segunda-feira, 2 de junho de 2014

De vida e de morte

A vida é repleta de perigos. Numa casa, certamente, mal assombrada como essa, eles vêm de toda parte. Há mais mortos do que vivos por aqui. Os últimos resistentes também se aproximam do fim da vida.

A casa grande é aterrorizada silenciosamente pelos perigos. É a árvore que destrói a grossa parede de concreto. A umidade que corrói a pintura. As rachaduras que consomem o chão. As teias de aranha que tomam conta do pedaço. As mangas que se estabefam no telhado de zinco – provocando estrondos – e caem vigorosamente no chão, ameaçando o teto e a cabeça das pessoas. O gato que passa preguiçoso entre as pernas perigando derrubar os velhos que se arrastam pelo casarão.

Os azulejos soltam, os fios despencam, a máquina de lavar foi levada para o conserto e não voltou... Os besouros monstruosos sobrevoando ameaçadores. Sapos gigantes que coaxam e tentam devorar os mosquitos proporcionalmente grandes. A modernidade que avança sem olhar para trás. As perdas subjetivas, materiais e psicológicas que convivem todas juntas no mesmo espaço.

Mas o maior perigo mesmo é algo anunciado e, teoricamente, natural: a vida que se encaminha para a morte.


[23-12-2013]



Entre Aspas: A morte estava no ar e repito: – difusa, volatilizada, atmosférica; todos a respiravam. Nelson Rodrigues.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

Pergunta pertinente aos casais

- Você acha que muitas vezes gostamos mais do relacionamento do que da pessoa com quem nos relacionamos?

segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

2013 de ousadia


O ano começou nas margens do Rio Tapajós, em Alter do Chá (PA), numa das festas mais incríveis que já fui num reveillon. A música da virada foi “Eu vou navegar, nas ondas do mar, eu vou...Todo mundo nessa cidade é de Oxum...”. Era um anúncio. Além dos clássicos, saúde, paz e etc, eu desejava para os amigos “ousadia”. Para mim, queria um ano calmo, de águas serenas, melhorias e aprendizados continuando onde estava. Mas não foi nada disso que aconteceu. 

Por conta de um plantão jornalístico, passei meu primeiro carnaval em São Paulo. E não morri. Conheci uma pessoa que marcaria aquele ano. A Semana Santa foi em Campo Grande, ao lado da minha mãe que tinha feito uma cirurgia. Perdi um voo por conta do trânsito das marginais paulistanas, dormi no aeroporto - no chão de Cumbica, para ser mais exato.

Maio foi um mês especial. De me apaixonar e de me permitir viver esse sentimento, mesmo sabendo da insanidade que ele anunciava. Fui demitido uma semana antes daquela que seriam minhas primeiras férias em nove anos de jornalismo. Ia estudar inglês em Londres.

Em junho parti do mesmo jeito para a “Gringa”. Nunca mais voltei, não o mesmo. Com o jornalismo derretendo pelas bandas de cá (além do Valor – onde eu trabalhava – Folha e Estadão demitiam e Abril fechava revistas), e o mundo se abrindo pelas bandas de lá, resolvi ficar mais dois meses. A decisão ocorreu no protesto de brasileiros pela diminuição da passagem em São Paulo, que ocorreu em Londres em 18 de junho. No meio de tantos brasileiros, com histórias parecidas com a minha, me senti em casa e vontade de continuar estranhando e estrangeiro nas terras da rainha. Navega por águas turbulentas.
Conheci algumas cidades europeias (destaque para Paris, Amsterdã e Edimburg), mas voltei sabendo mais sobre mim mesmo. Coisas que eu nem imaginava. Amadureci uns cinco anos em três. Entendi (ou relembrei com mais força) o que é sentir dor de saudade. A paixão de maio, a essa altura, esmagava meu peito. Voltei para vivê-la. E foi intenso. A lua de mel (como todas¿) durou pouco. Logo vieram tantas brigas, discussões e disputas de espaços que nem tive tempo de me reencontrar comigo mesmo.

Recusei trabalhos fixos que não tinham a ver comigo, para viver emendando de mês em mês meu contrato de freela na redação. Trabalhei como gente grande em freelas diversos e me alegrei por ainda poder ser jornalista. Vi o mar mais uma vez e o ano se aproximava do fim. 

Passei o Natal em Porto Murtinho relembrando quem eu era, de “onde eu tinha vindo” e preocupado com os meus que envelheciam 'sem medo da morte'. Segui para Assunção, no Paraguai, da maneira mais rústica, de barco, mini-ônibus e ônibus. O ano terminou nos braços amados, numa cama de hotel, ouvindo fogos que anunciavam 2014, numa cidade que parece parada na década de 80. Foi bom, foi intenso e profundo.

quarta-feira, 15 de janeiro de 2014

– O que você gosta em mim?

Ficou em silêncio. Enrubesceu. Caminhou, lentamente, cabisbaixo até a porta e nunca mais foi visto.

(...)

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Os dias

Já não crio dias. Conto. E dos números sei pouco. Para mim, eles sempre foram mais enigmáticos do que exatos. As horas teimam em não passar. Os ponteiros pesam nos minutos do relógio. Nos segundos, sou aflito. E tento não habitar na ansiedade dos milésimos de segundos. Missão difícil.

- Passa rápido!, me dizem todos. Mas é só a demora que eu vivo. Distante, sozinho, estranho, - estrangeiro -, estranhando. E que dia é hoje mesmo? Já faz 40 que estou aqui. Faltam dois para a metade da viagem e outros 44 para voltar. Minha vida é contar. E quando regressar vou precisar de outras invenções para os dias...Que horas eles vão chegar? 

(10-07-2013)

Tirou a cabeça do calendário, colocou a saudade no bolso e foi ali ser feliz. (ainda não era verdade, mas foi um começo)

(11-07-2013)

Mas agora eu tô aqui. (adotei o mantra toda a vez que pensasse no porvir e funcionou)

(12-07-2013)

Entre Aspas: Existe uma hora perigosa na tarde. Clarice Lispector.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Toca Raul!


Entre caveiras, caixões e paredes negras com estampas coloridas, a banda toca o legítimo rock britânico. São 20 horas. Lá fora há luz. Aqui a fumaça e o ambiente escuro simulam a noite. A banda de cabeludos empolga os roqueiros de plantão. Na plateia, locais, estrangeiros e estranhos em geral. Do meu lado, dois grandões de cabelos longos e loiros chacoalham a cabeça. – Estou realmente em Londres, penso. Para me contradizer ou confirmar, um deles dispara em bom português:  – Toca Raul! Eram brasileiros...

Nunca fui mega fã do Seixas, mas ele é o cara (no Brasil ou em qualquer lugar do mundo). E para mim está mais atual do que nunca...Aliás, tudo que quero é dizer o oposto do que disse antes:

Preciso de terapia, quero fazer tatuagem, sou carente, não sou racional, namorar é importante, penso em casar, (...), quero ter religião, estou careca, não sou confiável, tenho vulnerabilidades afloradas, pretendo morar em São Paulo por mais anos (será¿), penso em morar fora... Na verdade, não sei o que quero do futuro. Não tenho certezas, só dúvidas. E meu teclado não tem ponto de interrogação...
(10-07-2013)

Entre aspas: Não existe atalho para a vida que eu quero. Do filme “Educação”


terça-feira, 28 de maio de 2013

Quando a vida para


Os passos apertados, a pressa dos carros, o relógio que teima em não parar. O tempo parece disputar uma corrida e nos leva para longe, para frente e sem sinais de pestanejar. Mas já perceberam que, ás vezes, a vida para? E nada do que urgia passa a fazer sentido.

 

No quarto de hospital, o agora paciente repensa seus atos, suas relações, tenta se fortalecer para voltar ao circuito. A dor de garganta de uma semana virou um câncer na outra. E nesse pedaço de mundo, a vida parou para comemorar a primeira palavra que pronuncia após a cirurgia. O braço que está mais desinchado. O ar que entra mais suave nos pulmões.

 

O que está lá fora perdeu sentido, seja o carro que lhe espera, a conta de luz com uma nova taxa, a casa fechada que empoeira...O filme agora é um retrato do 711, as gotas que caem do soro, a enfermeira que trocou de plantão e voltou para cuidá-lo, a cortina que treme na janela (...)

 

Na cozinha do apartamento os amigos se reencontram num bate-papo animado azeitado pelo cheiro de cebola e bacon que fritam na panela. Os casos, o trabalho, a família e os novos amigos vão sendo ressignificados numa conversa regada com piadas internas, abraços afetuosos, risos sinceros e um almoço que faz mais sentido no fazer do que no ficar pronto. A vida se passa ali naquele quadrado e eles parecem não se importar mais com o resto.

 

Da cama vem os pedidos para que o mundo pare e tudo se resuma aquele momento e que possam viver todos os seus dias trocando carinhos. Ele descobre uma nova pinta no corpo amado, que teima em lhe provocar atiçando seu ponto mais sensível. Riem, se abraçam, se beijam. Os pés, as mãos, os órgãos genitais...nada se desgruda. Tem cócegas no bumbum. Sente aflição ao ser tocado na nuca. De repente se dão conta que não dá para ficar presos nesse quadrado e vão tomar banhos juntos. Um dá banho no outro. E o que mais faz sentido? Se amam e só querem ficar congelados nesse ato.

 

Mas do quarto do hospital, da cozinha ou da cama, todos precisam sair e acelerar de novo. Só para depois esquecer de tudo, brecar e curtir a brisa do tempo parado. E no fim é para esse não-tempo que todos nós caminhamos.

 

(3 de maio de 2013)

 

Entre Aspas: Não há intimidade maior do que o silêncio. Clarice Lispector.