sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Dias de jornal

Que a noite nunca chegue para os jornais. E se chegar que sejam regadas a cerveja barata, num “bar sujo”, com conversas entre pessoas de xadrez e all star sobre o futuro da profissão, sobre as pautas furadas, os desmandos da chefia... E que sejam sucedidas por manhãs com os impressos nas esquinas, nas bancas, no café... E sempre com aquele gosto de romance proibido.

Que as tardes venham com o fechamento, mas que ele seja sempre da próxima edição. Ela que permite o recomeço diário da busca utópica da melhor matéria, do furo, da função social, da reportagem, do personagem ideal e dessa loucura em tempos digitais chamada jornalismo impresso.


Entre Aspas Há entre a nossa imprensa moderna e o fato, uma distância fatal. O repórter age e reage como um marginal do acontecimento. Antigamente, o profissional sofria o fato na carne e na alma. Podia morrer no incêndio como um bombeiro; e, se era um naufrágio, o sujeito podia se afogar briosamente. Havia o risco e, não raro, o martírio. Nelson Rodrigues.

domingo, 22 de julho de 2012

Um aviso

Não acredite em mim.
Quando bebo,
rio falsamente
Como um poeta, amo sem sentir
forjo uma inteligência que não tenho.
Crio novos relacionamentos
Sambo sem saber dançar,
canto sem ter decorado uma letra sequer.
Adoto um sotaque,
pontuo com uma nova gíria.
Invento um olhar sedutor;
Faço um personagem capaz de se divertir.
E sobre mim
e sobre você
e sobre tudo
minto (mas só a noite!)

Entre Aspas: Eu era um observador espantado e infeliz de mim mesmo. Não me reconhecia nas minhas palavras e nas minhas gargalhadas. Era como se outro falasse e risse por mim. Nelson Rodrigues.

(7/7/2012)

sábado, 21 de julho de 2012

- O que eu fiz de errado? Faltou dizer ou fazer algo?
- Nada. Só não rolou o silêncio, a sutileza e a vibração.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Bem-te-vi!

O dia renascia, o sol se aprumava e os dois continuavam abraçados. Os carros e buzinas aceleravam e a obra se erguia, enquanto eles sussurravam juras de amor. Os pequenos sons vindos da cama só foram quebrados mesmo por um passarinho que rondava a janela e disparou: “bem-te-vi!”. Era hora de levantar.  

Entre Aspas: Sempre existe um mundo todo esperando pela fotografia do momento mais incrível e há sempre uns olhos esperando a hora de testemunhar todo o dia o grande lance. O voltar pra casa. O lembrar tudo de novo, e te fotografaria de novo, toda manhã pra te prender no nascer do sol. De um post do blog da “Briga”.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Paulista


São Paulo é muita coisa. É a genialidade do óbvio. A pomba que ficou marrom de sujeira. A recepcionista de unha verde musgo. A série de gravatas cinza. O encontro casual de dois amigos gays. A Paulista pulsa. E tudo hoje parece um dia qualquer de março de 2009...

Todo aquele tempo de caminhar meio sem destino, descobrindo a cidade, louco para conhecer esses seres. Hoje, sou mais um deles. O cinza e o preto dominam meu traje social e uma mochila completa o look.

Há menos ilusão e inquietude. E o temor de não conseguir me juntar à multidão é diferente, menor, mas presente. E quem ama São Paulo com todas as suas dores? Mesmo prestes a soltar um grito de chega? Quem tolera tanto ao mesmo tempo por todo o tempo? E quem nos vê de fora?

É só uma cena de confusão. O fulano que passeia com seus cachorros; a mulher que recolhe bitucas; o gordo que se diverte no celular. Um passarinho tenta em vão competir com os carros. A adolescente empunha um livro de amor. Corpos semi-exibidos após um streap-tease de roupas de frio.

O rolo de fios atrofia os galhos e entristece a árvore. O picolé parece sem gosto. O sol chama. O rock and roll brota da calçada. O charme da mulher de meia calça de bolinhas. Seu cabelo semi-louro, sua saia alta, seu requinte... É o desfile constante de vidas e cenas inusitadas. 
 
Entre Aspas: A árvore entristece ao perceber que o machado é feito de madeira. Da peça Memórias da Cana.

sábado, 21 de abril de 2012

Noite – o início, o meio, o fim


Um prostíbulo é um bom retrato da noite e das relações humanas. O movimento começa crescente, com expectativa, maquiagens vistosas, perfumes exalando, roupas no ponto, música animando e luzes em flashes.

Os primeiros a chegar se acham sortudos. As primeiras conversas são tímidas e vão ficando animadas. Por aqui, também há jogo de sedução. É um teatro em que os homens fingem que precisam conquistá-las e elas fazem charme dissimulando que não é nada disso.

O ponteiro ultrapassa meia noite. A bebida vai deixando o ambiente mais alegre. E, talvez haja um momento que seja o ápice de tudo isso, mas é tão difícil captá-lo. Acho que mesmo que soubéssemos identificá-lo, continuaríamos ali, tentando prorrogar o prazer. Mas devíamos mesmo ir embora.


A partir daí, a noite cresce. A música fica mais frenética, as luzes mais piscantes, o tilintar de bebidas mais constante. Começa aparecer o suor, a maquiagem ameaça abandonar, as camisas já estão amarrotadas, o perfume renovado já não é mais tão fresco.

A vida se encaminha para um momento triste: o fim da noite. Cada segundo que o relógio levanta parece pesar anos na cara e nos ânimos das pessoas. As músicas já não animam mais, a maquiagem já não enfeita (as mais pesadas vão ficando parecidas com a de um palhaço triste). A melancolia vai abatendo um a um dos presentes.

O tesão passou. Não haverá mais beijos, disposição para o sexo, dinheiro... As mais velhas são as que mais se desesperam. Rebolam freneticamente e parecem querer cumprir a promessa do guarda que atrai os clientes para casa afirmando que levarão “xoxotada na cara”.

Nesse momento, são mulheres tristes. Há pouca beleza no ar. Uma moça de 20 anos conta dos dois filhos que ficaram com a mãe em Minas. O pole dance está vazio. Uma delas cochila no sofá. As gargalhadas dos rapazes e o jogo de olhares e mãos deram lugares à postura largada, desânimo e a pensar em desistir dali.

É nesse momento, que aqueles que restaram questionam a presença, a alegria, a beleza, a bebida... Mas no fundo sabem que é na noite, mais especificamente no começo dela, que mora a esperança. E isso os atrairá muitas e muitas vezes, por mais desiludidos que estejam agora, às 5h40 da manhã.

Entre aspas: Queria ressentir agora o carinho e a dignidade do começo da noite. 19h15: tudo iluminado, cheio de vida, pessoas vindo, sorrisos brancos, pessoas musicais, perfumes importados... 5h40: tudo muda, tudo se desmancha, o mundo se desmancha. Só restam algumas, não são pessoas: é um pequeno exército de espectro, de gente que não deu certo, pelo menos não ontem. Restam as sobras da noite de ontem. Sobra – de gente –, que foram bonitas e inteiras. Não mais. As pessoas vão deixando seus pedaços. Somos o que sobrou de ontem, esquecidos por todos – até por nós mesmos. Nada é o que parece ser, às 5h40 da manhã. A gente não é o mesmo que volta. Afinal, nunca entramos no mesmo rio duas vezes. De uma travesti, personagem da peça Marulhos – caminho do rio, do Grupo Redemoinho.

Entre aspas 2: Há toda uma promoção tenaz e profissional na noite (...) mas está todo mundo no extremo limite da loucura e do suicídio. É uma excitação sem desejo. É uma obscenidade sem prazer. É um deserto interior, deserto inconsolável, sem uma pia, sem uma bica. E todo mundo, ali, tinha a cara vingativa dos suicidas. Nelson Rodrigues.

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Eu receberia as piores notícias dos seus lindos lábios

O título desse post é também o nome do filme que dá à Camila Pitanga a chance de mostrar todo seu talento. Inspirado na obra de Marçal Aquino, o título torna-se uma homenagem à atriz. É daqueles filmes que se misturam à interpretação vigorosa da protagonista, com um personagem de múltiplas facetas – e Camila consegue ser todas elas com maestria.

Como se vê esse não é um texto jornalístico e nem uma crítica sobre o filme: é elogio, com adjetivos e palavras generosas ao trabalho da atriz. Trabalho que pesa no começo do filme. Por ser atriz conhecida da TV e ter executado com mérito vários personagens, Camila precisa convencer que não é a moça da propaganda da Caixa ou da novela das 8, ali ela é Lavínia.

Está linda, brejeira, simples, arredia, fogosa... Até aí, você acha que é mais uma personagem a la Gabriela. Nos flashbacks, é uma prostituta, bêbada, drogada, decadente... Camila mais uma vez convence e, apesar de não lembrar em nada a caricata Bebel, a sua prostituta de Paraíso Tropical, novela da Globo, a gente pensa: "ah, ok, ela também já fez isso muito bem, quero mais!".

E Camila, ou melhor, Lavínia, dá mais: está fogosa e com uma sintonia incrível com Caubi (Gustavo Machado) nas cenas de sexo; é dramática quando precisa; simples na hora de passar quase despercebida entre não-atores. Mas é na parte final, quando a vida da personagem muda completamente, que você solta um: “Nossa, sensacional!”.

Ela é tão convincente, que consegue deixar no chinelo o que a reduziria a ser só uma mulher bela e com brilho nos olhos. Lavínia agora não sabe quem é e Camila está irreconhecível – e não há recursos pesados de maquiagem para isso. Seu olhar, a expressão, os gestos e a fala mostram o quão talentosa é ao nos contar, sem precisar dizer, que teve um surto psicótico.

– Esse é o momento que mais temia. Conhecia pessoas da minha família que passaram por isso. Tinha medo de ter incorporado isso. Não queria me pautar pela minha experiência. Tive encontros com pacientes. Foram anos de terapia em um filme. Eu consegui olhar como artista, com subjetividade – conta.

Camila diz ainda que trabalhou muito para o filme, fez preparação corporal, experimentou e improvisou as cenas.
 – Esse foi o papel que mais me exigiu. Amo trabalhar. Estava sedenta por uma oportunidade como essa. Foi uma surpresa maravilhosa receber o convite. Tive formigamento no corpo, não era um terreno tranquilo, mas estava querendo ir para a guerra, sair do lugar comum – diz ela, após a pré-estreia no Cine Livraria Cultura, em São Paulo.

O diretor do filme, Beto Brant, confidenciou que queriam para o papel uma atriz que os fizesse tremer ao estar perto dela. Camila é dessas atrizes. E não é porque tem uma beleza desconcertante, mas também por que é simpática; tem sorriso sincero; olha no olho; é dedicada; engajada e inteligente (casa comigo?!).

O filme foi construído com cenas narrativas, que falam por si só, sem precisar explicar. “Estávamos em um rio comum, havia uma cumplicidade, generosidade entre nós. Isso criava uma dança não só entre atores, mas também com a equipe que tinha que bailar”, afirma Camila.

A atriz conta que a primeira cena de encontro de Lavínia com Caubi é gravada em plano sequência. São oito minutos seguidos em que atores, luz, som, foco, continuidade e tudo mais tinham que estar no ponto certo. “Quando conseguimos fazer o primeiro valendo, que deu certo para todo mundo, foi como comemorar gol na Copa do Mundo. Todos se abraçaram. Nunca vou esquecer esse momento”, confidencia.

Camila diz que viu vários filmes e atrizes desde a década de 1930 para construir o amálgama de Lavínia, suas várias facetas. “Fiquei porosa. Tudo que tinha a ver com a Lavínia guardava para ter com o quê jogar”. Pergunto se houve alguma inspiração em Penélope Cruz, mas ela diz que não, apesar de gostar dela. Em uma das cenas, em que está descabelada, fumando e incrivelmente linda e sexy é impossível não fazer a ligação: Camila é nossa Penélope.

Pitanga é uma das grandes atrizes brasileiras da sua geração. Devia fazer mais cinema, seu talento e beleza são grandes demais para a TV. Apesar desse desejo, ela segue seu próprio caminho e estará na próxima novela das 6 no segundo semestre. Analisando um pouco da sua carreira, ela fez coisas bacanas na telinha e talvez falte apenas uma vilã para nos convencer de vez que pode ser qualquer coisa, sendo a grande atriz que é!

O Filme:
A estreia de “Eu receberia as piores notícias de seus lindos lábios” é dia 20 de abril, em 50 salas de cinema de todo o país. Veja o trailer
aqui.