sexta-feira, 30 de novembro de 2007

O Sertão Possível

Terra branca e rachada, plantas secas, rios que só estão presentes em nomes de placas. Esse é o cenário de Independência, município, a 309 quilômetros de Fortaleza, no Ceará. Mesmo para quem mora no estado onde fica o Pantanal, a maior área alagada do mundo, a imagem soa familiar, já que o sertão nordestino é alvo de diversas reportagens que mostram a realidade da região.

Não dá para negar: o lugar que utiliza galhos secos como cercas tem um clima de tristeza. A melancolia, no entanto, é logo espantada por um coral de crianças que entoam uma música e parecem querer mostrar outras possibilidades do semi-árido brasileiro.

- Seja bem vindo a casa é a sua, fique a vontade - cantam os alunos da Escola Família Agrícola Dom Fragoso, em ritmo de ciranda, com sotaque local e orgulho nos olhos.

Mas em um cenário como esse, de que elas se orgulham? Elas logo se apressam em mostrar o motivo. No auge da seca, que já dura mais de sete meses, o que é comum todos os anos na região, os 72 alunos da escola conseguem cultivar frutas, verduras, hortaliças e ainda criar porcos, cabritos e galinhas. O segredo é a perseverança de um povo guerreiro que buscou várias alternativas para conseguir água em um local em que choveu apenas durante uma semana em 2007.

- Fazemos uma base embaixo do solo por meio de um buraco profundo, colocamos lona para proteger e represamos a água encontrada – relata Adão (foto).

O garoto de 17 anos lembra muito Elieldo, de 28. A semelhança não é física, mas pode ser percebida a olhos nus. Os dois moram na mesma região do país, a mais de três mil quilômetros de Campo Grande (MS), mas não se conhecem. Ambos são líderes natos e residem no interior do interior do Brasil e lá pretendem ficar.

Adão Sérvulo é aluno da 7ª série da Escola Família Agrícola Dom Fragoso, localizada na área rural do município de Independência. Já Elieldo Gonçalves é um dos diretores da Associação Comunitária de Pequenos Produtores de Várzea do Toco, comunidade que abriga 57 famílias e fica no outro extremo do município de Independência.

Os dois são personagens de uma história que se constrói no dia-a-dia, em um local em que o sol está presente em todos os lugares, inclusive nas pessoas: no cheiro, no tom e na textura da pele. Eles usam calça jeans e camisa, vestem o rótulo de sertanejo e têm brilho no olhar e alegria na voz. Ambos nasceram com o pé no chão, a mão na enxada, o sol na cabeça e muita determinação.

Elieldo é conhecido em sua comunidade como “chave”, afinal tudo o que os outros moradores - mesmos os mais velhos - vão fazer consultam-no. Elieldo é o responsável por ativar a mandala, tecnologia utilizada para irrigar a água para as hortaliças.

É ele também quem liga a luz e faz as contas da associação. É uma pessoa que vive lá, longe dos olhos dos governantes, da multidão, e constrói uma vida tentando ser justo e honesto, com admiração ao lugar em que mora. – Já trabalhei como garçom em Fortaleza, mas gosto daqui. É onde sou feliz e não quero sair. Vamos aprendendo as técnicas de plantar no semi-árido e repassando para os outros.

Na casa simples de Elieldo, assim como na maior parte das residências de Várzea do Toco, há uma antena parabólica. Ele, que é solteiro e mora com os pais, tem na sala aparelho de som, televisão, DVD, entre outros aparelhos eletroeletrônicos adquiridos a partir de 2004, quando chegou a luz na comunidade.

O porta-CDs abriga clássicos do forró local como “Limão com Mel” e ícones da música sertaneja como “João Mineiro e Marciano”. A família Gonçalves possui também sacos de alho, panelas grandes e fogão de barro na cozinha. No quarto, além da cama e do guarda-roupa há um ventilador e um violão, que o sertanejo arrisca tocar para os amigos nas noites enluaradas de Independência.

Tudo que acontece na comunidade é decidido em conjunto. A partir da união dos moradores da Várzea do Toco, que fundaram a associação há 12 anos, foi possível conseguir mais do que a luz, ou o que qualquer outro programa assistencial de governo pode dar a uma pessoa. Eles conquistaram a dignidade.

Passamos a produzir na horta comunitária o que comemos. Vendemos o excedente e dividimos o dinheiro. Fizemos a convivência com o semi-árido se tornar possível. Valorizamos o lugar onde vivemos e temos orgulho daqui – diz a professora Ana Neri, 27, moradora da Várzea do Toco e secretária da associação de moradores.

Driblando o tempo

Tanto na escola, onde Adão passa 15 dias seguidos, quanto no Assentamento Pintada, onde mora com os pais, e passa os outros 15 dias do seu mês, são utilizadas cisternas para captar a chuva. Por meio de calhas que recolhem a água que cai sobre o telhado das casas elas armazenam até seis litros. No assentamento onde Adão mora, são 31 reservatórios, que fazem parte do programa “Um Milhão de Cisternas Rurais”, da Articulação no Semi-Árido Brasileiro (Asa), movimento que reúne 750 entidades, sindicatos e associações nos nove estados da região Nordeste, além de áreas de Minas Gerais e do Espírito Santo, que fazem parte do semi-árido brasileiro.

Ao todo, foram construídas pelo programa 220 mil cisternas em 1.031 municípios da região, beneficiando 1 milhão de pessoas. O objetivo do projeto é chegar a 1 milhão de cisternas, atingindo 5 milhões de pessoas. - A intenção é conviver com a região por meio de organização política e de produção, afinal, os açudes são rasos e vão evaporando ao longo do ano. Eles também não permitem a distribuição de água, que é fundamental para a segurança alimentar. Com a cisterna permitimos a democratização desse bem - afirma o articulador da Asa, Lourival Almeida.

Na Escola Família Agrícola Dom Fragoso, a cisterna está vazia e aguarda o “inverno” no sertão, período de chuva, que com sorte vai de janeiro a maio. Enquanto, a cisterna está vazia, a água é captada de um açude, que presencia diariamente um belo espetáculo de pôr-do-sol. Hora em que as crianças descansam das atividades escolares e jogam uma pelada.

Mas aqui, os verdadeiros gols são feitos em áreas experimentais em que cada aluno produz uma cultura agrícola na comunidade onde mora e ajuda a colocar comida na mesa de casa. - Na minha casa não fazia nada, começamos a produzir verduras depois que vim para escola. Agora cada dia minha mãe inventa uma comida diferente – diz, com sorriso tímido, Jaciara Pereira Sousa, 12, aluna do 7º ano da escola.

As lições presentes nos livros didáticos, nas paredes, na lida do campo, na ideologia e no hino da escola, são decoradas pelos alunos e estão na ponta da língua: “A Escola é fruto da luta do povo que quer ver um mundo novo, que ninguém tenha mais fome. Hoje uma conquista nossa do trabalhador da roça que quer ser cidadão”.


(30-12-2007)

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Eu moraria em São Paulo

Vista do alto a cidade parece um cemitério: concreto por todo lado, muito cinza e sujeira. Mas São Paulo ferve. É um centro cultural, um conglomerado de pessoas e de coisas que se cruzam e convivem no mesmo espaço - extremamente urbano. No entanto, na cidade também há paz. Ouvi patos coaxarem e vi cisnes no lago do Parque Ibirapuera.

Na Avenida Paulista, você não precisa de um programa específico, pode sentar em um banco qualquer da rua e reparar nos tipos humanos que transitam ali. É a diversidade! Quanta gente diferente dividindo a mesma calçada, caminhando apressadamente em direção a algum lugar. O barulho do trânsito parece não incomodá-los mais, falam ao celular, ouvem MP3, usam óculos escuros...

No Masp, terá a sensação de já conhecer o lugar, afinal é famoso pelas telas da TV. No museu quadros de Picasso, Monet, Renoir, Tolouse Lautrec, Van Gogh, Modigliani, entre outros que você só viu em livros ou pela Televisão. Juntos, proporcionam um sensação incrível de saciedade.

O paulista tem muitas caras, muita diversidade, é muita gente junta... Saí do museu e meu programa foi sentar numa mureta e ver pessoas passando apressadas voltando pra casa... E, eu tenho uma péssima mania de procurar gente conhecida nos lugares, lá não achei ninguém, daí fiquei tentando achar semelhanças: esse parece com não sei quem, esse lembra aquele outro...

Viajei pelos tipos humanos, e de repente, percebi que estava numa roubada, a minha volta apenas jovens com cara de alternativos, todos fumavam, e lá pelas tantas percebi que não era cigarro. Se a polícia chegasse ali, com certeza eu iria preso com eles. Se é que alguém é preso em São Paulo por usar drogas embaixo do Masp...

Entre num sebo da Avenida Paulista e compre muitos livros, uns seis pelo menos. Não gastará mais que R$ 40 e terá muitas obras para se deliciar. Títulos que você só encontra nesses lugares peculiares com vendedores que são verdadeiros tipos – interessantes e engraçados.

Palavras

No Museu da Língua Portuguesa, você aprende que não existe humanidade sem língua. “É ela que organiza crenças e o sistema. Faz ser quem somos. É a nossa identidade, nosso retrato”, afirma o locutor do vídeo, que começa repetindo diversas vezes a seguinte passagem: “penetra surdamente no mundo das palavras”. Ao todo 200 milhões de pessoas falam português nos cinco continentes.

O lugar é o que há de bom no Planeta! Poemas, vídeos, informações interativas, exposição sobre Clarice Lispector... Isso tudo na Luz, uma estação que fica em um prédio antigo lindíssimo, tudo perfeito, tudo São Paulo! Para as pessoas era o caos, a cidade estava sem metrô, para mim tava tudo ótimo.

No Parque Ibirapuera, andei de patins, bicicleta, espaireci, vi cisnes no laguinho... Sim, há paz também. Eu moraria em São Paulo, fiquei apaixonado pela cidade. Fui ao Museu de Arte Moderna e almocei em restaurante para gringos. Comida boa e nem tão cara assim, nada que um cartão de crédito não resolva.

Falso conejo

Na Barra Funda, há um lugar em que tudo converge. É estação de metrô, de trem, de ônibus urbano e intermunicipal. Ali fica, dentre outros comércios a Lotérica Adeus Patrão - o sonho de todo o brasileiro. As pessoas caminham dispersamente, uma sem perceber a outra até que ouve-se uma mulher gritando. O terminou todo parece parar para ouvi-la. No orelhão, ela discute com a pessoa do outro lado da linha. “Eu não acredito que você é casado, que me enganou todo esse tempo... Ah! não é? Então, me passa o endereço da sua casa que eu vou até aí”, branda em alto e bom som.

Uma aglomeração de gente pára para assistir a desgraça alheia, a mulher ousou interromper a “ordem” e o combinado oculto de convivência, que diz para uma pessoa não interferir no caminho da outra. Ela se enfurece, desliga abruptamente o telefone, e passa na minha frente marchando firme.... Segue - sob olhos atentos da multidão que atraiu - rumo a um guichê que vende passagem de ônibus intermunicipal.

De repente, ela desaba, e começa a chorar. Ela espera na fila e o seu mundo parece ter acabado, está desolada. As pessoas olham, admiram, comentam e do mesmo lugar que ela apareceu, se vai... Perdi-a numa pequena distração. Para onde terá ido? Como será que resolveu aquela situação? Mais algumas perguntas que a vida nunca vai nos responder...

Do Terminal da Barra Funda, saio em frente ao Memorial da América Latina, estou instalado a duas quadras dali. O Memorial é um centro do Mercosul. Naquele final de semana abrigou a Festa da Independência da Bolívia, comemorada no dia 6 de agosto.

Na festa, podia-se comer coisas típicas do país vizinho: fritanga, fricasse, chicarron, salchipapas, falso conejo e pique a lo macho, na via das dúvidas fico com a boa e conhecida saltenha. Alguém (além da Vivi) já ouviu falar no dia da independência da Bolívia ou nessas comidas típicas? Pensei em quão pouco conhecemos um país tão próximo.

Ao som de um ritmo chamado cumbia e trajes típicos, os bolivianos radicados em São Paulo faziam brilhar seus olhos pretos puxados, acompanhados de cílios grandes e negros. Os cabelos lisos e pretos estavam trançados, as vestes eram coloridas e compostas por lenços no pescoço. Os bolivianos vivenciavam sua cultura e matavam a saudade da terra natal, falavam a língua pátria e estavam visivelmente felizes.

Pôr-do-sol

No fim de tarde no Parque da Luz. Sente-se num banco. Atrás de você mulheres de mais de 30 e batom, conversam. Elas reclamam que só podem ver os filhos no fim de semana. As crianças de uma delas, fica com a avó. O filho da outra passa a semana toda sozinho em um apartamento. É compensado com um passeio no Shopping junto com a mãe, aos domingos. Uma terceira leva os filhos para passear em um parque.

Elas têm muito em comum: uma vida corrida, e muitos problemas a enfrentar. Um deles é quando seus clientes querem remunerá-las com cerveja. Falam abertamente, parecem não me ver. Eu? Finjo que estou em alfa mental, olho para o nada. Em nenhum momento dizem que são trabalhadoras do sexo, mas agora, depois de trabalhar no IBISS|CO, já consigo perceber isso sozinho...

São mulheres batalhadoras, que vivem o drama de milhões de brasileiras: o de sair para trabalhar e deixar os filhos. Não têm tempo para criação deles. Elas possuem outro padrão de beleza. Não são magras, nem loiras, nem têm mais 20 anos. São feias? Talvez. Sei que são charmosas e atraem os clientes por meio do olhar e assim conseguem grana para sustentar os filhos e alguns familiares.

Ao lado, na Pinacoteca, um prédio de tijolinhos à vista, em frente a Estação da Luz, estão várias exposições. Uma fotográfica: com três olhares de fotógrafos diferentes sobre a Rússia; outra expondo obras e imagens do Palácio Soberano de Versalles, da França; além de esculturas e pinturas modernas do acervo permanente. Cultura de graça e sexo pago ali no centro paulistano.

Da Pinacoteca, quero chegar a Estação Pinacoteca, outro lugar em que acontecem exposições. O guarda me aponta o local, fica a duas quadras dali. O problema é que o ponto é conhecido como cracolândia, e eu carrego sacolas da manhã de compra no comércio do Bom Retiro. Enfrento o desafio, o máximo que vejo são pessoas que moram na rua e usam drogas.

No sábado foi a primeira vez em que me bateu o cansaço, afinal andei muito, bati muita perna nas ruas da grande São Paulo. O metrô está de volta, para alegria do paulistano. No dia anterior, no meio do “caos”, da São Paulo sem metrô, foi a vez em que vi mais humanos juntos. Os jornalistas se aglomeravam para captar o melhor ângulo, eram abutres em cima dos problemas do povo.

Nenhum deles parece notar as pessoas e seus aflitos, se interessam apenas por explorar sua dor... Nos muros, cartazes do movimento da negação da negação que prega que as escolas, faculdades e fábricas falidas sejam invadidas... Viva a revolução e o MNN!!!

O loquinho (como diz minha avó)

No domingo, fui ao mercadão, comi sanduíche de mortadela e pastel de bacalhau, pratos típicos do local, foi meu almoço. Na Paulista, fui ao cine da TV Gazeta, assisti a um filme francês chamado “Medos privados em lugares públicos”. Na segunda, meu último dia na cidade, fui a Rua 25 de marco e na USP. Almocei no restaurante da Escola de Comunicação e Arte e estive na sala da Cremilda Medina - pela primeira vez em SP senti vontade de tirar uma foto: na porta, com o nome dela!

A viagem foi de avião. As pessoas me amedrontaram, afinal fazia um mês da queda do avião da TAM. Não tive receios, mas na hora em que ele subiu senti uma leve tontura, no entanto correu tudo certo: vôo no horário, pouso sem traumas, malas na esteira certa... Só demorei pra sair do aeroporto, tinha fila pra sair! E demorei 30 minutos nela, metade do tempo de vôo Campo Grande - São Paulo. Fiquei de 2 a 6 de agosto na capital de São Paulo, tempo muito bem aproveitado e intensamente vivido. Agora quero mais!

Entre Aspas: Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Clarice Lispector em A Descoberta do mundo. A frase do livro, da minha autora predileta, fazia parte da exposição sobre ela, na Estação da Luz.

PS: Não podia deixar de contar que vi o Luiz Fabiano, aquele ator que fazia propaganda das Casas Bahia (quer pagar quanto?). Ele estava andando na Paulista falando no celular. Gestos largos e jeito delicado... Caminhava a passos lentos e parecia combinar um programa com alguém...

quarta-feira, 17 de janeiro de 2007

O céu é de Hermila


A simpatia e o sorriso da atriz agora se misturam com seu sotaque pernambucano e já não lembram mais a mulher forte do filme que acaba de ser exibido. Hermila Guedes é a protagonista de "O Céu de Suely", que abriu o Festival de Cinema de Campo Grande. A jovem de 25 anos fez questão de participar do evento e viajou 12 horas para chegar à capital sul-mato-grossense.

No filme ela interpreta Hermila, 21 anos, que retorna à sua cidade natal, no interior do Ceará, após ser abandonada pelo namorado. Ela decide, então, rifar seu corpo para sobreviver e iniciar uma nova vida.

A atriz é a nova musa de Karim Aïnouz. Em seu segundo filme, dirigiu "Madame Satã" em 2002, ele agora lança mão de uma edição onde os tempos longos e enquadramentos inusitados também fazem parte da história. "O Céu de Suely" é um filme de silêncios.

A idéia do longa, que traz uma crítica social, surgiu de uma notinha de jornal. A partir daí, Karim Aïnouz misturou sua história a outras que ouviu e o resultado pode ser visto nas telas de alguns cines artes do país.

Assim, como Hermila, a personagem, Karim também viveu com a tia e a avó. Ele levou os atores e toda a equipe para Iguatu, no Ceará. As atrizes tiveram suas roupas confiscadas e começaram a viver e a se vestir como as personagens.

Na hora de gravar as cenas, Karim substituiu o famoso "Ação" por "Continuando". A escolha de utilizar os nomes dos atores nos personagens veio dessa idéia de fazer a ficção mais real. Georgina Castro, que interpreta uma trabalhadora do sexo no longa, também veio a Campo Grande para abertura do festival. A atriz conta que a experiência foi única e gratificante e que muitas vezes se confundiu com a personagem. No elenco do filme estão ainda os atores João Miguel, Marcélia Cartaxo e Flávio Bauraqui.

A protagonista, Hermila Guedes, revela que a entrega foi total e que considera estranho ver os 88 minutos de filme já que gravaram 42 horas. "O Karin teve de escolher qual filme ele queria, é um pedacinho do que a gente fez", diz a atriz, que usa vestido moderno e grampos para prender o cabelo.

Hermila revela que a equipe do longa vivenciou Iguatu, e que a cidade não teve de parar por causa da produção, mesmo tendo muitas moradores atuando como personagens do filme. A atriz conta que gosta de desafios, mas diz que teve dificuldade nas cenas de nudez. "É quase uma pessoa arreganhada", fala, em meio a uma gostosa gargalhada.

Ao assistir ao filme naquela noite, ela garante que passou da fase da autocrítica para conseguir pensar dentro do filme. "Nos debates, também tem comentários que são legais, faz te ver o que você não viu". Naquela noite, uma pessoa da platéia a fez perceber que os homens do filme são passivos e que são as mulheres as protagonistas da história.

Rodado em 2006, "O Céu de Suely" já acumula vários prêmios no Brasil e no exterior. O longa recebeu os prêmios de melhor filme e melhor atriz (Hermila Guedes), no Festival de Havana, em Cuba; troféu Redentor de melhor filme, melhor diretor e melhor atriz (Hermila Guedes), no Festival do Rio; e melhor roteiro, mérito artístico e o prêmio FIPRESCI, no Festival de Salônica, na Grécia.


Uma nova estrela

A atriz interpreta sua primeira protagonista em "O Céu de Suely" e diz que ao terminar o trabalho teve a sensação de missão cumprida, mas se mostra surpresa com a reação das pessoas e da crítica. Ela avalia que teve sorte em começar em filmes que estimulam as pessoas a pensarem na realidade do país. "Quero fugir dos filmes comerciais".
Ela é considerada hoje uma das grandes revelações do cinema brasileiro. Uma responsabilidade que a atriz diz receber com muita sensibilidade. "Sei que ser considerada uma promessa é muita responsabilidade, pois é viver o sonho de muita gente", ressalta.

Hermila começou fazendo cinema e não fez teatro. "Acredito que isto me possibilita interpretar com mais realidade. Deixo minha intuição me guiar", confessou. Ela esteve também em "Entre Paredes", de Eric Laurence, e no longa-metragem "Cinemas, Aspirinas e Urubus".

Aclamada pela crítica, Hermila Guedes recentemente interpretou a cantora Elis Regina no especial da TV Globo, surpreendendo pela semelhança e interpretação. Até então ela tinha medo de fazer TV por considerar difícil. No entanto, não teve como recusar o convite para interpretar Elis Regina. "Tinha medo porque achava que ia ser difícil e foi. Em duas semanas tive que fazer uma mulher intensa, trocar meu sotaque pernambucano pelo gauchês dela", argumenta.

Ela diz que valeu pela homenagem, mas que queria ter vivenciado mais para a interpretação. "Me ferrei. É muito difícil mesmo", confessa. Quanto a novelas, Hermila diz que não pode morrer falando que não gosta sem nunca ter feito. "Vou fazer para saber como é, mas quero que as pessoas continuem vendo o personagem e não a atriz, que é o que acontece quando se faz TV", avalia.

Hermila segue agora para o teatro com a peça "Noite Feliz". Nasce uma grande estrela que já brilha no Céu. E nesta noite o céu é todo dela, o céu é de Hermila.

Já, o longa "O Céu de Suely" é um filme sem globais, de baixo orçamento que pode ser resumido pelas palavras da atriz: "Não diz nada e diz tudo ao mesmo tempo".

O festival de Cinema de Campo Grande segue com a exibição de mais de 40 filmes até o dia 11 de fevereiro. O Cinecultura está localizado no Pátio Avenida, que fica na Avenida Afonso Pena, 5.420. Mais informações sobre o festival no site www.cinecultura.com.br ou pelo telefone 3027-5858.
 
Entre Aspas: Se fica agarrado ao que tem agora nunca vai saber o que a vida poderia te dar depois.

terça-feira, 26 de dezembro de 2006

Meu filho


- Adora chá! - comenta Elenir, sobre a filha, como se confessasse um crime. A revelação de uma preferência da filha que é o maior tesouro da assistente social pode ser considerada banal. E talvez seja. Mas revela muito daquela adolescente de 16 anos que Elenir ama tanto. A expressão dela ao fazer esse comentário ecoa até hoje na minha memória. Fabiana, a filha, é negra e tem cabelos cacheados curtos que preserva presos. Essas características também podem descrever Maristela, 19 anos.

A jovem vive isolada em seu mundo introspectivo, mas aos poucos revelou suas histórias e aflições. A mãe, Miriam, é uma prática advogada que tem dificuldades de dialogar e de enfrentar os problemas emocionais da filha.

A jovem gosta de rap, o ritmo de protesto da periferia que também agrada Ezequiel. Um anjo torto que vive hoje nas sombras dos becos de Cuiabá. Ele teve uma tentativa de adoção pela família de Silvia. Uma conselheira tutelar, que assim como Elenir é assistente social. Entretanto, o garoto não suportou as regras impostas pela família e foi em busca do pai biológico. Acabou voltando para as ruas, mas dessa vez em uma cidade desconhecida.

Ezequiel, 13 anos, tem outra característica em comum com Maristela: ele luta judô. Os dois são elogiados na prática dessa arte marcial. Gabriel, 6 anos, praticava outra arte marcial, o karatê. Mas desistiu após não poder fazer a prova de troca de faixas. A mãe Soila e o pai Geraldo, foram quem frearam o menino após ele cometer uma de suas traquinagens. O casal é rígido na educação, mas também são muito carinhosos e amam muito os filhos. Hoje Gabriel prefere brincar de futebol e cavalgar na fazenda ao lado da irmã Larissa de três anos.

A menina loira e amável é carinhosa, assim como Amadeus que tem essas mesmas características e a mesma idade que ela. O menino, junto com a irmã Graziele, 6 anos, é o xodó da casa de Stephan e Sueli. Graziele, assim como Gabriel e muitas outras crianças brasileiras, adora Rebelde. O grupo mexicano que tem novela de mesmo nome no SBT.

Às 6h30 da manhã, Elenir prepara as coisas de Fabiana para irem juntas para escola. Soila faz queijo, mas já preparou o café e arrumou a cozinha. Sueli também arruma Grazieli para levá-la a escola. Silvia desperta e pensa no dia cheio de trabalho que terá no conselho tutelar. Enquanto isso, Miriam ainda dorme mais um pouco e só levanta às 7h, quando segue para o trabalho. Essas cinco mulheres são donas-de-casa, trabalhadoras, guerreiras, mas acima de tudo mães!

Mães de filhos que nasceram do amor. Amor "ocasional", que nasceu numa visita ao abrigo Vovó Túlia, como é o caso de Elenir, Soila e Miriam. "Ocasional" também foi o encontro de Silvia e Ezequiel e de Sueli e Stephan que adotou uma família toda (ou foi adotado?). Mas quem acredita em ocasionalidade? Coincidência? Eu prefiro acreditar no destino...

Essas cinco histórias tem Campo Grande como eixo de ligação. São vidas que correm paralelamente e às vezes se cruzam, só para depois continuarem correndo cada uma o seu caminho. Assim, acontece quando Miriam visita no Marco (Museu de Arte Contemporânea) a exposição de fotos de Stephan. Ou quando Elenir chega ao IBISS logo após a saída do suíço. Ela faz consultoria na ong que é parceira da Girassolidário, agência de notícias que Stephan preside.

Miriam tem uma amiga que trabalha no IBISS, e assim como Elenir, já teve um fusca no passado. Elenir conta com o irmão Marcelo para cuidar de Fabiana. Cabeleireiro, o padrinho da adolescente, já precisou da ajuda de Scarlet, uma amiga, para pegar Fabiana na escola. Scarlet é de Anhanduí, distrito próximo à fazenda e Soila e Geraldo que conhecem a travesti de vista. O casal trata as doenças dos filhos através da homeopatia, como também faz Stephan e Elenir.

Você deve estar confuso com tantos nomes. Não deve mais saber quem é quem. Ou pode estar achando que com tantos pontos parecidos as histórias sejam todas iguais. Engano grande. As vidas dessas cinco famílias são muito ricas, particulares, cheias de especificidades, no entanto, em alguns momentos se parecem, se afunilam.

Essas histórias foram compartilhadas pelas famílias à Laiana e eu. Foram quatro meses em contato com essas pessoas, vivendo um pouco de suas rotinas, compartilhando um pouco de suas vidas. Tudo isso para fazermos o nosso projeto experimental, exigido para concluir o curso de jornalismo na UFMS. Ah! Sim, o nosso tema é adoção. Um livro de cinco histórias de famílias que tem adoção em seu histórico.

Tudo foi muito intuitivo nesse trabalho. A escolha do tema, que veio depois de defirmos essa parceria - a dupla. Hoje, vejo que jamais faria projeto experimental com outra pessoa que não Laiana. Não daria tão certo. O tema até pensei em desistir quando descobri um outro projeto que iria trabalhar com o mesmo assunto. Contudo, a adoção já tinha me escolhido.

Assim aconteceram com nossas histórias. Elas nos escolheram. Elas vieram ao nosso encontro. Esse trabalho foi um encontro de boas histórias, pessoas incríveis e dois jovens jornalistas em formação com sede de escreverem narrativas. Críticos com nossos textos que muitas vezes chegamos a julgar pobres.

Para muitos é uma tarefa hercúlea escrever a quatro mãos. Para mim e pra Laiana foi até tranqüilo. Foi muito mais difícil, por exemplo, ter que ter transcrever as fitas das gravações ou ainda enfrentar o cansaço do dia-a-dia do trabalho e mesmo assim ter inspiração e criatividade para escrever um bom texto. Muitas vezes achei que não iríamos conseguir. Foi aí que contamos também com a sorte. Murphy tirou férias nesse período e até deu as caras em alguns momentos, mas o contornamos.

Laiana e eu tivemos muitas sacadas juntos, discordamos poucas vezes, em todas chegamos a um consenso. Cedemos, rimos, assistimos TV enquanto escrevíamos, nos entendemos pelo olhar, discutimos poucas vezes, e fizemos um livro que para nossa surpresa foi muito bem criticado. Não esperávamos tantos elogios - de verdade.

Eu, em alguns momentos, cheguei a ter crises internas, porque nosso livro não receberia prêmios, como a revista do Antônio, não seria usado como instrumento de conscientização como o guia sobre bulling, de Jéferson e Bruno, e nem era um produto nunca antes feito no Estado, como a revista especializada sobre o terceiro setor, feita por Maria Fernanda e Camila Abelha.

Hoje percebo que nosso livro joga luz sobre pessoas que nunca ganhariam espaço na grande mídia. Esses seres humanos que praticaram um ato também humano, a adoção, no máximo seriam tratados como números. Humanização, narrativa e novo jornalismo. Esses foram nossos nortes. E enfim, Ijuim, entendi o que são as conexões.

Considero que nossa "obra" possa contribuir ainda com aqueles que querem adotar. Mas mais que isso são o retrato de histórias de vidas, que foram escritas assim: com vida. Construímos o que pra nós é o jornalismo, a arte de contar histórias, a história do cotidiano.

Essas vivências estão impressas no livro "EnCOMtro - histórias de pessoas que ganharam uma nova família" que na banca de avaliação foi elogiado pelos professores e jornalistas Mauro Silveira, Jorge Ijuim e Moema Urquiza. (sinceramente não sei se o livro é tudo aquilo, mas se eles disseram...). Hoje a obra está à venda por R$ 22.

Muitas dessas experiências levo pra vida toda. Ensinamentos que tive em contato com essas pessoas, na produção desse trabalho. E um dia pretendo também adotar um (a) filha (a). Gostaria de agradecer novamente a todos aqueles que contribuíram. Não se faz nada sem os amigos e nessa trajetória descobri que tenho alguns com quem sempre posso contar e que esse é o bem mais precioso que temos na vida! Desejo que em 2007 a vida e o destino proporcionem muitos encontros com esses amigos!

Valeu a pena!


Entre Aspas 1:

Escrever um livro

Eu quero escrever um livro

Pra dele me envergonhar um dia

Pra guardar na estante

Pra quase ninguém ler

Pra me sentir um intelectual (medíocre)

Pra me gabar modestamente

Para outros saberem quem sou...

Escrevendo somos transparentes

Sou bom, sou ruim, sou eu mesmo! (15/07/06)

GSD

Entre Aspas 2: Escrever é posar nu. Tudo ali é você, sem roupas, despido para que todo mundo possa ver e ler como quiser. Carlos Moraes/ GSD.

segunda-feira, 10 de julho de 2006

(Fora da) Normalidade

Ela era uma menina. Quantos anos teria? Tinha uma espécie de corcunda para frente. Uns cinco anos, talvez? Queria água. Não alcançava o bebedouro. Sua mãe enchia o copo enquanto ela com seus olhos tristes observava outra menina da mesma idade. A mãe da outra menina agarrava-a pela cintura e debruçava-a sobre o bebedouro. Como era gostosa aquela água pensava a menina "especial"* enquanto sentia mais sede e esperava a sua água.

Por alguns segundos ela se transferiu de corpo...Voltando a realidade pegou seu copo de alumínio e bebeu sua água. Os olhos das pessoas que passavam eram todos voltados para ela. Pena, dó, compaixão? Todos olhavam, menos eu. Adoro, nessas situações, ver como as pessoas reagem. Todos a olhavam e, eu olhava a todos.

A outra menina terminara de beber sua água e ia embora sem saber o quão era feliz. O quanto era bom poder brincar, pular e, principalmente ser "normal", não chamar para si olhares piedosos.

O pequeno e frágil ser tomou ainda mais um copo d'água. Agora eu evitava olhar para ela. Seria mais um reparando na menina. Depois que ela se foi percebi que estava de óculos escuros e que podia olhar a vontade.

Era quinta. 16h15 da tarde, Terminal Guaicurus, e eu depois de muito tempo ia para casa sem ter "nada a fazer". Já havia cochilado no ônibus anterior e tomado sorvete naquele mesmo terminal. O sol estava baixando. Estava no meu momento pleno de felicidade...

Aquela menina mexeu comigo. Não por ela. Mas, pelas outras pessoas. Nós é que fazemos o outro diferente, o nosso olhar, o nosso julgamento, a nossa "piedade". A hipocrisia da nossa falsa normalidade.

*odeio essa palavra, ela foi usada ironicamente.

Entre Aspas: Felicidade é um quantum de igualdade e um quantum de diferença. Divagações de Estela Scândola.

terça-feira, 27 de junho de 2006

Entrevista com Bruno Moser Canhete

Quem é o Bruno? Um novo desconhecido a cada dia. É assim que ele se define, lembrando que não gosta de falar muito sobre si. Você pode passar horas conversando com Bruno, porém pouco ele vai revelar sobre si. Nascido em Corumbá, que como ele diz, é cheia de figuras, o Bruno é mais uma delas: engraçado por natureza, artista e comunicativo. Na infância, queria ser médico. Ele se divertiu muito e deu muitas risadas quando era criança. A separação dos pais veio junto com a adolescência e depois vieram alguns trabalhos não muito bem-sucedidos. O que importa pra ele é fazer o que gosta e não o dinheiro. Jornalismo? "É quando você trabalha a favor da comunidade", acredita. O Futuro? "Eu não fico planejando coisas", afirma. Conheça um pouco mais deste desconhecido na entrevista a seguir (realizada em 24 de abril em um dos bancos de concreto da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul – UFMS):

Guilherme - Eu queria que você se apresentasse, falasse seu nome e idade.
Bruno
- Meu nome é Bruno Moser Cañete. Eu tenho 25 anos, nasci em Corumbá, em 6 de dezembro de 1980.

Gui - O que você faz da vida?
Bruno
- Eu, atualmente, estou cursando o 4º ano de jornalismo aqui na Universidade Federal. Pretendo ano que vem, se Deus quiser, trabalhar nessa área.

Gui - Além de cursar o 4º ano de jornalismo o que mais você faz?
Bruno
- Olha, eu não estou trabalhando, por enquanto. Também não estou procurando, mas tudo que aparecer de projeto interessante, que eu me identifico, eu estou fazendo. Estou tocando em uma banda, e participando, mais ou menos, da edição de um filme. E o que vier nesse sentido de arte, eu estou fazendo.

Gui - Como é o nome da sua banda, o que ela toca?
Bruno
- Eu tenho uma banda de garagem que não sai da garagem. A gente toca músicas dos anos 80, de um período pós-Punk, aí tem The Kirls, The Smith, todos os "Thes" da vida. A gente toca também Take Spitous. Eu toco baixo na banda e a banda não tem nome. A gente está procurando nome ainda, mas estamos em definições de componentes e tal. Mas quem sabe eu entre em uma outra também, aí eu vou cantar. A gente está esperando um baterista bom, só isso.

Gui - Então você é multifacetado, faz tudo?
Bruno
- É, eu faço de tudo um pouco. Quase nada dá certo, mas aquilo que eu faço com mais afinco dá até certo, funciona, funciona. Eu não fico me prendendo 'ah tenho que fazer alguma coisa', o que vier eu estou fazendo.

Gui - Eu queria que você contasse como foi sua infância, do que você brincava?
Bruno
- Infância cara... Foi uma infância bem legal. Não que eu tenha feito tudo que eu quis, por que depois que você cresce você vê que deixou de fazer um monte de coisas. Mas, enquanto eu era criança eu curti bastante. A única coisa que eu sinto falta é de não ter tido...sabe aqueles carrinhos que você pedala dentro.

Gui - Rolimã?
Bruno
– Não. É um carrinho, com forma de carrinho mesmo, que tem um pedalinho dentro. Aquilo eu não tive, até hoje eu tenho uma... Eu sou uma criança frustrada porque eu não tive isso.

Nesse momento meu celular toca. Paro a gravação e atendo. Tinha que ser a Laiana. Ela quer aparecer em todas as entrevistas mesmo.... Depois volto a entrevista.

Gui - Você estava falando do seu carrinho, da sua infância.
Bruno
- Então a parte do carrinho foi complicada. Mas eu viajava bastante quando era criança. Eu ia para a casa da minha avó em Santa Catarina, lá eu brincava bastante. O ano inteiro ficava em função dessa viajem. Durante o ano em Corumbá, eu tinha bastante vizinhos, a gente brincava. Como eu morava em bairro, jogávamos bola...

Gui - Vocês iam para o rio também? Como é ter infância em uma cidade que tem rio? Eu não sei como é isso.
Bruno
- Bom, a parte do rio eu não lembro muito. Eu não fui. Eu não cresci dentro do rio. Tenho bastante amigos que tiveram essa vivência. Mas era mais para quem tinha tio, e eu não tinha tio. Eu só tenho uma tia por parte de pai, né? E os outros parentes da minha mãe moram em outros estados. Então, eu não tive muito essa relação de sair para pescar.

Gui - Porque tem que ser com tio? Por causa da pesca?
Bruno
- É, porque o pessoal vai lá pescar, tem essa relação mais íntima com o rio. Tomar banho eu nunca... Eu não lembro de ter feito isso. A gente brincava nas pracinhas, mas o rio...

Gui - Não tomava banho [no rio], né?
Bruno
– Não, eu não curti isso. Depois de velho que eu fui pescar, mas eu não sei pescar até hoje. Eu gosto de remar, mas eu nunca fui bom com bola, pra jogar bola. Esses esportes coletivos, eu nunca fui bom. O que eu fazia, quando eu era criança, nadei até uns dez anos. De uns oito aos dez, aos doze, não sei. Aí, cresci, meus pais logo separaram e fui morar para o centro da cidade. Aí eu perdi um pouco essa relação com o pessoal do bairro. Mas a infância em si foi muito boa. Não tenho nada do que reclamar. Ri muito. Isso eu lembro bastante, da família reunida, eu, minha irmã, meu pai e minha mãe, a gente brincando e rindo bastante. Rindo de doer a barriga, isso eu lembro. Acho que por causa disso eu sou meio palhação. A família inteira é bem alegre.

Gui - E como foi a adolescência, os primeiros namoros?
Bruno
– É, adolescência foi mais complicada porque na época que mais pais se separaram eu estava com 12 anos. Então, foi bem complicado. Foi a época em que eles se separaram e eu fui morar com meu pai. Eu resolvi morar com meu pai e um ou dois anos depois, minha mãe foi morar em Joinvilhe [Santa Catarina], foi embora. É interessante que tem certos momentos que não lembro. Eu exclui assim, sabe? Não sei por que, mas eu não lembro. Não sei quando a minha mãe foi embora exatamente, que ano ela foi, que mês ela foi. Eu não sei quando fui morar com meu pai certinho. Então, foi um período meio estranho. Dos 13, eu acho, até os 16 eu fiquei morando com a minha primeira madrasta, por que meu pai está na segunda madrasta já. Fiquei com ela e foi um período complicado, porque a gente brigava muito. A gente não tinha uma relação muito harmoniosa. Com 16 anos, eu tive minha primeira paixão, mas não foi concretizada. Foi uma paixão platônica, mas foi muito forte.

Gui - Com 16 anos... Tarde né?
Bruno
- Não foi bom porque você vê gente tendo essas paixonites de escola mais tarde, com 18, 19, que é complicado. É pior para você trabalhar, quando você é mais novo. Acho que é mais fácil de você trabalhar. Com 17 anos, eu fui morar em outra casa que culminou com a saída da escola. Foi meu último ano, foi o terceiro ano e logo depois eu vim para Campo Grande. Vim fazer faculdade já. Fiz um ano de Análise de Sistemas aqui, voltei para Corumbá, fiquei de 99 até 2003 nesse limbo assim, arranjando um trabalhinho aqui outro ali...

Gui - Que tipo de trabalho?
Bruno
- Eu trabalhei... Cara, eu trabalhei como vendedor que não tinha hora para você fazer, você fazia o seu trabalho. Então, eu trabalhei vendendo consórcio de carro, não vendi nada. Trabalhei vendendo plano de saúde, vendi um plano de saúde um só.

Gui - (rindo) Recebeu uma comissão...
Bruno
- Recebi metade, por que eu vendi junto com outro amigo meu. Esse foi um trabalho meio rápido. Vendi plano de saúde para uma outra empresa também que não deu muito certo. São esses empregos mais ou menos. Nunca fui muito afeito ao serviço. Ah! E antes disso, quando eu era bem novinho, eu trabalhei na farmácia que meu pai trabalha. Meu pai trabalha em uma farmácia, é gerente. Eu ajudei ele lá.

Gui - A "São Bento" de Corumbá?
Bruno
- Não, a Santo Antônio. É, desculpe, a Santo Antônio é a "São Bento" de Corumbá. Fiquei trabalhando alguns meses lá. O patrão é o meu padrinho. É uma relação bem legal. Um dia eu estava lá no estoque deitado em cima de umas fraldas, tá ligado? Matando tempo, aí o patrão me sobe e me vê em uma situação toda constrangedora, aí eu saí. Aí lá, eu ganhei um salário até, mas não fazia diferença para mim. Eu não gastava naaadaaa. Eu estava até conversando hoje que eu não tenho muito essa relação com o dinheiro. Não faz muita diferença para mim, nunca fez. Então, a relação com o trabalho é mais prazer do que dinheiro. Eu só executo bem uma tarefa que eu tenho prazer em fazer. Se eu não tiver prazer, não adianta pagar bem que eu não vou fazer.

Gui - Por que você escolheu fazer o curso de Jornalismo?
Bruno
- Foi muito graças ao fato de ter feito um ano de Análises de Sistemas aqui. Porque eu fiz meu primeiro vestibular, que foi para análises, e eu passei direto. Meu pai falou 'cara, parabéns, vai fazer, tal'. E eu fiz análises muito por essa parte: eu vou fazer por que dá dinheiro. Eu gosto de mexer no Word, gosto de jogar Paciência, então eu vou fazer. Chegando aqui, dei de cara com um curso extremamente complicado, extremamente de cálculo. E eu reprovei logo no primeiro semestre. Eu já estava reprovado, tirei uma nota azul só. Foi um baque tremendo, sabe? Quando você é jogado aos leões. Aí, dali eu percebi e falei 'cara, meu negócio não é exatas'. Disso eu tenho certeza absoluta em qualquer tipo. Aí, como eu percebi mais facilidade com Português, com essas paradas mais Humanas, e todo mundo falando que eu tinha facilidade para me comunicar, resolvi fazer Jornalismo. Comecei a tentar fazer Jornalismo, desde que eu voltei. Só passei em 2003. Fiz uns três, quatro vestibulares até conseguir passar.

Gui - Agora, eu queria que você se definisse. Bruno por Bruno. Quem é o Bruno?
Bruno
- Olha, eu não sei te dizer isso assim certo. Porque antigamente eu achava que sabia o que eu queria, o que eu era, mas fui conversando... Voltar para cá, para Campo grande, para fazer esse curso foi interessante. Eu comecei a conhecer bastante gente assim, gente diferente. E eu comecei a perceber que ninguém me conhecia. Até se eu perguntar para você do que eu gosto você não vai saber, uma comida. Até com você que eu não tenho uma relação tão íntima é até normal. Mas pra gente que eu convivia diariamente, não sabia o que eu era. Eu não sei. Agora eu estou começando a me definir e a mostrar isso. 'É disso que eu gosto, saibam disso'. É igual está no meu Orkut, um novo desconhecido a cada dia. Eu não sei te falar, eu não consigo precisar muito as coisas. Conheci muita gente que é muito precisa, muito objetiva, mas eu não consigo ser assim. Não sei porque eu não consigo ser assim.

Gui - Mas, do que você gosta? Qual comida você gosta, quais filmes você curte?
Bruno
- Pois é, justamente, esse negócio é muito complicado. Eu sou muito volúvel pra essa questão. Um dia eu gosto muito de panqueca e no outro eu amo arroz carreteiro e no outro eu estou comendo lagosta. Até a Manuela me perguntou outro dia: ‘qual é a sua música preferida’, eu falei eu gosto muito de 'Hotel Califórnia'. Ela falou 'Ah! Legal beleza', mas no outro dia eu estava extremamente apaixonado por Pink Floyd. Então, depende muito. Eu estou começando a me definir, mas ao mesmo tempo você começa a perceber que não tem sentido você ficar se definindo só pra se definir. Por quê? Pra quê? Aí eu devolvo a pergunta: 'Qual é a comida que eu gosto? Mas pra quê que eu preciso gostar de uma comida?'. Não sei, eu estou tentando definir algumas coisas, simplesmente para responder algumas questões. Mas eu por mim mesmo não faz diferença.

Gui - Como é a sua relação comigo?
Bruno
- Com você?...

Gui - Comigo!
Bruno
- Olha, nossa, não é...

Gui - Meio distante né?!
Bruno
- Não, não é tão distante. Mas, a gente não se encontra muito pra sair tal, essas coisas. Eu acho que talvez é por afinidade mesmo assim. Coisas que você faz que talvez eu não faça. E coisas que eu faço e talvez não corroborem com você. Você foi no [Bar] Fly aquele dia, quantas vezes você vai ao Fly?

Gui - Poucas.
Bruno
- Poucas vezes. Então, é muito difícil a gente se encontrar fora da faculdade...Mas, acho que você é uma pessoa extremamente interessante, extremamente legal. Até fico meio assim da gente não ter mais coisas, sei lá. Acho que é por afinidade mesmo.

Gui - Como eu sou? Críticas e elogios.
Bruno
- Olha, eu acho... elogios: que você é uma pessoa muito esforçada, que trabalha muito, acho isso muito legal. Acho isso um ponto muito interessante da personalidade. Eu falo de ver você trabalhar, vender. Essas coisas são coisas pequenas, mas são características da personalidade, que você percebe, de perseverança. Uma coisa que eu não tenho. De coisa negativa, eu não posso falar, por que a gente não convive tanto. Eu costumo não falar... Categoricamente, criar uma idéia contrária da pessoa se eu não conheço. Eu posso falar isso de brincadeira. 'Ah! O Guilherme, não sei o quê, não sei o quê..', mas eu não conheço, eu não posso te afirmar, pelo fato de a gente não ter esse relacionamento tão intimo. A primeira vista, você é uma pessoa que pra mim, eu não tenho absolutamente nada pra falar contra você. Talvez, só quando reuni a galera toda você, a Maria Fernanda e a Marina que começa todo mundo conversar, mas eu não posso falar isso que eu também converso. Então, fica elas por elas.

Gui - Que tipo de conversa?
Bruno
– Conversas. Sabe quando a gente está na sala e todo mundo começa a conversar e fica blá, blá, blá...(risos)...é essa conversa.

Gui - Com quem você tem mais afinidade na faculdade e porquê?
Bruno
- Com quem eu tenho mais afinidade? Com quem eu tenho mais afinidade são as pessoas que eu saio mais. O Jéferson, obviamente, porque eu estava morando com ele. A Manuela, porque ela fez parte do meu círculo durante muito tempo, por estar namorando o Vítor, que é uma pessoa que mora na minha casa. Então ela sempre freqüentou a minha casa, e é uma pessoa que eu gosto muito também. O André por afinidade espiritual mesmo. Gosto muito do André. Agora, ano passado foi muito interessante. Acho que no 1º ano, acabei conhecendo bastante gente da turma que não estava comigo no ano passado, do 3º ano quando a sala dividiu. Então eu conheci bastante a Maria Fernanda, a gente andou tal. A Camila Abelha, esse pessoal ali da outra turma, Airton. Agora, ano passado foi fundamental pra conhecer esse pessoal que eu não conhecia. Estreitei minha relação com Antônio, que eu não via bastante, com Suzana, Terumi, Amanda, Thaís, esse pessoal que simplesmente não conhecia, não conversava. Então, esse ano, esse 4º ano eu me sinto mais integrado na turma do que todos os anos anteriores, por ter tido essa oportunidade mesmo de ter conhecido. Mas, pessoas do meu círculo, que eu saio bastante, que eu ando bastante é: Manuela, Jéferson, André. A Isabel, as vezes, por que eu gosto muito da Isabel também, e por que a gente formou um círculo por causa do Jeferson. São essas pessoas.

Gui - Qual é a área do jornalismo que você quer trabalhar quando você terminar a faculdade?
Bruno
- Edição. Rádio e TV. Quero trabalhar com edição de rádio e TV, embora eu goste muito de escrever, eu não consigo escrever um texto jornalístico. Não tenha essa...


Gui - Mas, você não tem vontade de escrever coisas humorísticas, colunas...?
Bruno
- É, é. Mas, eu não sei se jornalisticamente. Eu tenho medo depois de tudo que a gente conversou de escrever alguma coisa e falar que isso é jornalismo. Eu preciso dar mais consciência de mim, porque o jornalismo é uma arma extremamente poderosa e perigosa. Então, eu tenho medo de entrar para essa área e dizer 'isso aqui que eu estou fazendo é jornalismo'. Eu prefiro falar que é arte, outra coisa, mas não jornalismo.

Gui - Mas, por exemplo, José Simão você considera o quê?
Bruno
- Cara, o José Simão... Eu não sei... É... Ele é um cara que aproveita coisas bem ácidas assim.

Gui - Ele aproveita notícias para fazer um humor irônico, meio ácido.
Bruno
- É, eu não sei. Você acha que é jornalismo? Eu não sei se é jornalismo. Acho que é mais crítico, mas não sei o que é jornalismo. Não sei se é jornalismo.

Gui - O que é jornalismo pra você?
Bruno
- Acho que jornalismo é quando você... Eu tenho uma visão, meio do que a gente aprendeu aqui, meio utópica... É quando você tá a favor mesmo. Quando você trabalha com uma responsabilidade social, com ética, a favor da comunidade. Se não for a favor da comunidade acho que não...Essa música é muito boa 'Jeninho e Zepelin' do Chico Buarque.

Gui - Você trabalhou com edição no Festas e Eventos né?
Bruno
- Trabalhei um pouquinho lá, com edição, na verdade. Era para eu ter aprendido mais, mas eu não fiquei lá por muito tempo por causa daquela coisa: ‘se não me dá prazer eu não estou nem aí’. Então, eu achei que eu ia ganhar mais fazendo o 'Capisomen', editando. E agora tem um amigo meu que está montando um estúdio de edição de som, na casa dele. Então, eu vou colar mais nele pra ver se eu aprendo. Tudo que é parte de edição, eu acho mais interessante. Até no Projétil, eu prefiro ficar com edição. É melhor pra mim. É mais fácil.

Gui - Como você se vê daqui a 10 anos? Você vai ter 35, né?
Bruno
- 35, a gente tava conversando esses dias atrás, no aniversário da Manuela, inclusive. Foi dia...Ih! Esqueci o aniversário dela, desculpa Manuela.

Gui - O que você vai ter feito? Vai estar em campo Grande?
Bruno
- Pois é, aí, eu falei cara, o que a gente vai fazer daqui a 10 anos. 35 anos é foda! São 35 anos, não é pra qualquer um. Eu espero estar trabalhando com alguma coisa que eu goste de fazer. Eu só não quero ficar preso a um salário, por melhor que seja. Mas eu não quero ficar preso a um salário por ter que pagar conta. Não, por mais que eu ganhe R$ 300. Por mais que eu ganhe um salário, eu quero estar bem. Não quero estar dentro do redemoinho da vida fazendo coisas que... Claro, que chega uma hora que você tem de fazer. Mas o que eu puder evitar isso, eu quero. Então, com 35 anos, eu quero estar trabalhando bem, não sei o quê eu vou estar fazendo.

Gui - Mas o que você já vai ter feito? O que já vai ter realizado? Vai estar casado, vai ter filhos, com que já vai ter trabalhado. Bem sonho mesmo.
Bruno
- Ah! Tá. Porra, que chato isso, não poder falar. Eu não sei cara. Eu não fico planejando coisas. Eu quero muito ter um filho. Quero muito ter filhos, na verdade. Mas eu não sei, eu não fico pensando muito em... Quero um idealismo, uma mulher linda, maravilhosa, gostosa do meu lado. Mas se não tiver, eu penso muito em filhos. Não penso em casamento, mas eu penso em filhos, eu penso em ter uns dois ou três.

Gui - Você vai estar em Campo Grande?
Bruno
- Hum... Eu queria estar, aí já fica legal, eu queria estar em Florianópolis. Morando lá, pegando uma prainha. Mas se aqui aparecer coisa legal para fazer assim, e eu já estou me adaptando aqui. Já estou há quatro anos aqui, eu ficaria por aqui. É uma cidade muito boa, muito boa mesmo. Eu queria estar em Florianópolis, porque é bem tranquilinha.

Gui - Como você analisa o jornalismo de uma maneira geral?
Bruno
- Olha, o jornalismo a gente vê cara, e conversas com pessoas... Partindo daqui do estado, é o que todo mundo fala realmente, e o que a gente consegue constatar: que não é bom. De uma maneira geral, não é bom. TV, impresso, on-line, ele é falho. Mas, eu acho que é aquela contradição que existe em todas as áreas no Brasil. Tem muita gente fazendo coisa ruim, mas tem uma parcela fazendo muita coisa boa e conflita por que a parcela ruim consegue muito mais coisa porque tem mais poder, tem mais dinheiro e ganha mais dinheiro. E a parcela boa, não consegue fazer por que não tem voz, por mais que seja boa não tem voz. Não consegue, a política não ajuda. Então, é sempre trabalhando aos trancos e barrancos. Mas eu acho que o jornalismo está muito grudado, intrínseco ao que o povo pensa mesmo. E eu acho que o que o povo pensa, não faz com que ele consuma o jornalismo melhor. Embora, tenha muita demanda, tem muita gente fazendo coisa boa. Mas eu acho que o povo não está conseguindo absorver. Então é uma questão de tempo. Uma questão de política mesmo, de investir em educação. Fazer essas coisas que a gente sabe que tem que fazer, mas que não consegue fazer por motivos maiores, por não colocar gente que represente a gente bem. É uma parte mais política. Acho que jornalismo está muito junto a essas coisas, e as coisas tem de trabalhar em harmonia profissional, senão não funciona.

Gui - Como você avalia o governo Lula, esse primeiro governo dito de "esquerda" no Brasil?
Bruno
- Pois é, esse governo tá foda assim. Ele começou com muita esperança, o pessoal acreditando bastante.

Gui - Você votou no Lula?
Bruno
- Não, não votei no Lula. Eu votei no Serra né? Eu não votei no Lula porque eu tinha medo dele.

Gui - Você tinha medo do Lula?
Bruno
- Eu tinha medo do Lula, medo do personagem Lula. Não de toda a equipe que estava por trás disso, porque ele não trabalha sozinho. Mas, eu tinha medo dele, como pessoa, com o cara que não consegue se comunicar em outras línguas, essa coisa toda. Porque um presidente é uma instituição de fatores.

Gui - E esse medo se concretizou?
Bruno
- Pois é, eu acho que na pele dele, no personagem Lula, não. Mas tudo que veio atrás, acabou, sabe? E foi complicado porque passou uma rasteira quando você estava percebendo que aquilo podia representar uma mudança. Então, mais uma vez eu o povo todo se sentiu traído de novo, pelo governo e sentiu mais traído ainda porque é aquela parcela que falou 'não, vamos ver o que...Se todo mundo deu errado esse cara vai dar certo'. E deu errado pra caramba. Ele fez muita coisa, mas nada justifica essa bandalheira que aconteceu. E eu não sei se ele vai, embora as pesquisas mostrem que ele vai ficar. Eu não sei se ele vai continuar não.

Gui - Votar no Lula então...
Bruno
- Não, acho que não voto no Lula não. Mas, aí vou votar em quem? Porque votar no Alckmin eu não voto. Eu não conheço o Alckmin. É isso que é o complicado, porque eu acho da política é isso: não adianta você votar... Claro que adianta, mas não faz efeito votar em uma presidente sendo que você não sabe nem o que seu vereador está fazendo. Eu acho que tem que ser de trás para frente. Vereador, prefeito, deputado, senador, governador, presidente, para conseguir alguma mudança, senão você não consegue mudar. É do pequenininho para o grandão e não do grandão pro pequenininho.

Gui - Por exemplo, na Heloisa Helena, você votaria?
Bruno
- Pois é, cara eu preferiria votar em um vereador que eu conheço. Talvez eu votaria nela. Talvez seja até uma boa. Eu vou dar uma pesquisada mais na proposta dela para ver se ela está falando coisa com coisa. Mas eu prefiro votar em um cara que eu fale: 'esse cara vai representar bem o meu bairro, o meu espaço lá'. Porque é só assim, senão a gente não vai poder andar pra frente pensando da ponta pra baixo. É da base pra ponta, é assim que trabalha.

Gui - Como é Corumbá?
Bruno
- Cara, Corumbá é uma cidade extremamente interessante. É, eu já cheguei a conclusão que lá, como algumas cidades do interior, mas não sei se todas, tem muita gente figura. Aquelas pessoas de livro mesmo: o cara do saco, o dono do mercado, o açougueiro. Tem essas pessoas assim. E por outro lado, você vê que ela é uma cidade que está morrendo por mais que invistam nela, por que ela foi um pólo comercial muito importante, antes de Campo grande, antes de um monte de cidade do estado. O rio Paraguai era o que trazia cultura, era o que trazia dinheiro, era o que trazia tudo. Aí por administrações consecutivas e não muito competentes a gente foi ficando para trás, foi ficando para trás. Dividiu o Estado e a gente se perdeu mais ainda, e a gente sabe que...

Gui - A divisão do Estado não foi boa para Corumbá?
Bruno
- Para o Estado inteiro né. Para Mato Grosso do Sul como um todo não foi muito boa. Passou o centro de controle daqui [se referindo a Corumbá] para Campo Grande. O poder mesmo. Agora Corumbá está tentando se reerguer por que é difícil colocar em ordem bagunça do passado. Essas farras que aconteceram para o passado, farra fiscal mesmo. Agora está tentando se reerguer. E lá eu fico até meio assim, porque eu não vou para lá para votar. Esses quatro anos que eu estou aqui, eu não votei. Quando eu estava lá sim, eu procurava votar nas pessoas que eu conheço e que eu sabia que iam fazer alguma coisa pela cidade. Agora conseguiram criar um calendário turístico para cidade. De janeiro a dezembro sempre vai ter alguma coisa para fazer, mês sim, mês não, a cada dois meses. Mas sempre tem coisa pra fazer. Isso é interessante por que chama bastante gente para lá. A gente tem que trabalhar ainda mais para isso. Eu espero formar, e, se não der nada certo, voltar pra Corumbá e trabalhar lá dentro da prefeitura. Trabalhar como multiplicador de políticas boas, e não sair como candidato. Trabalhar nos bastidores porque a gente já está fazendo parte daquela geração que vai tomar conta. A gente não é mais o amanhã, a gente é o hoje. Então, eu já conheço gente que se formou em publicidade, direito, bababá, e porque não juntar toda essa gente, que a gente conhece, e trabalhar em função da cidade? Fazer aquela cidade funcionar, porque dá e dá de verdade. Basta querer. Como a gente mora lá e sente que a cidade precisa desse plus, desse mais, a minha a vontade é de voltar para lá se nada der certo.

Gui - Tem muita gente de Corumbá que vem para Campo Grande, estuda, se forma, se torna profissional e vem multiplicar em Campo Grande e não volta para Corumbá. Você tem vontade de voltar para Corumbá?
Bruno
- Olha, eu acho que eu voltaria se esses planos de mulher, filhos, Floripa, por algum motivo não funcionasse. É difícil você trabalhar em outro setor. A cidade tem um ritmo muito lento, se você fica lá, você acaba caindo nesse ritmo, se acomoda, não tem muitas oportunidades. Isso é complicado porque quando você volta lá, tá tudo igual. E tá todo mundo meio assim.

Gui - Ou está tudo pior né?
Bruno
- É, está todo mundo igual e só você está diferente. Então você fica meio fora, você fica excluído. Não excluído no sentido ruim da palavra. Mas você fica diferente. Você andou e o negócio ficou. Quando você volta parece que você não cabe mais ali. Então é um negócio complicado. Se a gente conseguir fazer um negócio interessante de juntar, se eu conseguisse perceber isso em amigos que estão se formando, eu voltaria para lá tranquilamente. Fora o calor, que não dá para acostumar.

Gui - Não dá? Você nasceu lá e não se acostumou com o calor?
Bruno
- De lá não. Quando tem muito calor, você reclama, reclama e reclama mesmo. Porque é muito quente.

Gui - E frio? Diz que é muito frio também?
Bruno
- Noossaa!!! É muito frio, nossa! Quando é calor arregaça. O sol faz assim chega meio-dia ele aproxima ba. (risos). Aí, quando é frio, nossa é muito frio. Nossa! É horrível, é horrível...

Gui - Como é morar em Campo Grande sozinho, sem os pais no seu caso?
Bruno
- Olha, eu já tive essa experiência quando eu vim para cá. Então, da primeira vez que eu morei aqui já deu... Embora eu tenha reprovado no meio do semestre, eu fiquei um ano aqui. Eu fiz um ano de análises [de sistemas], então esse foi o período da desmama. Já foi mais tranqüilo agora. E também quando eu vim pra cá a primeira vez eu tinha 17 anos e da segunda vez eu tinha 23. Então, se eu fosse pra Zâmbia talvez fosse mais fácil adequar ao lugar. Eu não tive muito problema com isso, mesmo porque depois que meu pai separou e dos 17 até... Eu vim pra cá e depois voltei pra lá, esse período todo eu sempre fiquei sozinho. Sempre fiquei sozinho em casa, sem muita gente. Então sempre me acostumei a ficar sozinho. Isso foi bem tranqüilo, não tive problema não. E até fico tirando sarro do povo. Quando eu voltei pra cá e era mais velho e tinha gente de tipo...Quantos você tinha quando entrou?

Gui - 17...
Bruno
- É, sabe. Eu tava com 23, pô. Então eu já sabia, o povo falava : (em tom debochado) 'ai! Eu estou com saudade da família', Eu falava 'Cala boca! Você não é nada'. Eu tirava onda era legal.

Gui - Da onde vem essa irreverência toda? Você se acha engraçado? Você faz coisas pra ser engraçado?
Bruno
- Cara, eu me achava mais engraçado. Eu acho que eu estou perdendo o jeito. Tô ficando... Eu percebo que antes eu podia conhecer uma pessoa agora e depois de 15 minutos ela já estava extremamente íntima, amiga e normal comigo. Agora eu sinto que eu posso conhecer uma pessoa, mas eu sinto vontade de ficar quieto, mais na minha. Isso é meio chato porque aí você num... Mas, eu acho que numa rodona se você me instigar eu ainda consigo, faço todo mundo rir, mas...

Gui - Da onde que vem essa irreverência?
Bruno
- Não sei... Eu acho que é da minha família. Minha mãe e meu pai são muito... Eles criavam um ambiente muito legal em casa, a minha irmã também é assim. Ela sempre foi a palhaça da roda dela, tal. Eu não sei acho que é de família, de família.

É isso aí. Obrigado Bruno. E até mais pessoal.

guilherme - 10:29:28
envie este texto para um amigo - 2