisa óbvia, qualquer pessoa que chega lá percebe. Mas, essa falta de estrutura, ao mesmo tempo, eu sinto como ponto positivo, porque nós não temos nada na mão e para nossa profissão isso é fundamental. Você correr atrás das coisas, você pelo menos saber que tudo não vai vir na tua mão, para quando você for para o mercado você não tomar aquele baque assustador. Um dos defeitos que eu percebi no nosso curso, não foi só de estrutura, é de falta de interesse dos alunos, que a gente tinha no 1º ano. Agora no 3º ano ninguém mais é desinteressado. E quando a gente não é desinteressado, quando a gente tem interesse por alguma coisa, as coisas acontecem. Eu, apesar de todos os defeitos, acho que o curso de Jornalismo da Federal é o melhor curso de Mato Grosso do Sul, ainda. Não sei se isso vai durar, porque os professores que eu conheci estão saindo. Tipo o que sempre foi a vantagem do curso de jornalismo na Federal, que é a formação de seus professores, isso está abaixando. Infelizmente, eu sinto isso. E o nível dos acadêmicos também está abaixando, eu percebo isso. Mas, pra mim está sendo prazeroso fazer jornalismo na federal.

G – Como que é sua relação comigo? Como que eu sou? Críticas e elogios.
L
– Ah! O Guilherme é o meu irmão aqui em Campo Grande. Esses dias eu falei para minha mãe que se tem duas pessoas que eu posso considerar que são minhas amigas, que assim eu não tenho medo de falar coisas: é para Gil, uma pessoa que eu conheci na Kitnet que eu morei, e o Guilherme. Assim, nós somos muito parecidos. Nós viemos de lugares bem hu... não é humildes, mas mais reais assim. A realidade que a gente vê nos jornais, que a gente ouve as pessoas contarem, sempre esteve presente nas nossas vidas. E eu acho que, por isso, a gente tem uma afinidade maior. E o defeito do Guilherme é ser birrento, acho que por ser filho único ele não consegue aceitar um... não é um “Não”. Ele consegue aceitar um “Não”, mas ele não consegue aceitar que lhe contrariem. Eu acho que é um defeito meu também e eu acho que é aí que a gente se identifica.

G – (rindo) Imagina a gente batendo de frente!?
L
– Deus me livre, graças a Deus, nós nunca batemos de frente. Mas acho que esse é o principal defeito do Guilherme. Mas, as qualidades são maravilhosas: é uma pessoa que tem um coração assim, que poucas pessoas que eu conheço, tem esse coração, e que pra nossa profissão... E também como pessoa ele tem uma qualidade, uma vantagem, que é a facilidade de se relacionar. Eu sei, eu percebo. Ele tem poucos amigos assim reais, amigos, amigos. Mas o Guilherme, conversa com qualquer pessoa que ele conheça, entendeu? Não é que ele converse, ele tem um relacionamento bom com muitas pessoas, que assim nós não temos na nossa universidade e pra vida... Hoje a universidade é a nossa vida, amanhã vai ser o jornal que a gente vai trabalhar, vai ser a TV que a gente vai trabalhar, o rádio, sei lá. E isso é importante você ter nos lugares que são a sua vida. Então, eu acho que do mesmo jeito que hoje ele se relaciona bem com todo mundo, com todos os anos da universidade e com dos outros cursos, e com outros movimentos, eu acho que isso ele vai levar pro resto da vida e vai ser uma forma dele se dar bem na vida, assim como pessoa e como profissional.

G – Na faculdade você é amiga de todo mundo, mas com quem você tem mais afinidade, porquê?
L
– Ai, o Caldeirão da Maria Fernanda né? (risos). Mas, assim as pessoas que eu tenho mais afinidade são o Guilherme, essa pessoa que está me entrevistando. Eu, depois que morei com a Marina, descobri que eu tenho um carinho de irmã por ela, porque a gente tinha os nossos problemas e brigávamos, e tal, mas, eu tenho um amor tão grande por ela. A gente conseguia ser irmã, por exemplo, brigar e se falar dez minutos depois. Então, eu acho que com a Marina, eu tenho uma afinidade muito grande! A Maria Fernanda é pra mim, assim, uma referência. É uma referência em, como eu posso dizer, ela é uma pessoa que eu sei que vai falar que eu estou errada. É uma pessoa que eu sei que se eu fizer merda, ela vai me falar e, ao mesmo tempo, ela é uma pessoa que gosta de mim. Então, a Maria Fernanda é uma das minhas grandes parceiras na faculdade. E o Hélio, eu não sei pela alegria do Hélio. Eu sou uma pessoa muito alegre e o Hélio é uma pessoa muito alegre, então, a alegria do Hélio também me faz ser assim uma super amiga dele.

G – Esse seu carinho pela Marina, a gente percebe pela sua relação, pelo seu olhar. Quando você está conversando com ela, parece que você tem uma relação de admiração, e com a Maria Fernanda também. E que é uma coisa que eu também tenho por ambas. É uma coisa que a gente percebe na relação, no olhar, no jeito que você fala com as duas.
L
– É. Com a Marina, eu não sei é uma coisa bem... Muito querida, que eu admiro a força de vontade da Marina, sabe? Ela tem uma força de vontade que eu não conheço em nenhuma outra pessoa. Ela tem uma responsabilidade que eu não conheço em nenhuma outra pessoa, entendeu? Então, eu admiro como ela consegue ter tudo isso, sabe? Com 20 anos, e não surtar, e ao mesmo tempo, ela é uma pessoa muito frágil. Eu tenho vontade de pegar no colo e falar “Meu Deus do céu, vem cá!”. Morando com ela, também eu reconheci mais esse lado frágil dela. Conheci os defeitos e tal, mas essa fragilidade, eu conheci. Então é uma pessoa que eu tenho admiração! Foi o que você disse. E a Maria Fernanda também, exatamente pelo contrário, o que me falta, eu vejo na Maria Fernanda, que é a força. Eu vejo a Maria Fernanda como uma pessoa com uma força, que ela fala “Ai, vocês me vêem como forte, eu não sou forte”. É forte sim! Não vem falar que não é, porque ela é forte. E não é só a força de se manter, é a força de impor o que ela quer. Então, a Maria Fernanda... Eu acho que é isso que a gente reconhece nas pessoas, a gente reconhece o que nós somos, e o que nós não somos. E enquanto no Guilherme eu reconheço o que eu sou, na Maria Fernanda eu reconheço o que eu não sou.

G – É o que você gostaria de ser?
L
– Talvez, é. Eu acho que é, topo assim. Qualidades que eu gostaria de ter, eu vejo na Maria Fernanda. E na Marina é aquela coisa de reconhecer as sua qualidades, mas de saber que ela precisa de alguém. Saber que ela precisa muito da gente. Eu tenho. Eu nunca falei isso para ela, do tempo que a gente morou junta. Eu acho que eu nunca falei, mas de querer mostrar para ela que eu vou estar ali em qualquer minuto que ela quiser, que ela precisar, então é isso. E o Hélio eu também reconheço um pouco do que eu sou. O Hélio é as duas caras, o que eu sou e o que eu não sou. A ousadia do Hélio, que às vezes me falta, mas a alegria do Hélio que eu sei que eu tenho muito.

G – E quando você terminar a faculdade você quer trabalhar com o quê? O que te atrai mais: impresso, On-line, rádio, TV, assessoria...?
L
– Engraçado, quando eu entrei na universidade, entrei com o sonho de fazer fotografia. Achava que eu ia ser uma repórter fotográfica. De repente, caiu o meu mundo, eu não quero mais ser repórter fotográfica, porque eu não sou uma fotógrafa como eu achava. Eu não consigo, porque eu fiquei frustrada com o pouco tempo que a gente teve, coma falta de contato. Eu acho que você faz jornalismo e sai da faculdade sem imaginar não passar pelo impresso, entendeu? O nosso curso é direcionado para o impresso. E o meu sonho é trabalhar no impresso. Não sei se o impresso. O meu sonho era poder usar da ferramenta do jornalismo. E eu sei que não vou conseguir, ao mesmo tempo, é legal, mas é frustrante você saber que não vai conseguir fazer tudo o que você queria. Então, eu quero passar pela experiência do impresso. Eu acho que eu também quero fazer TV. Rádio, eu tenho como uma coisa talvez, não é uma coisa que eu desejo, mas impresso eu desejo muito, para poder ser uma jornalista. Eu não me sinto jornalista. Eu tenho muito medo de sair daqui e não ser jornalista. E eu sei que o meu tira-teima vai ser o impresso. Então, eu quero fazer impresso de início. Eu quero fazer TV. Tenho vontade de fazer TV e gosto do dinamismo da TV, daquela coisa que você não está ali só na frente do computador. Você tem que gravar um “off”, todo mundo diz “Ah, você escreve um ‘off na empresa’”. Nem sempre, às vezes, você grava um “off” dentro do carro, e você tem que chegar tal hora com a matéria pra editar senão não vai entrar. Então, eu gosto do perfil da televisão. Gosto de fotografia ainda, mas eu quero fazer impresso depois de eu ter... Ou ao contrário, mas eu quero passar pelo impresso, é um lugar que eu não quero deixar de passar.

G – Como você se vê daqui a 10 anos? Você vai ter 30 anos, você vai estar casada? Vai ter filhos? Vai estar trabalhando aonde?
L
– Ai, meu Deus! Vou ter 30 anos é a única coisa que eu tenho certeza (risos). Se eu vou estar casada eu não sei. Eu acho que eu vou estar casada, eu pretendo...

G – Assim, essa pergunta era assim como você quer se ver, entendeu?
L
– Eu quero estar casada. Eu não sei se eu já quero ter um filho. Eu quero ter um filho, mas eu quero que o meu primeiro filho seja adotado. Eu não sei se eu vou conseguir realizar esse sonho, porque a gente nunca pode pensar... Eu tenho que pensar que eu vou ter um marido e que eu tenho que conciliar a minha vontade com a dele. Mas é um sonho que eu tenho, e eu queria que o primeiro fosse adotado. E assim, eu me vejo casada, talvez com um filho adotado. Eu me vejo trabalhando... Ai com 30 anos, eu não consigo, sei lá, eu não consigo decidir ainda se eu quero estar aqui ou estar ali, sabe? Mas, eu não quero mais estar em Campo Grande.

G – Isso que eu gostaria de te perguntar. O que você vai ter feito já? Você não vai mais estar em Campo Grande?
L
– Não vou estar mais em Campo Grande, se tudo correr do jeito que eu planejo. E eu queria estar trabalhando em uma revista, já ter passado pelo impresso, pelo jornal diário. Eu queria estar trabalhando em uma revista semanal. E queria, ao mesmo tempo, ou estar em uma revista ou estar em uma televisão. Aos 30 anos, acho que é a idade que eu poderia me dar melhor com a televisão, porque você lidar com a televisão, eu acho que você tem que ter mais responsabilidade. Querendo ou não a TV é o lugar que você pode errar mais. É o lugar que você erra mais, você prejudica mais pessoas e eu quero estar prejudicando menos possível alguém. Errando menos, fazendo matérias melhores. Eu sei que a televisão é o meio que você atinge o maior número de pessoas, então é o meio que eu quero estar mais preparada, entendeu?

G – E como você vê o jornalismo de uma maneira geral?
L
– Ai, o jornalismo de uma maneira geral. Olha, eu vejo o jornalismo com muitas pessoas querendo fazer o bom jornalismo, mas não conseguindo. Eu ainda sou. Eu não sei, posso estar equivocada, mas, eu ainda sou da seguinte opinião: que os donos dos meios de comunicação não estão preparados para serem donos, entendeu? São filhos de pais que foram jornalistas, é o caso da família Marinho, e que não são jornalistas. Não têm aquela coisa do meio de comunicação e são pessoas que, infelizmente, não se preocupam com o social, infelizmente. Eu acho que hoje o que tem de responsabilidade social no jornalismo é mérito única e exclusivamente do repórter. Daquele que vai lá atrás, do jornalista, nem tanto do editor. Por que eu vejo o editor como pessoas covardes. Não sei, eu posso estar enganada, mas hoje eu vejo assim. Então, eu acho que tem muita gente querendo fazer, tem muita coisa boa pra ser feita, mas, ao mesmo tempo, tem muita coisa horrível também no mercado, essa questão... Eu acho que o jornalismo hoje é pobre de idéias, sabe? Essa coisa de você ver em todos os jornais de televisão a mesma notícia, em todos os jornais impressos o mesmo destaque. As assessorias tomando conta dos lugares. Eu, às vezes, até penso em seguir assessoria para poder, tipo assim, eu escolho o lugar e defendo aquele ponto de vista. Eu acho que hoje um assessor é mais livre do que um jornalista, porque a idéia é de que teria que ser ao contrário, né? O jornalista tem que ser mais livre para escolher, e o assessor mais... Eu acho que hoje falta idéia no jornalismo nacional.

G – Você é muito esquecida, sempre foi? Conte algo engraçado.
L
– Ai, eu acho que a estória mais engraçada de esquecimento foi a minha vó

G – E você sempre foi esquecida?
L
Se eu sempre fui esquecida? Acho que sim. (morrendo de rir) Eu não me lembro se eu sou esquecida desde sempre. (risos)

G – (morrendo de rir) Essa foi a melhor resposta! ...[A entrevista é interrompida para terminarmos de rir, e aí eu retomo] Conte a história da sua vó
L
– Eu me lembro sim. Eu me esquecia de fazer os deveres. Eu acho que sempre fui meio esquecida. Eu esqueço de dar recados, tenho que anotar todos os recados. Eu tenho assim uma memória boa pra pessoas, dificilmente eu me esqueço de uma pessoa que conheço. Muito difícil que eu me esqueça da situação que eu a conheci, de como ela estava vestida. Às vezes, eu me lembro, mas de fatos, de coisas menos humanas, eu me esqueço. Me lembro sempre de pessoas.

G – De afazeres?
L
– Isso de afazeres eu me esqueço muito, sabe?

G – A sua avó...?
L
– A minha avó. Ai, então, a maior estória da minha vida foi essa. Eu estava... Acho que foi a minha primeira prova na universidade, era a prova do Ido Michaels de economia. Eu achava que ia ser a prova mais difícil da minha vida e foi a prova mais ridícula que eu fiz. Então, eu estava estudando muito na Federal. Umas 6 horas da tarde e minha mãe me liga: “Ah, filha, sua avó vai ficar em casa, eu vou deixar ela aqui pra você ir com ela amanhã no médico”. E eu falei: “está bom”. Só que como eu estava muito concentrada numa coisa, eu não ia lembrar de duas coisas ao mesmo tempo, claro. Aí fui, fiz a prova, senti que eu sai “Oh, eu sai muito bem na minha primeira prova!”. Foi ridículo. Para aliviar a tensão todo mundo foi pra feira e eu fui com todo mundo. Só como eu morava do outro lado da cidade que o restante das pessoas. Eu o Guilherme moramos de outro, eu falei como que eu vou, né? Aí a Viviane falou: “Não, você dorme na minha casa”. Aí, eu fui pra feira. E estou lá muito bela, tranqüila, já é 1 hora da manhã, estou eu sentada numa cadeira quase dormindo, e o Bruno também, minha cara. Eu dei um pulo, e um grito: “A minha avó!”. O Bruno olhou para minha cara e falou “que vó Laiana? Você está louca?”. “A minha avó! Eu esqueci a minha avó!”, “Você esqueceu de ligar para a sua vó”, “Não eu esqueci a minha avó” (risos). Moral, a minha mãe trancou a minha avó lá dentro de casa, e eu esqueci a minha avó trancada dentro de casa. Isso era 1 hora da manhã. Não tinha mais ônibus para eu voltar. Estava a dez quilômetros da minha casa. Então, eu fiz uma pessoa que eu acabei de conhecer que era o Eduardo, que estava acabando de começar a namorar a Maria Eliza, uma grande amiga também, que eu esqueci de citar. Mas que eu também admiro bastante. E aí, foram os dois e a Isabela, uma outra colega, me levar para casa. Minha avó trancada dentro de casa. Como que uma pessoa esquece a avó trancada dentro de casa? Eu poderia ter causado um grande problema para saúde dela, porque ela ia perder o ônibus. Ela ia perder a viagem, ela ia perder tudo. Ela não é daqui de Campo Grande. Então, eu acho que foi o meu maior esquecimento, mas tiveram vários... Ah! Eu esqueci minha sacola dentro do ônibus. Desci do ônibus sem sacola, como assim? Eu fui viajar e deixei a sacola no ônibus. Minha sacola foi parar em Nova Alvorada e eu fiquei no Anhanduí e eu peguei a sacola de outra pessoa. Atenção total, né? Mas, é uma história também.

G – Você tem um cabelo grande, lindo... Deixa eu ver qual é o outro elogio...(risos) e Cacheado. Como é sua relação com o seu cabelo?
L (rindo) –
Ai meu Deus, obrigada pelo lindo! Poucas pessoas falam que meu cabelo é lindo. Mas eu acho meu cabelo lindo! (risos) Muita gente acha esquisito, mas eu acho lindo. A relação com meu cabelo: acho que é a parte do corpo, que eu tenho, que eu mais odiei na minha vida, e que mais amei. Eu jamais cortaria o meu cabelo curto. Eu olho para Maria Fernanda e acho lindo o cabelo dela, mas eu jamais acho que eu cortaria meu cabelo daquele tamanho. Eu gosto de pegar, no meu cabelo sentir os cachos e tal. Eu sinto que quando eu corto o meu cabelo, as pessoas falam “Ah! Ficou bonito!”, mas eu sinto que eu perdi um pouco da minha beleza. Eu não me sinto uma pessoa bonita. Um pouco, grande parte da minha beleza está no meu cabelo. Eu não sei da beleza, mas a diferença, entendeu? Porque eu sou uma pessoa, eu me vejo como uma pessoa que não tem diferença. Eu me vejo como a mais sul-mato-grossense do mundo. Eu sou filha de gaúcha, com sul-mato-grossense, que nasceu dentro do Mato Grosso do Sul, no meio do Mato Grosso do Sul. Tenho o cabelo cacheado e sardas, tipo “que é isso? É uma mutante!?”. Então, eu acho que o diferencial em mim é o meu cabelo.

G – E chapinha, nunca?
L
– Nunca fiz...

G – Mas, você não se vê de cabelo liso?
L
– Olha, eu não consigo. Eu sempre falo, toda vez que eu vou na minha cabeleireira eu falo: “a próxima coisa que eu vou fazer aqui vai ser uma escova e uma chapinha”.

G – Nunca Fez?
L
– Nunca fiz no meu cabelo, nunca alisei o meu cabelo, mas eu vou fazer! Sabe, não digo nunca, eu vou fazer! Talvez na próxima... A chapinha está próxima (risos)

G – Mas, você não se vê de cabelo liso diariamente, por exemplo?
L
– Jamais. Eu de cabelo liso pro resto da vida nunca! Alisar o meu cabelo com químicas e químicas. Eu não vou falar que nunca passei, já passei. Ele alisou tudo, do jeito que eu queria e começou a alisar. E aí eu falei não eu quero cacheado. Eu nunca, jamais me vejo com meu cabelo liso.

G – E tinta? Pintar...
L
– Eu já tive vontade, mas eu não consigo. Como eu sou uma pessoa muito esquecida, eu também me esqueço de cuidar do meu maior bem que é o meu cabelo. Eu também me esqueço. E o cabelo cacheado com tinta e sem tratamento é uma bucha, uma palha, uma vassoura. Então, eu acho que não. Talvez, eu já tive vontade de pintar o meu cabelo. Não é pintar, mas de fazer talvez luzes de vermelho, porque eu gosto da cor. Eu acho que talvez não ficaria bom, porque eu sou uma pessoa não é nem amarela, eu sou uma pessoa que não tem cor. Então, o cabelo vermelho é bom para pessoa branca. Acho que não ficaria bom para mim, mas é uma cor que eu gosto.

G – Como você avalia o governo Lula?
L
– Ai, meu Deus. O governo Lula é engraçado (risos). É a maior frustração, porque no fundo, no fundo, eu queria que fosse diferente. Mas, ao mesmo tempo, é a maior expressão de que eu estava certa. Porque quando todo mundo acreditava que o governo Lula seria diferente, eu falava que não seria diferente, entendeu? E todo mundo brigava comigo “como que você é uma jovem, que vai entrar na faculdade e não tem a visão de mudança?”. Eu falava: “não tenho visão de mudança, porque eu acho ridículo o que eles estão falando, porque eles não vão fazer”. Ao mesmo tempo, eu avalio como um avanço na cidadania brasileira, na democracia brasileira. Por mais que todo mundo fala “ai, é horrível o governo Lula”, mas você tinha que experimentar. Nós tínhamos que saber, se seria ou não horrível. Não existe democracia feita de um lado só. E até o Lula, a democracia no Brasil era feita de um lado só. Eu acho que foi um avanço para as pessoas perceberem que a democracia não é só o direito de escolher, mas a alternância no poder. Eu acho que democracia, a gente vivia em um absolutismo de, não é um absolutismo... Talvez de uma ditadura que nós não percebíamos, uma ditadura imposta por nó mesmos, porque nós não tínhamos a consciência de que a democracia é isso, mudança. Entendeu? E eu acho que esse foi o avanço do governo Lula. Assim, existem outros avanços, mas eu não me lembro agora (risos).

G – Agora é um bate bola. Eu queria que você falasse de um momento de alegria.
L
– O vestibular. O Morenão, o Morenão é a minha maior alegria.

G – Um momento de tristeza.
L
– Ai, um momento de tristeza foi a perda de dois amigos, num acidente de carro. E, assim, alguns momentos de tristeza que não são fortes. Eu nunca tive momentos fortes de tristeza, mas o pior foi esse eu acho.

G – Agora um bate bola mesmo. Família, uma palavra.
L
– Tudo

G – Lugar
L
– Ai meu Deus, a fazenda do meu pai. O mangueiro da fazenda do meu pai. (risos)

G – Um exemplo
L
– Minha mãe é tudo.

G – Amor
L
– Amor? A minha vida!

G – Amizade
L
– A minha segunda vida. (risos)

G – Brasil
L
– O Brasil, meu sonho.

G – Jornalismo
L
– Ah! Também meu sonho

G – Uma qualidade
L
– Minha? A amizade, o amor pelas pessoas. Essa é a minha maior qualidade: eu amo, mas vai o defeito né?.

G – Defeito.
L
– (risos) a falta de capacidade de mostrar o meu amor pelas pessoas

G – Escrever
L
– Uma luta.

G – Uma frase
L
– Uma frase... ai, meu Deus, eu tenho tantas frases na minha vida e eu não me lembro...

G – Só uma. (risos)
L
– (risos) Mas assim, eu me lembro de uma que eu escolhi para colocar na minha primeira fotinho de escola, sabe aquelas fotinhos de escola? Que é do Fernando Pessoa: “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

G – Ótima. Um recado final.
L
– Ai, assim, pra pessoas que vão ler essa coluna, essa entrevista, que eu agradeço o Guilherme por ter me dado uma chance de mostrar um pouquinho mais de mim. Eu acho que consegui mostrar um pouco pra ele, e falar dele, falar do Guilherme porque eu acho que é importantíssimo falar do Guilherme. Porque pra mim é um exemplo de amigo, e é um exemplo de jornalista, que eu queria ser. Eu acho que o Guilherme vai ser um jornalista que eu quero ser. Então, eu pretendo ser amiga do Guilherme pra poder aprender com ele. (risos).

Laiana é a filha mais velha de Roberto e Cira. É irmã de Naiara e Fernanda.