quarta-feira, 6 de janeiro de 2010

De soslaio*


A gente se apaixona por um olhar, por um sorriso, pela pureza exalada pelo outro. Um amor à primeira vista surge da beleza verde inesperada daqueles olhos desafiadores e meigos. Brota do que a gente espera que a pessoa seja. Renasce, reproduz e replica no dia a dia. Se alimenta do que a pessoa é, do que ela passa a ser e representar para nós.

Um amor juvenil é sincero, espontâneo e intenso - como tudo nessa fase. Do alto dos 1,80 metros de altura, aquele adolescente com espinhas no rosto e vontade de mudar o mundo, que um dia fui, amava aquela menina pela beleza de seu ser, pelo seu jeito meigo e descompromissado, pela sua personalidade dócil e forte.

Era quase inalcançável, inatingível. Intangível! Era isso que me impulsionava. Até hoje acho que o amor real não é possível. Mas durante alguns anos ele foi. Aquela timidez, as pedras de gelo na barriga, aquela vontade de parecer interessante, de agradar, aquele desejo de estar com ela, os hormônios, a química, aqueles risos, palavras e olhares nutriram durante bons anos a união de nós dois. Fomos dois, fomos um e soubemos a hora certa de sermos nós mesmos, de cada um seguir seu caminho e seus sonhos.

Não somos mais aqueles adolescentes que se apaixonam por um olhar. Seria preciso muito mais para que estivéssemos juntos até agora. Não houve vontade, sintonia e amor que resistissem aos conflitos e aflições da juventude. Passamos pela adolescência e fomos catapultados à idade adulta sem nenhum aviso, meio que contra a nossa vontade. Aquele amor juvenil já não fazia sentido em uma relação desgastada entre duas pessoas tão diferentes, com visões de mundo e futuro divergentes.

Os corpos se separaram, as línguas desentrelaçaram-se, os olhos derramaram lágrimas e lançaram olhares mais tristes por um tempo, mas depois seguiram mirando outros horizontes. Hoje distantes, olhamos para essa história com carinho. Ainda nos incomodamos ao nos rever. Afinal, como canta Chico Buarque “é desconcertante rever um grande amor, como é”. E visto com lentes atuais esse foi só um amor juvenil entre pessoas que nem existem mais. Mas como foi bom amar aqueles olhos.

*Texto produzido durante aula de Ensaio Pessoal e Memórias da Pós-graduação de Jornalismo Literário. [31/10/2009]

Entre Aspas: A qualidade literária está na reflexão abstrata. Sérgio Vilas Boas

domingo, 3 de janeiro de 2010

Apenas um sujeito médio

Época de aniversário é sempre tempo de repensar a vida, trocar de fase. Nessa fase, cada vez mais me percebo adulto, me admito como tal e me comporto como um, apesar de uma criança ainda habitar meu interior. Meus amigos também cresceram, saíram da casa dos pais, mudaram de cidade, se casaram, tiveram filhos e despontam em suas profissões...É, a adolescência também acabou...O mais difícil de se perceber como adulto, não é a idade em si ou a condição de ser responsável por si mesmo e ter que se virar sozinho, mas a sensação de que o tempo passa e que caminhamos, mesmo se não quisermos. Nesse caso, é melhor decidirmos o caminho a trilhar e nos prepararmos para a jornada... Seguindo, cada um da sua maneira, fazendo seu caminho, colhendo o que plantou e sendo hoje, justamente o que procurou para si....

Outra dificuldade da idade adulta é constatar que você não é (e não será) um gênio. Na infância, sempre achei que seria alguém muito importante para a humanidade. Eu seria presidente do Brasil, depois astronauta, depois o melhor arquiteto do País e ainda aos cinco anos decidi que seria jornalista para salvar o mundo e parar as guerras, como eu acreditava que o Pedro Bial fazia no Golfo em 1991. Ainda como jornalista, eu escreveria um livro muito vendido e que mudaria a história universal, denunciaria mazelas e melhoria a vida das pessoas. Eu seria um grande escritor, um jornalista célebre, um homem admirado.

Os anos passaram. Nunca fui uma pessoa que se destacou pela inteligência. Não que seja ignorante ou burro, mas também não sou aqueles caras naturalmente inteligentes. Esforçado e esperto, ok. Não fui aluno nota 10 na escola, não passei em primeiro lugar no vestibular e não fiz um primeiro livro genial, que foi reconhecido ou será no meu pós-morte. Eu sei, ainda dá tempo. Mas cada dia que passa luto com uma conclusão que cada vez me agrada mais, não quero ser o bom, o melhor, o reconhecido. Só quero ser eu mesmo. E, neste caso, talvez isso signifique ser um sujeito médio. Viram que ainda há uma resistência? Não assumo completamente essa constatação, talvez ainda vá algum tempo para isso...

Sempre admirei os pequenos gênios, as pessoas que se destacam, aqueles que são acima da média. A vida inteira tentei ser um deles. É isso que nossos pais nos ensinam, que os meios de comunicação valorizam, que os professores premiam com boas notas e que a sociedade reconhece. Sempre abominei os medíocres, aqueles medianos que patinam sobre suas próprias existências, se boicotando ou apenas se contentando em ser mais um. Bom, os ruins, são ruins e pronto. Esses, possuem algum défict ou têm algum problema e acabam se contentando em, no máximo, ser medianos.

Pois bem, depois de um pouco mais de duas décadas de vida, eu também quero ser um sujeiro médio! Não medíocre. Quero ser apenas melhor do que eu mesmo, com meu esforço e minhas dificuldades, minhas qualidades e meus defeitos. Não para que a humanidade me reconheça, mas para que consiga avançar sobre as condições que me foram dadas e que eu criei. Quero percorrer o caminho com dignidade e almejar não o fim, pelo fim – saltar da massa formada pela média – mas ser bom no que faço. E para isso não preciso trabalhar em um lugar que me traga reconhecimento perante os outros, mas que tenha sentido para mim, que me desafie e motive, mesmo que trabalhando em um veículo de comunicação pequeno e desconhecido. E isso tem a ver com a minha não vontade de ficar em São Paulo por muito tempo e migrar para uma cidade mais viva, feliz e com identidade definida.

Quero ser justo com os que estão a minha volta e privilegiar os meus familiares e amigos com a minha nobre e simples presença. Quero a sutiliza do dia a dia, a futilidade das conversas de cotidiano, o contato com gente, o compromisso comigo mesmo de sempre assumir desafios e avançar sobre as complexas situações enraizadas em nossa sociedade. A direção não é mais o céu, o estrelato, a fama, mas o mundo. A amplitude agora é para os lados, é em ocupar os espaços, sempre com menos. Menos soberba, menos arrogância, menos agressividade e menos ambição.

Talvez eu queira me transformar naquele sujeito bobo, que ri de tudo, que conversa com todos e que está sempre ali para ajudar. Aquele que poucos prestam atenção, e, por isso, mesmo está longe de ser notório até entre os amigos, mas está sempre pronto para cumprir sua missão. Taí, uma coisa que eu quero para os meus próximos anos, contribuir com os que estão a minha a volta e estar disponível para somar e dividir. Sentimento que os muito célebres jamais vão poder usufruir. Quis ser muito, hoje quero ser médio, talvez aos cinquenta só queira ser pouco... E assim caminha a humanidade e a gente caminha com ela. Cada um na sua jornada.

Entre Aspas: Essa conversa foi um dos momentos belos da minha vida. Já o guardei na minha caixinha invisível de memórias impalpáveis. Eliane Brum e suas sutilezas cotidianas no texto que me inspirou para esse post:

http://revistaepoca.globo.com/Revista/Epoca/1,,EMI97973-15230,00.html

domingo, 20 de dezembro de 2009

Três anos em um

Dois mil inove...Com essa frase começou o ano, um tracadilho faceiro, prometendo mundos e fundos e anunciando mudanças. E assim foi! Pela numerologia esse foi meu ano seis (propício ao lar, à família, ao casamento e aos amigos, segundo a ‘filosofia’). Não foi nada disso. Foi sim meu ano três, não pela soma de números da data de nascimento ou do meu nome, mas por tudo ter acontecido triplicado.

Comecei o ano passando por três festas de réveillon;

Fiz (ainda faço e sempre farei,rs) aniversário em 3 de janeiro;

Tive três empregos (Jornal O Estado de Mato Grosso do Sul, Luares e Agência Leia);

Morei em três casas (Bairro Universitário em Campo Grande, Vila Olímpia em São Paulo e Barra Funda em São Paulo);

Fiz três viagens bacanas (Campo Grande-junho, Paraty-julho, Bela Vista do Paraíso-outubro);

Recebi três convites para casamento (Marê, Belha e Pati);

Fiz três novas amizades (Carol, Ju e Rê);

Tenho três paletós no guarda-roupa;

Tive contato com três jornalistas fodas (Edvaldo Pereira Lima, Neide Duarte e Zé Hamilton Ribeiro);

Três pessoas moram na minha casa atual (Maria Fernanda, Marcelle e eu);

Vi três filmes marcantes (A Partida, A Festa da Menina Morta e Não é Só Ilusão);
Assisti a três peças ótimas (Viver Sem Tempos Mortos, O Ano do Pensamento Mágico e Bichos do Mundo);

Conheci três novas cidades (Santos, Paraty e Bela Vista do Paraíso);

Tenho três aparelhos de celular (para quê tanto, né?);

Tive três gripes (em ano de gripe suína, mas sobrevivi);

Três amigos mudaram de Campo Grande e dividiram agruras e conquistas (Antônio, Rapha e Marcelle);

Fui a três missas (dois casamentos e um batizado);

Completei três anos de formado (passa rápido, né?!);

Conheci pessoalmente três jornalistas-autores fodas (Gay Talese, Xinran e Eliane Brum);

E termino o ano preparando três festas de aniversário (isso mesmo, veja abaixo).

Um ano intenso, cheio de emoções em que, literalmente, mudei e inovei a perspectiva pela qual vejo o mundo, encaro o trabalho e vivo, que provocou um amadurecimento imensurável e teve acontecimentos que dificilmente sairão da memória. Foram mesmo três anos em um. Sobrevivi e ainda gostei das altas doses de emoção – e de viver perigosamente.

Para celebrar esses três anos que passei em 2009 vou começar 2010 comemorando meu aniversário ao cubo. Será uma espécie de turnê comemorativa em que espero conseguir brindar com o maior número de amigos possíveis. Vamos às datas e cidades:

*Recife (onde passarei o réveillon), domingo, 3 de janeiro

*São Paulo, sábado, 9 de janeiro

*Campo Grande, sábado, 16 de janeiro.

Que este seja um ano de muitas realizações e de encontros para e entre todos nós!
2010 com qualidade de vida e amor!

Crianças Velhas. Novos adultos

(Para o tempo que eu quero descer)

... E então cresceram. Eram aquelas crianças catarrentas que corriam pela rua, soltavam pipa, brincavam de bola de gude, jogavam bete, corriam no pega-pega e brigavam só para depois continuarem todas essas travessuras juntos. A rua ainda é a mesma, mas eles casaram, tiveram filhos, se mudaram e hoje projetam novos rumos. Realizam seus sonhos de infância. Muito da personalidade de cada um naquela época de jogos de vôlei, de queimada e do rouba-bandeira permanecem até hoje.

Eles engordaram, mudaram os cabelos, têm caras e corpos de adultos, usam barba, mas por minutos sustentam os mesmos sorrisos de antes. Talvez o que tenha restado em comum seja apenas isso, além das histórias, claro. E foram muitas. Das melhores e inesquecíveis fases da vida. Para alguns é estranho vê-los tão grande, um ou outro deles nem se percebeu adulto ainda, outros ainda relutam contra essa realidade. No entanto, todos são pressionados a assumir suas responsabilidades, a tomar rumos na vida e vão seguindo seus caminhos, construindo suas histórias. E de vez em quando se encontram, falam do passado, riem das lembranças e perguntam de fulanos e cicranos.

Saem renovados, com um ‘quê’ de vontade de reviver aquela fase. A vida segue, precisam segurar às próprias rédeas e prosseguir suas novas vidas de adultos. A esperteza, as trapaças, as vitórias, as derrotas, as virtudes e os vícios aprendidos quando eram crianças ainda se mostram presentes hoje em outros contextos. Os encontros, os choros e os risos é que ficaram mais escassos. O trabalho espera, o filho chora, o corpo muda, o relógio avança, a vida segue...

[18/10/2009]

Entre Aspas: A vida é a falta de definição. É transição. Nunca estamos prontos. Do filme Divã.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Sem você

Sozinho numa tarde dominical e cinzenta de dezembro em São Paulo (SP), a janela do meu apartamento está aberta e deixa entrar o vento frio que vem da rua. É a brisa da solidão, que me envolve, arrepia e grita a necessidade de estar com alguém. Da rua vêm os ruídos de uma banda de rock que toca no Memorial da América Latina, dos sinos da Igreja São Geraldo, convidando para a missa, dos gritos de gols dos vizinhos comemorando os últimos minutos do Campeonato Brasileiro de Futebol, mas do e-mail vem a lembrança que preciso estar aqui para trabalhar...

Na cama de casal, ao invés de uma pessoa para acompanhar, o livro com as lições não feitas de inglês. O ano está para acabar e eu continuo aqui, sem ninguém. Acho que vou fechar a janela.

Entre Aspas: A felicidade só é de verdade quando é compartilhada. Do filme Natureza Selvagem

domingo, 22 de novembro de 2009

A Teoria das Pessoas

(E o porquê das pessoas precisarem ser teorizadas)*

Ninguém cabe em apenas um rótulo. É apenas isso ou aquilo. Mas com o passar dos anos, o exercício de conhecer, desvendar e tentar traduzir pessoas vai identificando características em comum entre elas. Traços da personalidade, da aparência, do modo de agir que aproximam os serem de determinadas classificações. No entanto, como cada um também são muitos, essa pluralidade permite que uma pessoa possa ter muitas dessas características (e uma predominante) ou nenhuma delas.

Assim, ao ler a teoria você vai se identificar ou enxergar os amigos em uma ou algumas delas, pode ter dificuldade de visualizar esse ou aquele item e ao final terá vontade (principalmente se for jornalista) de incluir mais uma (s) categoria (s). Sim, então, isso é papo de jornalista, mas ao final verá que até para isso a Teoria das Pessoas deu jeito.

A teoria começou a surgir numa despretensiosa conversa com Maureen Mattiello, uma amiga, também jornalista em 2007. Foi amadurecendo em conversas com outros amigos e colegas, em mesas de bar, nas aulas de pós-graduação que frequentei, e, principalmente, por meio das pessoas que fui conhecendo ao longo desse tempo e percebendo que elas iam demonstrando uma ou outra particularidade das pessoas descritas abaixo.

Então, é isso. Chega de teorizar sobre a teoria e vamos aos tipos humanos identificados:

1 – As pessoas: São seres comuns, com os quais convivemos no cotidiano. Dois olhos, um nariz, uma boca, dois ouvidos, uma casa, um trabalho, defeitos, qualidades, um nome, e por aí vai... É gente como a gente, que paga imposto, que vive aos montes em lugares que denomina de cidade. E se não chegam a destacar-se da multidão, também não são engolidas por ela. Exemplo: um colega de faculdade, uma tia legal, uma vendedora de loja, o seu dentista...

2 – As pessoas-pessoas: São seres especiais, extraordinários. São pessoas, humanas, gente –tudo ao quadrado. Gente de coração bom, alma leve, sorriso sincero e que emana uma energia positiva. Tem sempre algo bom para te dizer. São produzidas em menor escala, mas sempre tem uma por perto, é só trabalhar o olhar. Exemplo: um grande amigo, um professor (como o Ed), algumas mães ou avós... Existem umas que são tão humanas (pessoas a quinta potência), que quase são inclusas em uma nova categoria ainda não criada: a de pessoas que não existem. Já encontrou umas assim? Vai perceber rápido quando estiver com uma...

3 – Os personagens: São pessoas especiais por seus pensamentos, maneira como vivem ou experiências que já viveram e contam. São singulares, particulares e ricos. Existem alguns e são facilmente identificados, principalmente se você for jornalista. A patricinha, o mano, o hippie, o agroboy, o emo e tantos outros podem ser personagens. Mas o melhor exemplo é aquela pessoa comum, que narra histórias interessantes e deliciosas de se ouvir. Exemplo: cobrador de ônibus, zelador de cinema, um velho imigrante sentado na calçada vendo a vida passar...

4 – As Caricaturas: São personagens tão fortes que viram personagens de si mesmos, possuem traços marcantes, são caricaturais. São a "exceção" e, por isso, mesmo, notados de cara em um grupo. Têm voz interessante, jeito de falar e andar próprios, se vestem de acordo com sua postura e são interessantíssimos. Possuem personalidade forte, opinião própria, já foram ou serão hostilizados pela aparência, alguns são líderes natos e ás vezes parecem estar fazendo caretas, mas só estão esboçando um sorriso. Exemplo: Clodovil, Elke Maravilha, Silvio Santos...

5 – Os insossos: São aqueles seres sem sal, que passam despercebidos na vida e que você esquecerá no minuto seguinte em que encontrar. São o oposto das caricaturas. Existem alguns e eles se perdem na multidão. Apagam-se, escondem-se e vivem as margens do restante da humanidade. Não têm rosto, nome, qualidades ou defeitos. Só cumprem a função de ser um número (de RG, da contagem do IBGE...). Exemplo: desculpa, mas não consigo lembrar de nenhuma agora, por que será?

6 – Os figuras: Pessoas engraçadas, estranhas, interessantes (...), que poderiam fazer parte de álbum de figurinhas, mas que não são necessariamente personagens e sim figurinhas carimbadas! Existem alguns espalhados pelo mundo. Ao vê-los, você pensará “quero ser amigo daquela pessoa”. E assim será. Costumam ser falantes e extrovertidos e possuem a maestria de chamar atenção de uma mesa inteira de bar ou de uma sala toda de aula com pequenos gestos. Exemplo: uma amiga que adora, um professor que marcou na época da escola, um tio...

7 – As pessoas desenho-animado: São seres desenhados para serem uma animação. Possuem traços, expressões, gestos e vozes interessantes o bastante para desviar sua atenção no ônibus, na rua, na sala de aula... Alguns são também personagens ou figuras, mas estão alguns degraus abaixo da caricatura. Às vezes, parece que balõezinhos de pensamento ou efeitos gráficos povoam o entorno de seu ser. A vida para eles é uma eterna interjeição onomatopéica. Exemplo: Alguém que te remete a um desenho específico ou simplesmente é um desenho... [Contribuição de Marina Morena Marina Andrade, que consegue identificar de qual desenho animado esses seres fazem parte]

8 – O pseudo-intelectual metido a besta ou alternativo (Pimba): Desses eu tenho preguiça, mas vamos lá: não são nada originais, aliás são fakes. A moda hoje é pimba. Eles realmente acreditam que são alternativos e descolados. Costumam ser meio de esquerda. Gostam de xadrez, óculos de aro grosso e retrô, cabelo desalinhado. São metidos a crítico de cinema, dizem que gostam de teatro, poesia, mas nunca viu ou leu nada disso de verdade. Apesar do conhecimento raso, fazem questão de mostrar erudição e intelectualidade, citam autores, livros, de filósofos, artistas plásticos, teorias, músicos eruditos, alguns cineastas europeus (dos anos 1960 e 70, principalmente). É tipo comum nas universidades, em cinemas culturais, cafés e em toda cidade grande. A pose característica é a blasé. Gostam da nova banda de rock (+algum adjetivo) do Uzbequistão, mas quando mais de dez pessoas conhecem desiste dessa e passa a ouvir outro som mais alternativo. Quando compra uma corrente de ouro, prefere as feitas manualmente por índias virgens, da Floresta Rauk, no Marrocos, para contar essa história e impressionar o ouvinte dizendo que consumiu para ajudar a causa da libertação dessas mulheres... Exemplo: Vá a Rua Augusta ou a Praça Roosevelt em São Paulo (SP) e identifique você mesmo... [Contribuição de Marcelo D2 e papos na pós que fiz em Campo Grande]

9 – O cidadão de bem (CB): Personagem do filme "A indústria do medo", é trabalhador, tem uma família saudável e feliz. É o senso comum, a classe média. Seus filhos estudam em bons colégios tradicionais onde recebem uma formação moral e dos bons costumes. Todo domingo, no conforto de seu lar, ele e sua família assistem ao Fantástico. Nunca abandona suas convicções, mas, às vezes, avança o sinal vermelho porque é muito ocupado e tempo é dinheiro. Discute política (pensando que sabe algo do assunto) como quem fala de futebol. Acha que o atual governo é ruim porque o Lula é semi-analfabeto. Assina a Veja, seu filho a Playboy, sua filha a Capricho e sua esposa a Claudia. Além da Veja, lê Época e Istoé e se considera elite intelectual por causa disso. Pensa que todo esquerdista é comunista. Pensa que sabe o que é comunismo. Afirma que bandido bom é bandido morto. Diz que a maioria dos pobres estão nessa situação por serem vagabundos. Estudou muito pra passar em um concurso e ser funcionário público. Afinal ganha razoavelmente bem, tem estabilidade e comodidade. Ao longo do tempo, aproveita ao máximo das benesses "concedidas" pelo Estado e carrega consigo um único sonho: o de se aposentar logo! Exemplo: O Lineu, da "Grande Família", advogados também têm tendência a fazer parte dessa categoria... [Marcelle Souza contribuiu para a construção dessa categoria]

10 – Os malas: Facilmente identificados. Muitos deles são cidadãos de bem, alguns são Pimba, mas muitos são apenas malas mesmo. Você entra no elevador e ele começa a falar do tempo, que políticos são desonestos, que não assiste mais TV por que só tem tragédia... Faz perguntas que você não está a fim de responder. Fala sem parar e acaba respondendo as próprias perguntas que fazem. São chatos, te aborrecem facilmente e você tem vontade de estender o braço, fechar e abrir os dedos com a mão em formato de concha e dizer: “fala com a minha mão, vai?!”, e virar-se para o outro lado... Exemplo: seu cunhado, um vizinho, um desconhecido que quer ficar seu amigo de infância só por que está na mesma fila que você...

11 – Os vilões da novela das 8 (Os “Do Mal”): Esses não chegam a ser pessoas. Mas estão soltos por aí. Dividem-se em dois tipos: os declaradamente “do mal”, que gostam e assumem fazer maldades. Vangloriam-se por serem ruins, são egoístas, puxam o tapete, arquitetam coisas contra as pessoas e vivem numa trama malévola, num verdadeiro circulo vicioso (exemplo: Nazaré, a personagem de Renata Sorrah, em “Senhora do Destino”); e os psicopatas, falsos, cínicos, planejam e arquitetam o mal, mas fingem serem amigos, “do bem”, apunhalam apenas pelas costas. Possuem sorriso amarelo, olhos espertos e são extremamente inteligentes, mas covardes de assumir o que realmente são (exemplo: Yvone, da novela “Caminho das Índias”). Ambos possuem energia negativa, apesar de serem interessantes, possuem desvio de caráter e deve-se manter distância. São o oposto das pessoas-pessoas.

12 – Os Jornalistas: Têm certeza que são Deus ou criaturas elevadas e diferentes do restante da humanidade. Consideram-se capazes de classificar todos os outros seres e acham que eles próprios são inclassificáveis. Para estar nessa categoria não precisa ter diploma em Jornalismo ou exercer essa profissão. Precisa de um ego apurado, senso ‘crítico aguçado’, poder de argumentação e de classificação sobre as pessoas, acontecimentos e situações. Costumam se declarar apartidários, ateus, alguns não dizem o time para qual torcem, para quem votou e quanto ganham... Acabam solteiros, sem amigos de outras profissões e com nenhum dinheiro no fim do mês. Fumam, tomam café, frequentam bares só de jornalistas e gostam do asfixiante clima de redação. Exemplo: Vá a uma redação, a um boteco vizinho a um meio de comunicação...


*Essa não é uma teoria fechada, está em construção e sendo aprimorada a cada dia, a cada nova pessoa que eu conheço, a cada conversa, a cada novo texto...

Nos comentários, contribua com as características de cada tipo, inclua novas categorias, se classifique, me classifique, reproduza e dê crédito à Teoria das Pessoas (Soares Dias, 2009). Além de muito séria e científica (mais do que as pesquisas que divulgam no Fantástico, pelo menos) ela é a mais humana das teorias.

PS: Com o tempo pretendo fazer o perfil de uma pessoa de cada uma dessas categorias e publicar aqui. Promessa para ser cumprida aos poucos e sem data para o fim...

Entre Aspas: A palavra é o meio de domínio sobre o mundo. Clarice Lispector

Entre Aspas II: Para os judeus, Deus criou o mundo por meio da palavra. Quando alguém materializa a palavra, escrevendo, interfere diretamente na criação do mundo. Autor desconhecido por mim.

sábado, 14 de novembro de 2009

Cotidiano Animal

– Dá bom dia pro cachorrinho, dá! Dá bom dia...
– Au, Au, Au, Au, Au, Au, Au – , solta ferozmente o poodle metido, daqueles de tamanho maior do que a média, que deve ter nome de raça em inglês, com tosa em dia e cor de caramelo.

A mulher sem rosto expressivo, que o carrega, insiste. O outro cão é negro, está acompanhado por uma senhora que parece longe dali. Ele olha desconfiado, finge ignorar, mas às vezes responde forte e decidido:
– Au, au, au!

No cruzamento das ruas General Jardim e Sabará, a cena não surpreende os passantes do pomposo Bairro de Higienópolis, em São Paulo (SP). Apesar de grã-finos, eles estão acostumados a pisar em cocos e xixis dos pets, conviver com eles no refinado Shopping Higienópolis, que permite a entrada de cachorros, e de tê-los em casa como se fossem gente. Avanço em passos rápidos na direção deles, flagro a saudação, me afasto e tudo continua do mesmo jeito que começou:
– Dá bom dia pro cachorrinho, dá! Dá bom dia...
– Au, Au, Au, Au, Au, Au, Au!

Entre Aspas:

Desejinhos...


Espero o máximo de nós,
o melhor de cada um
Um solado a dois
Uma dança em vez de...
Você a sós
comigo outra vez
em versos normais
cantando o sol
contando as estrelas
descabelando ao vento.
Eu quero você
que era tão só
me fez tão sutil
e hoje vem
com graça e paixão
me fazer de seu e
Tornar-nos tão felizes!

GSD (27-07-2009)