quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Anoiteceu...

E morre aquele que foi meu primeiro amor platônico de São Paulo. Não sem deixar boas lembranças, do passado glorioso, dos flertes ao cruzar com sua imagem na rua, às tentativas de aproximação, ao quase namoro, aos amigos em comum, da emoção quando 'falou de mim', do tributo, ao obrigado do fim. Vai fazer falta JT.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Dias de jornal

Que a noite nunca chegue para os jornais. E se chegar que sejam regadas a cerveja barata, num “bar sujo”, com conversas entre pessoas de xadrez e all star sobre o futuro da profissão, sobre as pautas furadas, os desmandos da chefia... E que sejam sucedidas por manhãs com os impressos nas esquinas, nas bancas, no café... E sempre com aquele gosto de romance proibido.

Que as tardes venham com o fechamento, mas que ele seja sempre da próxima edição. Ela que permite o recomeço diário da busca utópica da melhor matéria, do furo, da função social, da reportagem, do personagem ideal e dessa loucura em tempos digitais chamada jornalismo impresso.


Entre Aspas Há entre a nossa imprensa moderna e o fato, uma distância fatal. O repórter age e reage como um marginal do acontecimento. Antigamente, o profissional sofria o fato na carne e na alma. Podia morrer no incêndio como um bombeiro; e, se era um naufrágio, o sujeito podia se afogar briosamente. Havia o risco e, não raro, o martírio. Nelson Rodrigues.

domingo, 22 de julho de 2012

Um aviso

Não acredite em mim.
Quando bebo,
rio falsamente
Como um poeta, amo sem sentir
forjo uma inteligência que não tenho.
Crio novos relacionamentos
Sambo sem saber dançar,
canto sem ter decorado uma letra sequer.
Adoto um sotaque,
pontuo com uma nova gíria.
Invento um olhar sedutor;
Faço um personagem capaz de se divertir.
E sobre mim
e sobre você
e sobre tudo
minto (mas só a noite!)

Entre Aspas: Eu era um observador espantado e infeliz de mim mesmo. Não me reconhecia nas minhas palavras e nas minhas gargalhadas. Era como se outro falasse e risse por mim. Nelson Rodrigues.

(7/7/2012)

sábado, 21 de julho de 2012

- O que eu fiz de errado? Faltou dizer ou fazer algo?
- Nada. Só não rolou o silêncio, a sutileza e a vibração.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Bem-te-vi!

O dia renascia, o sol se aprumava e os dois continuavam abraçados. Os carros e buzinas aceleravam e a obra se erguia, enquanto eles sussurravam juras de amor. Os pequenos sons vindos da cama só foram quebrados mesmo por um passarinho que rondava a janela e disparou: “bem-te-vi!”. Era hora de levantar.  

Entre Aspas: Sempre existe um mundo todo esperando pela fotografia do momento mais incrível e há sempre uns olhos esperando a hora de testemunhar todo o dia o grande lance. O voltar pra casa. O lembrar tudo de novo, e te fotografaria de novo, toda manhã pra te prender no nascer do sol. De um post do blog da “Briga”.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Paulista


São Paulo é muita coisa. É a genialidade do óbvio. A pomba que ficou marrom de sujeira. A recepcionista de unha verde musgo. A série de gravatas cinza. O encontro casual de dois amigos gays. A Paulista pulsa. E tudo hoje parece um dia qualquer de março de 2009...

Todo aquele tempo de caminhar meio sem destino, descobrindo a cidade, louco para conhecer esses seres. Hoje, sou mais um deles. O cinza e o preto dominam meu traje social e uma mochila completa o look.

Há menos ilusão e inquietude. E o temor de não conseguir me juntar à multidão é diferente, menor, mas presente. E quem ama São Paulo com todas as suas dores? Mesmo prestes a soltar um grito de chega? Quem tolera tanto ao mesmo tempo por todo o tempo? E quem nos vê de fora?

É só uma cena de confusão. O fulano que passeia com seus cachorros; a mulher que recolhe bitucas; o gordo que se diverte no celular. Um passarinho tenta em vão competir com os carros. A adolescente empunha um livro de amor. Corpos semi-exibidos após um streap-tease de roupas de frio.

O rolo de fios atrofia os galhos e entristece a árvore. O picolé parece sem gosto. O sol chama. O rock and roll brota da calçada. O charme da mulher de meia calça de bolinhas. Seu cabelo semi-louro, sua saia alta, seu requinte... É o desfile constante de vidas e cenas inusitadas. 
 
Entre Aspas: A árvore entristece ao perceber que o machado é feito de madeira. Da peça Memórias da Cana.

sábado, 21 de abril de 2012

Noite – o início, o meio, o fim


Um prostíbulo é um bom retrato da noite e das relações humanas. O movimento começa crescente, com expectativa, maquiagens vistosas, perfumes exalando, roupas no ponto, música animando e luzes em flashes.

Os primeiros a chegar se acham sortudos. As primeiras conversas são tímidas e vão ficando animadas. Por aqui, também há jogo de sedução. É um teatro em que os homens fingem que precisam conquistá-las e elas fazem charme dissimulando que não é nada disso.

O ponteiro ultrapassa meia noite. A bebida vai deixando o ambiente mais alegre. E, talvez haja um momento que seja o ápice de tudo isso, mas é tão difícil captá-lo. Acho que mesmo que soubéssemos identificá-lo, continuaríamos ali, tentando prorrogar o prazer. Mas devíamos mesmo ir embora.


A partir daí, a noite cresce. A música fica mais frenética, as luzes mais piscantes, o tilintar de bebidas mais constante. Começa aparecer o suor, a maquiagem ameaça abandonar, as camisas já estão amarrotadas, o perfume renovado já não é mais tão fresco.

A vida se encaminha para um momento triste: o fim da noite. Cada segundo que o relógio levanta parece pesar anos na cara e nos ânimos das pessoas. As músicas já não animam mais, a maquiagem já não enfeita (as mais pesadas vão ficando parecidas com a de um palhaço triste). A melancolia vai abatendo um a um dos presentes.

O tesão passou. Não haverá mais beijos, disposição para o sexo, dinheiro... As mais velhas são as que mais se desesperam. Rebolam freneticamente e parecem querer cumprir a promessa do guarda que atrai os clientes para casa afirmando que levarão “xoxotada na cara”.

Nesse momento, são mulheres tristes. Há pouca beleza no ar. Uma moça de 20 anos conta dos dois filhos que ficaram com a mãe em Minas. O pole dance está vazio. Uma delas cochila no sofá. As gargalhadas dos rapazes e o jogo de olhares e mãos deram lugares à postura largada, desânimo e a pensar em desistir dali.

É nesse momento, que aqueles que restaram questionam a presença, a alegria, a beleza, a bebida... Mas no fundo sabem que é na noite, mais especificamente no começo dela, que mora a esperança. E isso os atrairá muitas e muitas vezes, por mais desiludidos que estejam agora, às 5h40 da manhã.

Entre aspas: Queria ressentir agora o carinho e a dignidade do começo da noite. 19h15: tudo iluminado, cheio de vida, pessoas vindo, sorrisos brancos, pessoas musicais, perfumes importados... 5h40: tudo muda, tudo se desmancha, o mundo se desmancha. Só restam algumas, não são pessoas: é um pequeno exército de espectro, de gente que não deu certo, pelo menos não ontem. Restam as sobras da noite de ontem. Sobra – de gente –, que foram bonitas e inteiras. Não mais. As pessoas vão deixando seus pedaços. Somos o que sobrou de ontem, esquecidos por todos – até por nós mesmos. Nada é o que parece ser, às 5h40 da manhã. A gente não é o mesmo que volta. Afinal, nunca entramos no mesmo rio duas vezes. De uma travesti, personagem da peça Marulhos – caminho do rio, do Grupo Redemoinho.

Entre aspas 2: Há toda uma promoção tenaz e profissional na noite (...) mas está todo mundo no extremo limite da loucura e do suicídio. É uma excitação sem desejo. É uma obscenidade sem prazer. É um deserto interior, deserto inconsolável, sem uma pia, sem uma bica. E todo mundo, ali, tinha a cara vingativa dos suicidas. Nelson Rodrigues.