Almoçamos juntos na Sé há apenas uma semana, mas Carol e eu já tivemos boas notícias de Joel - o pai de família em situação de rua, que nos apresentou o Pátio do Colégio, lugar onde nasceu São Paulo (leia como foi o encontro da semana anterior no post abaixo). Eram 14h30 de sábado (18), quando meu celular tocou, enquanto eu saía da lavanderia com meu paletó passado e seguia em busca de um restaurante barato para comer. Um telefone fixo e desconhecido me ligava. Era a cobrar e desligou quando atendi.
Os bônus que tenho da Oi para fazer ligações para fixo me ajudaram a retornar. Nem imaginava quem seria, a voz do outro lado tratou de se identificar logo: “É o Joel, tenho boas notícias”. Cumprimentei-o, e ele disparou: - Saí da rua e estou trabalhando!
Fiquei surpreso com a notícia e ele explicou: “o coronel disse que eu estava precisando de um trabalho. Estou em uma construtora”. Era, com certeza, a melhor notícia do dia. Ele saiu da rua, havia alugado um quarto no bairro do Bexiga e já começara a fazer um tratamento para cuidar dos dentes.
-Mas e a bebida foi fácil parar?
- Quando a gente ocupa a cabeça é fácil, né? Agora mesmo vim trazer uns trocados para o pessoal da Sé beber e não deu vontade nenhuma de tomar pinga - , afirma.
Ele era um cara de bom coração mesmo. Foi ajudado por um homem que chama de coronel, presidente da ong "Mudar" que auxilia pessoas em situação de rua. Agora, já dá os primeiros passos de volta à vida que tinha antes de ser traído pela mulher, cair na cachaça e chegar à indigência. Joel conseguiu sair dessa. Se tudo der certo, Carol e eu iremos à sua casa na praia em breve. Torcemos agora para que Eder, Isaías, Lucas e Jéssica, os personagens que perambulam pela Sé atrás de um pega e com os quais conversamos na semana passada tenham destino semelhante.
Entre Aspas: Sucesso é acordar de manhã – não importa quem seja, onde você esteja, se é velho ou se é jovem – e sair da cama porque existem coisas mais importantes que você adora fazer, nas quais você acredita, e em que é bom. Algo que é maior que você, que você quase não aguenta esperar para fazer hoje. Do jornalista Whit Hoss.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
domingo, 12 de julho de 2009
Programa para um sábado B: Vá a Sé com a Carol e almoce com o Joel
Foi um sábado chuvoso aquele 11 de julho de 2009. Com temperatura amena e nenhuma previsão de sol, cheguei a pensar em desistir do programa daquele dia. Mas como chuva nunca foi um impedimento para eu deixar de fazer nada, resolvi que ajudaria Caroline Castro na sua matéria para a pós-graduação de Jornalismo Literário. Eu seria um estepe, ajudante de jornalista, que daria segurança para ela circular pela Sé e entrevistar pessoas em situação de rua no centro de São Paulo.
A minha força física sempre impõe respeito nessas horas (...). Quem nos viu chegar tão tímidos, com medo de abordar as pessoas que vivem na rua, não imaginaria que horas depois, iríamos acompanhados de um deles almoçar e fazer um passeio turístico pela região.
Quando saímos do metrô, os moradores da região estavam ali na estação de metrô, todos jururus, se escondendo da chuva. Demos uma volta para reconhecimento do local e paramos em frente a uma lanchonete com salgados que pareciam muito saborosos. Imaginamos os mendigos passando ali e admirando aquelas tentações...
A chuva estava apertando. Voltamos para a estação e lá olhamos para aqueles que milhares de pessoas fazem questão de não ver. Sentados no chão, em cima de colchas e mantas distribuídas pela prefeitura eles disputavam espaço em frente a uma interferência artística de Cláudio Torzi denonimada Colcha de Retalhos. Na parede, os cacos coloridos com mosaicos davam contornos à paisagem compostas por pessoas e elementos da natureza.
É ali, que dezenas de paulistanos se amontoavam tentando juntar suas vidas em torno de um mesmo objetivo: a busca pelo próximo pega. No corre-e-corre das vielas históricas da Sé, vão tentando esquecer o caco de gente em que se transformaram devido ao uso contínuo de drogas e vão fazendo das próprias vidas uma colcha de retalhos.
Num dos cantos, estão Paulista, Mineiro, Di menor e Pequena, membros da maloca da Rua Direita, que já foram chamados de Isaías, Eder, Lucas e Luana em tempos remotos. De volta a estaca zero de suas vidas, sem comida, roupas, familiares ou quaisquer condições mínimas de sobrevivência tentam se reencontrar no lugar que é o marco zero de São Paulo. Ali, onde a cidade começou, eles dizem que formaram uma família. A Sé, no entanto, é nada, é ilusão, ou apenas uma passagem, segundo Isaías, para quem a vida não tem mais sentido e a morte seria apenas um adianto.
Na sujeira e correria daquele lugar surge espaço para paquera. Fabiana olha para Eder, que joga charme para Fabiana, que devolve olhares conquistadores, que cai na conversa de Eder e se beijam. Ele diz que não confia mais nas mulheres, afinal, veio parar em São Paulo após ter sido traído pela esposa em Belo Horizonte. “Elas dão trabalho”, avisa.
Mas escondidos no canto, os dois voltam a ser apenas jovens e, assim como fazem muitos outros da mesma idade, se beijam após minutos de conversa e uma sintonia. Por segundos, se curtem e esquecem que não têm onde tomar banho, que passam frio a noite, que precisam correr da polícia para não apanhar, que a próxima alimentação é sempre incerta...
O rapaz começa a pensar em reconstituir seu coração e a reconstruir sua vida. Ele quer voltar para a capital mineira. Quando isso acontecer, provavelmente, nem irá lembrar de Fabiana. Nas passadas pela Sé, eles apenas ficaram. E, aquilo não pareceu significar muito para ambos.
A conversa tinha rendido e Carol conseguiu boas histórias para rechear a sua matéria. Estávamos famintos. Nem sei que horas eram, mas já devia passar das 15 horas e queríamos comer.
Despedimos-nos dos nossos entrevistados e iríamos alcançar a escada quando fomos abordados. Não sabíamos, mas nós que achávamos que estávamos no papel de observadores, também estávamos sendo observados. Um homem de 43 anos nos interpelou. Ele cheirava pinga e queria contar sua história. Tinha achado interessante o fato de a gente ter conversado com outros moradores de rua.
Foi ali, em pé, no meio do caminho dos passageiros que se dirigem para o metrô que Joel contou como largou a vida estável de arquiteto e virou mendigo. A Sé se transformou em escola. Ele que era da Igreja Congregação Cristã aprendeu a roubar, a bater, a agredir e ser agredido. Não usa outras drogas por que odiou o gosto, mas a pinga também é uma lição dessa nova vida.
Tudo começou com a traição da mulher com quem viveu por mais de 20 anos. Foi pra rua, beber com aqueles que sempre ajudou com moedinhas. O lugar que cruzava todos os dias para ir trabalhar virou moradia. Gastou os R$ 370 que tinha no bolso, os limites dos cartões de crédito do Visa e do Mastercard e nunca mais voltou pra casa.
Após seis meses na rua, os miúdos olhos verdes dão cor a um rosto sem vida e encoberto por uma barba grisalha por fazer. Os cabelos penteados para trás, como um pai de família, davam espaço para uma ferida no alto da testa, resultado de uma queda entre uma bebedeira e outra.
Joel quer sair dessa vida. Ele vai sair. Conta com a ajuda de uma ong e pretende em breve voltar para as antigas atividades. A ex-mulher e os dois filhos não sabem que ele está ali. Essas histórias devem ser contadas num livro que o arquiteto pretende escrever quando a Sé for apenas uma lembrança. Carol está esfomeada e quer almoçar. Ela se despede de Joel e ele se convida para almoçar com a gente. Vamos, na chuva, os três dividindo dois guarda-chuvas, em direção a uma lanchonete escolhida pelo arquiteto, que hoje dorme em uma das entradas do prédio do Tribunal de Justiça.
Comemos aqueles enormes pratos feitos, com bife, arroz, salada, feijão e farofa. Ele prefere o picadinho de carne e mandioca. Comemos rapidamente por conta da fome. Sobra muito arroz, alguma salada e feijão. O garçom nordestino que lembra um ator da novela das 7, que também interpreta um garçom nordestino, recolhe os pratos com as sobras. Apesar da dor no peito, deixamos que ele jogue fora os alimentos, enquanto tentamos nos compadecer pelas histórias daqueles que moram na rua e passam o dia sem comer...
Prefeitura, ongs e membros de igrejas distribuem roupas e comida. Eles passam o dia em busca de dinheiro para complementar a alimentação falha e na tentativa de conseguir saciar o vício em drogas. Joel descobre que não somos de São Paulo e diz que precisamos conhecer o pátio do colégio, onde o Padre Anchieta fundou São Paulo.
A chuva aumentou e nos abrigamos num dos recuos do Tribunal de Justiça, em frente ao Pátio do Colégio, justamente no local onde Joel e os amigos dormem durante a noite. Contemplamos a estátua de uma índia datada de 1925, que marca a construção da cidade. Depoisn corremos para tocar os sinos, como fazem todos os turistas que visitam o local. Ele badala forte e ecoa sobre o som da chuva que cai forte nos nossos guarda-chuvas e encharca os nossos pés...
Voltamos para a Sé já em tom de despedida. Joel é o nosso guia e nos leva antes ao marco zero da cidade.. Esse homem que ensina que estamos sempre a beira do fracasso, que qualquer um de nós pode ser um deles um dia. Deixa a lição de que também podemos abandonar essa vida. Ele diz tão veementemente que irá dar a volta por cima que não tem como não acreditar. Joel fica com nossos telefones e e-mail. Ficamos com o seu contato em Caraguatatuba e com a promessa de que um dia iremos passear em sua casa na praia.
Quando dissemos que poderíamos achar o endereço dele na cidade litorânea pelo Google, ele parece voltar ao passado. Google soa para ele como algo mágico que remete ao passado recente em que trabalhava na Avenida Paulista, mas que não faz parte do cotidiano que leva hoje. Os olhos brilham e refletem uma vida prestes a ser retomada.
A confiança foi mútua. Ele contou sua vida. Nós desarmamos a guarda, almoçamos juntos e tivemos o prazer de conhecer um ponto turístico e histórico de São Paulo na companhia de uma pessoa que está temporariamente em situação de rua, mas que tem tudo para sair dela.
A aventura estava completa. Carol e eu formávamos uma parceria ali. À noite, fomos para um bar brindar essa amizade. Ao invés, de um espaço requintado com música ao vivo e cerveja Original por R$ 6,50, preferimos andar mais umas quadras e parar num botequim no Bairro da Saúde, frequentado por motoboys e com Brahma a R$ 2,80. O lugar era o que menos importava. Interessava a companhia, a conversa e o prazer de ter encontrado alguém com quem dividir histórias de pessoas comuns. Ótimo programa para um sábado chuvoso em São Paulo que proporcionou aventuras e descobertas. Recomendo!
PS: Esse ainda não é um dos textos de diálogos de estranhos prometidos no post passado. Aguarde, aqui, em breve.
Entre Aspas 1: Experimente o caos. Quando algo sai do seu controle o mundo volta a respirar, a confusão pode ser doce, a perfeição pode matar. - John Ulhoa na música Woo! cantada pelo Pato Fu. Contribuição da Ana Lúcia Pires via Twitter num dia em que estava envolto com uma das minhas confusões mentais.
Entre Apas 2: Quando as coisas ficam estranhas, os estranhos viram profissionais. - Hunter Thompson.
Entre Aspas 3: O brasileiro está a beira do sucesso, mas foge do sucesso porque tem alma de vira-lata. Ele detesta o sucesso e prefere ficar roendo a própria solidão com um pedaço de rapadura (...) - Frase que teria sido dita num telefonema do céu feito por Nelson Rodrigues para Arnaldo Jabor.
Entre Aspas 4: Vou escrever a história informal da multidão sem terno. O que têm a dizer, sobre seu trabalho, seus amores, sua alimentação, farras e desgostos [...] A história oral é uma mistura enorme e um caldeirão de coisas ouvidas, um repositório de verborragias, uma coleção de baboseiras, conversas, falas solenes, insanidades verbais, asneiras e absurdos. - Joe Gould.
A minha força física sempre impõe respeito nessas horas (...). Quem nos viu chegar tão tímidos, com medo de abordar as pessoas que vivem na rua, não imaginaria que horas depois, iríamos acompanhados de um deles almoçar e fazer um passeio turístico pela região.
Quando saímos do metrô, os moradores da região estavam ali na estação de metrô, todos jururus, se escondendo da chuva. Demos uma volta para reconhecimento do local e paramos em frente a uma lanchonete com salgados que pareciam muito saborosos. Imaginamos os mendigos passando ali e admirando aquelas tentações...
A chuva estava apertando. Voltamos para a estação e lá olhamos para aqueles que milhares de pessoas fazem questão de não ver. Sentados no chão, em cima de colchas e mantas distribuídas pela prefeitura eles disputavam espaço em frente a uma interferência artística de Cláudio Torzi denonimada Colcha de Retalhos. Na parede, os cacos coloridos com mosaicos davam contornos à paisagem compostas por pessoas e elementos da natureza.
É ali, que dezenas de paulistanos se amontoavam tentando juntar suas vidas em torno de um mesmo objetivo: a busca pelo próximo pega. No corre-e-corre das vielas históricas da Sé, vão tentando esquecer o caco de gente em que se transformaram devido ao uso contínuo de drogas e vão fazendo das próprias vidas uma colcha de retalhos.
Num dos cantos, estão Paulista, Mineiro, Di menor e Pequena, membros da maloca da Rua Direita, que já foram chamados de Isaías, Eder, Lucas e Luana em tempos remotos. De volta a estaca zero de suas vidas, sem comida, roupas, familiares ou quaisquer condições mínimas de sobrevivência tentam se reencontrar no lugar que é o marco zero de São Paulo. Ali, onde a cidade começou, eles dizem que formaram uma família. A Sé, no entanto, é nada, é ilusão, ou apenas uma passagem, segundo Isaías, para quem a vida não tem mais sentido e a morte seria apenas um adianto.
Na sujeira e correria daquele lugar surge espaço para paquera. Fabiana olha para Eder, que joga charme para Fabiana, que devolve olhares conquistadores, que cai na conversa de Eder e se beijam. Ele diz que não confia mais nas mulheres, afinal, veio parar em São Paulo após ter sido traído pela esposa em Belo Horizonte. “Elas dão trabalho”, avisa.
Mas escondidos no canto, os dois voltam a ser apenas jovens e, assim como fazem muitos outros da mesma idade, se beijam após minutos de conversa e uma sintonia. Por segundos, se curtem e esquecem que não têm onde tomar banho, que passam frio a noite, que precisam correr da polícia para não apanhar, que a próxima alimentação é sempre incerta...
O rapaz começa a pensar em reconstituir seu coração e a reconstruir sua vida. Ele quer voltar para a capital mineira. Quando isso acontecer, provavelmente, nem irá lembrar de Fabiana. Nas passadas pela Sé, eles apenas ficaram. E, aquilo não pareceu significar muito para ambos.
A conversa tinha rendido e Carol conseguiu boas histórias para rechear a sua matéria. Estávamos famintos. Nem sei que horas eram, mas já devia passar das 15 horas e queríamos comer.
Despedimos-nos dos nossos entrevistados e iríamos alcançar a escada quando fomos abordados. Não sabíamos, mas nós que achávamos que estávamos no papel de observadores, também estávamos sendo observados. Um homem de 43 anos nos interpelou. Ele cheirava pinga e queria contar sua história. Tinha achado interessante o fato de a gente ter conversado com outros moradores de rua.
Foi ali, em pé, no meio do caminho dos passageiros que se dirigem para o metrô que Joel contou como largou a vida estável de arquiteto e virou mendigo. A Sé se transformou em escola. Ele que era da Igreja Congregação Cristã aprendeu a roubar, a bater, a agredir e ser agredido. Não usa outras drogas por que odiou o gosto, mas a pinga também é uma lição dessa nova vida.
Tudo começou com a traição da mulher com quem viveu por mais de 20 anos. Foi pra rua, beber com aqueles que sempre ajudou com moedinhas. O lugar que cruzava todos os dias para ir trabalhar virou moradia. Gastou os R$ 370 que tinha no bolso, os limites dos cartões de crédito do Visa e do Mastercard e nunca mais voltou pra casa.
Após seis meses na rua, os miúdos olhos verdes dão cor a um rosto sem vida e encoberto por uma barba grisalha por fazer. Os cabelos penteados para trás, como um pai de família, davam espaço para uma ferida no alto da testa, resultado de uma queda entre uma bebedeira e outra.
Joel quer sair dessa vida. Ele vai sair. Conta com a ajuda de uma ong e pretende em breve voltar para as antigas atividades. A ex-mulher e os dois filhos não sabem que ele está ali. Essas histórias devem ser contadas num livro que o arquiteto pretende escrever quando a Sé for apenas uma lembrança. Carol está esfomeada e quer almoçar. Ela se despede de Joel e ele se convida para almoçar com a gente. Vamos, na chuva, os três dividindo dois guarda-chuvas, em direção a uma lanchonete escolhida pelo arquiteto, que hoje dorme em uma das entradas do prédio do Tribunal de Justiça.
Comemos aqueles enormes pratos feitos, com bife, arroz, salada, feijão e farofa. Ele prefere o picadinho de carne e mandioca. Comemos rapidamente por conta da fome. Sobra muito arroz, alguma salada e feijão. O garçom nordestino que lembra um ator da novela das 7, que também interpreta um garçom nordestino, recolhe os pratos com as sobras. Apesar da dor no peito, deixamos que ele jogue fora os alimentos, enquanto tentamos nos compadecer pelas histórias daqueles que moram na rua e passam o dia sem comer...
Prefeitura, ongs e membros de igrejas distribuem roupas e comida. Eles passam o dia em busca de dinheiro para complementar a alimentação falha e na tentativa de conseguir saciar o vício em drogas. Joel descobre que não somos de São Paulo e diz que precisamos conhecer o pátio do colégio, onde o Padre Anchieta fundou São Paulo.
A chuva aumentou e nos abrigamos num dos recuos do Tribunal de Justiça, em frente ao Pátio do Colégio, justamente no local onde Joel e os amigos dormem durante a noite. Contemplamos a estátua de uma índia datada de 1925, que marca a construção da cidade. Depoisn corremos para tocar os sinos, como fazem todos os turistas que visitam o local. Ele badala forte e ecoa sobre o som da chuva que cai forte nos nossos guarda-chuvas e encharca os nossos pés...
Voltamos para a Sé já em tom de despedida. Joel é o nosso guia e nos leva antes ao marco zero da cidade.. Esse homem que ensina que estamos sempre a beira do fracasso, que qualquer um de nós pode ser um deles um dia. Deixa a lição de que também podemos abandonar essa vida. Ele diz tão veementemente que irá dar a volta por cima que não tem como não acreditar. Joel fica com nossos telefones e e-mail. Ficamos com o seu contato em Caraguatatuba e com a promessa de que um dia iremos passear em sua casa na praia.
Quando dissemos que poderíamos achar o endereço dele na cidade litorânea pelo Google, ele parece voltar ao passado. Google soa para ele como algo mágico que remete ao passado recente em que trabalhava na Avenida Paulista, mas que não faz parte do cotidiano que leva hoje. Os olhos brilham e refletem uma vida prestes a ser retomada.
A confiança foi mútua. Ele contou sua vida. Nós desarmamos a guarda, almoçamos juntos e tivemos o prazer de conhecer um ponto turístico e histórico de São Paulo na companhia de uma pessoa que está temporariamente em situação de rua, mas que tem tudo para sair dela.
A aventura estava completa. Carol e eu formávamos uma parceria ali. À noite, fomos para um bar brindar essa amizade. Ao invés, de um espaço requintado com música ao vivo e cerveja Original por R$ 6,50, preferimos andar mais umas quadras e parar num botequim no Bairro da Saúde, frequentado por motoboys e com Brahma a R$ 2,80. O lugar era o que menos importava. Interessava a companhia, a conversa e o prazer de ter encontrado alguém com quem dividir histórias de pessoas comuns. Ótimo programa para um sábado chuvoso em São Paulo que proporcionou aventuras e descobertas. Recomendo!
PS: Esse ainda não é um dos textos de diálogos de estranhos prometidos no post passado. Aguarde, aqui, em breve.
Entre Aspas 1: Experimente o caos. Quando algo sai do seu controle o mundo volta a respirar, a confusão pode ser doce, a perfeição pode matar. - John Ulhoa na música Woo! cantada pelo Pato Fu. Contribuição da Ana Lúcia Pires via Twitter num dia em que estava envolto com uma das minhas confusões mentais.
Entre Apas 2: Quando as coisas ficam estranhas, os estranhos viram profissionais. - Hunter Thompson.
Entre Aspas 3: O brasileiro está a beira do sucesso, mas foge do sucesso porque tem alma de vira-lata. Ele detesta o sucesso e prefere ficar roendo a própria solidão com um pedaço de rapadura (...) - Frase que teria sido dita num telefonema do céu feito por Nelson Rodrigues para Arnaldo Jabor.
Entre Aspas 4: Vou escrever a história informal da multidão sem terno. O que têm a dizer, sobre seu trabalho, seus amores, sua alimentação, farras e desgostos [...] A história oral é uma mistura enorme e um caldeirão de coisas ouvidas, um repositório de verborragias, uma coleção de baboseiras, conversas, falas solenes, insanidades verbais, asneiras e absurdos. - Joe Gould.
quarta-feira, 8 de julho de 2009
Palavras em fúria
Tenho cada vez mais vontade de escrever. De publicar meus textos aqui, de interagir com o mundo. Tenho achado os meus textos cada vez mais objetivos, diretos, secos. Sem vida, ruins e burocráticos. Isso não é para chamar elogios. Não adiantariam. Escrevo para mim, mas o resultado não tem me agradado.
Mesmo assim, há uma fúria em escrever. Boa parte incentivada por Débora e Marina. Amiga recente e amiga antiga que acabam de estrear no mundo dos blogs (leiam em http://imagemeletra.wordpress.com e http://www.serei-breve.blogspot.com) e estão com toda voracidade de escrever. Elas me impulsionam. Assim, como o Hélio, que publica cada vez menos em seu blog, mas guarda em seu arquivo preciosidades adoráveis (www.heliofilhoagain.blogspot.com).
A inspiração vem sempre no mesmo horário: entre 18 horas e 18h30 durante a caminhada de volta para casa depois de um dia de trabalho. Isso não tem preço. Carro nenhum substitui – ainda bem que não pretendo ter um a curto e médio prazo....
Talvez eu devesse escrever sobre pessoas. Essas que a gente vê na rua. Sobre suas conversas. Não grandes diálogos, mas essas conversas entrecortadas que ouvimos enquanto estamos passando por elas na rua. Isso aguça meus sentidos, minha curiosidade. Gay Talese diz que para o jornalista é mais importante curiosidade do que o diploma. Tenho os dois. E ideias também: tenho um projeto de escrever historinhas de ficção (ou não) a partir dessas frases soltas vindas de pessoas estranhas. Não copie a sacada e tenha paciência. Em breve concretizo aqui.
PS: Fiz dois textos sobre São Paulo e não falei do quanto é caro viver aqui? Como assim?! Minha conta já está no vermelho e o mês nem começou. Os dígitos negativos só tendem a aumentar até o fim de julho. Fazer o quê? Vou curtir a doce hipocrisia da classe média e arrotar paulistanesias por aí...
Entre Aspas I: Perguntaram a Picasso sobre a sua inspiração. E ele: ‘Ah, se ela viesse quando estou trabalhando’. Frase sem identificação de autor.
Entre Aspas II: Um bom texto se faz sozinho. Se a mão está feliz, o texto sai bom. Autor desconhecido por mim
Entre Aspas III: Eu escrevo para me livrar de mim mesma. Catherine Millet
Mesmo assim, há uma fúria em escrever. Boa parte incentivada por Débora e Marina. Amiga recente e amiga antiga que acabam de estrear no mundo dos blogs (leiam em http://imagemeletra.wordpress.com e http://www.serei-breve.blogspot.com) e estão com toda voracidade de escrever. Elas me impulsionam. Assim, como o Hélio, que publica cada vez menos em seu blog, mas guarda em seu arquivo preciosidades adoráveis (www.heliofilhoagain.blogspot.com).
A inspiração vem sempre no mesmo horário: entre 18 horas e 18h30 durante a caminhada de volta para casa depois de um dia de trabalho. Isso não tem preço. Carro nenhum substitui – ainda bem que não pretendo ter um a curto e médio prazo....
Talvez eu devesse escrever sobre pessoas. Essas que a gente vê na rua. Sobre suas conversas. Não grandes diálogos, mas essas conversas entrecortadas que ouvimos enquanto estamos passando por elas na rua. Isso aguça meus sentidos, minha curiosidade. Gay Talese diz que para o jornalista é mais importante curiosidade do que o diploma. Tenho os dois. E ideias também: tenho um projeto de escrever historinhas de ficção (ou não) a partir dessas frases soltas vindas de pessoas estranhas. Não copie a sacada e tenha paciência. Em breve concretizo aqui.
PS: Fiz dois textos sobre São Paulo e não falei do quanto é caro viver aqui? Como assim?! Minha conta já está no vermelho e o mês nem começou. Os dígitos negativos só tendem a aumentar até o fim de julho. Fazer o quê? Vou curtir a doce hipocrisia da classe média e arrotar paulistanesias por aí...
Entre Aspas I: Perguntaram a Picasso sobre a sua inspiração. E ele: ‘Ah, se ela viesse quando estou trabalhando’. Frase sem identificação de autor.
Entre Aspas II: Um bom texto se faz sozinho. Se a mão está feliz, o texto sai bom. Autor desconhecido por mim
Entre Aspas III: Eu escrevo para me livrar de mim mesma. Catherine Millet
Paulicéia desvairada
Buzina, urina e cinza. São Paulo não é isso, é isso, é mais que isso. Achei o meu último texto injusto, limitado. Agora toda vez que saio na rua fico com vontade de acrescentar o post anterior. Talvez se escrever sobre o que vejo a cada dia, ao final de um ano, a reunião de todos os meus textos ainda não contemplará o que é São Paulo.
Essa metrópole é muito. É 120 quilômetros por hora, é sempre no superlativo. Para ligar tudo isso, só mesmo o metrô. A melhor invenção do homem na modernidade. Não dá para imaginar a cidade sem ele. No começo, era quase uma aventura. Aquela coisa do caipira que acha o máximo se transportar dessa forma. Pin-dôôôn!!! Hoje corro e entro no vagão mesmo após o apito que avisa que as portas vão se fechar. Agora é cada vez mais corriqueiro utilizar o metrô (mesmo não pegando todo dia), mas ainda acho o máximo atravessar a cidade em 20 minutos...
São 455 anos de história, museus com quadros de Picasso, Van Gogh, esculturas, fotos e tantas outras coisas que tem até espaço, para as próprias pessoas se transformarem em museu (www.museudapessoa.net). São shows, peças e baladas que só acontecem aqui. Filmes culturais exibidos gratuitamente a cada fim de semana em um festival diferente. Tem as pessoas produzidas em série – como dizia a Maureen -, que usam as mesmas roupas e cabelo e se comportam da mesma forma, e os malucos que de tão estranhos, tenho certeza, que são cópias únicas.
A sede das grandes empresas, o local dos meganegócios, as referências e os modelos que são replicados no restante do País. A cidade encanta, atrai e te engole. Te consome e te prende a sua loucura. Afaga ao receber e te dar de bandeja todas as oportunidades ao alcance de suas mãos.
Os paulistanos não são fechados como se pinta por aí. Pelo menos, é bem mais aberto que o campo-grandense. Estão sempre dispostos a dar informação. Até por que aqui ninguém domina a cidade toda e uma hora ou outra sai da condição de informar para pedir informação. Ainda estranho quando pedem informação para mim. É mais estranho ainda quando eu sei responder o destino questionado.
Adoro meu anonimato. Vou ao supermercado, ao cinema, ao shopping, ao bar e não conheço ninguém. Não há semi-conhecidos vigiando meus atos e seguindo meus passos. De onde sai tanta gente às 7 horas na Sé? É impressão minha ou São Paulo está sempre a beira do caos? Como são Paulo consegue dar certo? Que misterioso mecanismo não deixa a cidade degringolar de vez?
São Paulo ás vezes acha que é Paris. Na sofisticação forçada, na maneira de se vestir, no jeito de se comportar... Aqui o amor homossexual é livre e esse tipo de casal está em todos os lugares. Tem sempre alguém te vendendo algo, querendo que você consuma determinado produto.
Como é ruim o atendimento no comércio aqui. O porteiro, o garçom, a atendente da padaria, o cobrador, nenhum deles faz questão de serem simpáticos e bem servir. Os emos estão por toda a parte. O mapa do estado de São Paulo fica sempre sob nossos pés, nas calçadas que num jogo de branco e preto formam o contorno geográfico de SP.
O povo da baixada santista e do ABCD leva até duas horas e meia só para estar aqui diariamente usufruindo desse turbilhão de coisas. Na balada, não estranhe se o telão com profusão de imagens reproduzir cenas dos programas policialescos de fim de tarde. A vida possui outro ritmo. As pessoas são ligadas no 220 watts. É até difícil dormir com tanto estímulo. É mais complicado ainda terminar esse texto com tanto a dizer, com certeza de que amanhã caminharei pelas ruas e perceberei tantas outras coisas que não foram ditas aqui. Mas, por ora, it’s all that.
Essa metrópole é muito. É 120 quilômetros por hora, é sempre no superlativo. Para ligar tudo isso, só mesmo o metrô. A melhor invenção do homem na modernidade. Não dá para imaginar a cidade sem ele. No começo, era quase uma aventura. Aquela coisa do caipira que acha o máximo se transportar dessa forma. Pin-dôôôn!!! Hoje corro e entro no vagão mesmo após o apito que avisa que as portas vão se fechar. Agora é cada vez mais corriqueiro utilizar o metrô (mesmo não pegando todo dia), mas ainda acho o máximo atravessar a cidade em 20 minutos...
São 455 anos de história, museus com quadros de Picasso, Van Gogh, esculturas, fotos e tantas outras coisas que tem até espaço, para as próprias pessoas se transformarem em museu (www.museudapessoa.net). São shows, peças e baladas que só acontecem aqui. Filmes culturais exibidos gratuitamente a cada fim de semana em um festival diferente. Tem as pessoas produzidas em série – como dizia a Maureen -, que usam as mesmas roupas e cabelo e se comportam da mesma forma, e os malucos que de tão estranhos, tenho certeza, que são cópias únicas.
A sede das grandes empresas, o local dos meganegócios, as referências e os modelos que são replicados no restante do País. A cidade encanta, atrai e te engole. Te consome e te prende a sua loucura. Afaga ao receber e te dar de bandeja todas as oportunidades ao alcance de suas mãos.
Os paulistanos não são fechados como se pinta por aí. Pelo menos, é bem mais aberto que o campo-grandense. Estão sempre dispostos a dar informação. Até por que aqui ninguém domina a cidade toda e uma hora ou outra sai da condição de informar para pedir informação. Ainda estranho quando pedem informação para mim. É mais estranho ainda quando eu sei responder o destino questionado.
Adoro meu anonimato. Vou ao supermercado, ao cinema, ao shopping, ao bar e não conheço ninguém. Não há semi-conhecidos vigiando meus atos e seguindo meus passos. De onde sai tanta gente às 7 horas na Sé? É impressão minha ou São Paulo está sempre a beira do caos? Como são Paulo consegue dar certo? Que misterioso mecanismo não deixa a cidade degringolar de vez?
São Paulo ás vezes acha que é Paris. Na sofisticação forçada, na maneira de se vestir, no jeito de se comportar... Aqui o amor homossexual é livre e esse tipo de casal está em todos os lugares. Tem sempre alguém te vendendo algo, querendo que você consuma determinado produto.
Como é ruim o atendimento no comércio aqui. O porteiro, o garçom, a atendente da padaria, o cobrador, nenhum deles faz questão de serem simpáticos e bem servir. Os emos estão por toda a parte. O mapa do estado de São Paulo fica sempre sob nossos pés, nas calçadas que num jogo de branco e preto formam o contorno geográfico de SP.
O povo da baixada santista e do ABCD leva até duas horas e meia só para estar aqui diariamente usufruindo desse turbilhão de coisas. Na balada, não estranhe se o telão com profusão de imagens reproduzir cenas dos programas policialescos de fim de tarde. A vida possui outro ritmo. As pessoas são ligadas no 220 watts. É até difícil dormir com tanto estímulo. É mais complicado ainda terminar esse texto com tanto a dizer, com certeza de que amanhã caminharei pelas ruas e perceberei tantas outras coisas que não foram ditas aqui. Mas, por ora, it’s all that.
quinta-feira, 25 de junho de 2009
Um prisma cinza, multicolorido e multifacetado
São Paulo é uma cidade cinza. De uma cor que vai além do lugar-comum dessa frase. Que possui diferentes tonalidades e matizes. Saindo do bege dos prédios antigos, ao cinza claro do céu em dias de poucas nuvens, passando pela fumaça negra que exala dos ônibus, até chegar ao verde do Ibirapuera. Tudo isso misturado com sons, muito sons. Do trânsito, com seus carros e buzinas, do músico de rua, da serenata, do MP3, da jukebox do barzinho brega, das marteladas da construção, da britadeira que demole...
Da gente agitada que anda depressa, da velhinha de passos miudinhos, mal sustentada por uma bengala... E quantas pessoas são, um mar de gente. Todos muito diferentes entre si, estilosos, moderninhos, engravatados, uniformizados, com camiseta do Corinthians, patricinhas, madames, maloqueiros, moradores de rua e esquisitos. Como tem gente estranha nessa cidade.
Onde acabam os prédios? Porque faz tanto frio mesmo ao meio dia? O sol ultrapassa a camada de ozônio mas não consegue driblar a poluição e atingir nossas cabeças? Por que chove tanto aqui?
Hum...Vai-e-vem. Tic-tac... E tudo se repete. O mesmo cara engravatado, com seu fone de ouvido, correndo atrás do ônibus. A mulher de rosto triste entrando no metrô. O velhinho com cara de Papai Noel me olhando com cara de sedutor (sai pra lá!). A estudante bonitinha carregada de livros e tatuagens falando no celular. O morador de rua contando uma história super elaborada ou simplesmente estendendo a mão. Tá todo mundo querendo ganhar um troco.
Ih! Não é nada disso que eu queria escrever. Esse texto já esteve prontinho aqui na minha cabeça várias vezes... Mas não o escrevi nos momentos certos e meu estranhamento com São Paulo tem diminuído. Tenho entrado no ritmo. O cinza e o assombro dos prédios no entorno do minhocão, meu vizinho incômodo, nem me encantam, nem assustam, como antes. Já viciei na paisagem.
As ruas de Higienópolis, onde moram Jô Soares, FHC e Adriane Galisteu, já não me soam tão surreais. Ando por elas diariamente. As gírias e a maneira de falar, vou incorporando. Não possuo identidade oral e uma colega diz que já tenho sotaque de paulistano. Meu, sei não. Tá maluco?!
Cara, como tem maluco aqui. De todos os jeitos, para todos os gostos... Quase sou atropelado todos os dias. Também sou um pedestre meio abusadinho. Agora mesmo, pensando nesse texto, atravessei a rua sem olhar para os lados. Tô ficando maluco igual a eles.
Os paulistanos não conhecem chipa, sopa paraguaia, bozó, sobá e não sabem que Campo Grande é a capital de Mato Grosso do Sul. Tadinhos, não sabem o que estão perdendo...
Não dá para negar que tudo acontece aqui. São Paulo gera as demandas, produz e reproduz acontecimentos para o resto do País. Enquanto nas franjas do Brasil ‘as coisas’ demoram anos para ser reconhecidas e sempre são consideradas meio exóticas.
Tudo que acontece aqui é destaque.
Seu cinza está longe de ser monótono. É um tradicionalismo moderno, arqueado, pichado com cores vivas, com desenhos surrealistas. E se estiver se sentindo sufocado, vá no sentido oposto ao Carandiru, seguindo até a Liberdade. O Paraíso é bem ali, sempre fica a apenas algumas estações de metrô de onde está...
Formiguinha. É assim que São Paulo vai fazendo você se sentir. Ínfimo diante da grandiosidade da Catedral da Sé, da Sala São Paulo (Antiga Estação Júlio Prestes), dos arranha-céus, ou perante a própria cidade.
Se a cor que marca é o cinza, o som que se destaca é a buzina e o odor predominante é o de urina. Mas há também o cheiro de fritura, de perfume francês, das frutas da quitanda, do cocô de cachorro, de poluição, de maconha... Aqui todo mundo fuma um. Nisso, ainda sou muito campo-grandense...
Se acordar de noite, ouvirá o movimento dos carros acelerando, freando e rumando para algum lugar. Para onde essas pessoas todas caminham? Quem encontrarão? Sabem onde querem chegar? Para onde vai São Paulo?
Rápidos e distraídos, assim caminha a humanidade desta metrópole. Ando pela rua e de repente ouço alguém falando coreano, inglês, espanhol, francês... Um judeu. Eles são tão interessantes, tão diferentes. Dizem que são fechados e preconceituosos. Tenho vontade de conversar com eles e saber o que pensam, como vivem, essas coisas... Outra personagem que me atrai é a Maria, a louca que espalha seus papéis com frases indignadas pelas ruas de Santa Cecília. Ainda vamos trocar umas palavras que serão reproduzidas aqui...
Lá do outro lado tem o Ibirapuera (e quantas coisas mais?), mais ali o ABCD e caminhando mais um pouco chegamos ao litoral. O resto é interior e gira em torno daqui... (Um dia o paulistano vai deixar de pensar assim e descobrir que o Brasil não é apenas a Capital de SP?)
Quem conta as 17 milhões de pessoas que circulam por aqui? Alguém percebeu que agora a cidade tem mais um? Ei, eu não quero ser mais um! Mas não é fácil conseguir um lugar ao sol com tantos dias nublados. Quanto clichê num texto só!?
Então, se Campo Grande é a Cidade Morena, São Paulo é a cidade preta. Pelo menos, essa é a cor do pó que tiramos das nossas casas. Cor da poluição, que também pode entrar na cota do cinza lá do primeiro parágrafo. E se eu acabar esse texto aqui, vão (vou) me criticar que escrevi tudo isso para confirmar o óbvio: São Paulo é uma cidade cinza, mas tão colorida que até confunde e ofusca a visão!
Entre Aspas: Eu tava só, sozinho. Mais solitário que um paulistano... Zeca Baleiro na música Telegrama.
Entre Aspas 2: Sem São Paulo, o meu dono é a solidão. Finho e Ari Baltazar na música São Paulo.
[Outras possibilidades de título para este texto juvenil:
São Paulo é aqui!
Muito além do cinza de São Paulo
São Paulo, essa desconhecida
São Paulo civiliza-se (ótima frase do livro A Arte de Tecer o Presente de Cremilda Medina)]
Da gente agitada que anda depressa, da velhinha de passos miudinhos, mal sustentada por uma bengala... E quantas pessoas são, um mar de gente. Todos muito diferentes entre si, estilosos, moderninhos, engravatados, uniformizados, com camiseta do Corinthians, patricinhas, madames, maloqueiros, moradores de rua e esquisitos. Como tem gente estranha nessa cidade.
Onde acabam os prédios? Porque faz tanto frio mesmo ao meio dia? O sol ultrapassa a camada de ozônio mas não consegue driblar a poluição e atingir nossas cabeças? Por que chove tanto aqui?
Hum...Vai-e-vem. Tic-tac... E tudo se repete. O mesmo cara engravatado, com seu fone de ouvido, correndo atrás do ônibus. A mulher de rosto triste entrando no metrô. O velhinho com cara de Papai Noel me olhando com cara de sedutor (sai pra lá!). A estudante bonitinha carregada de livros e tatuagens falando no celular. O morador de rua contando uma história super elaborada ou simplesmente estendendo a mão. Tá todo mundo querendo ganhar um troco.
Ih! Não é nada disso que eu queria escrever. Esse texto já esteve prontinho aqui na minha cabeça várias vezes... Mas não o escrevi nos momentos certos e meu estranhamento com São Paulo tem diminuído. Tenho entrado no ritmo. O cinza e o assombro dos prédios no entorno do minhocão, meu vizinho incômodo, nem me encantam, nem assustam, como antes. Já viciei na paisagem.
As ruas de Higienópolis, onde moram Jô Soares, FHC e Adriane Galisteu, já não me soam tão surreais. Ando por elas diariamente. As gírias e a maneira de falar, vou incorporando. Não possuo identidade oral e uma colega diz que já tenho sotaque de paulistano. Meu, sei não. Tá maluco?!
Cara, como tem maluco aqui. De todos os jeitos, para todos os gostos... Quase sou atropelado todos os dias. Também sou um pedestre meio abusadinho. Agora mesmo, pensando nesse texto, atravessei a rua sem olhar para os lados. Tô ficando maluco igual a eles.
Os paulistanos não conhecem chipa, sopa paraguaia, bozó, sobá e não sabem que Campo Grande é a capital de Mato Grosso do Sul. Tadinhos, não sabem o que estão perdendo...
Não dá para negar que tudo acontece aqui. São Paulo gera as demandas, produz e reproduz acontecimentos para o resto do País. Enquanto nas franjas do Brasil ‘as coisas’ demoram anos para ser reconhecidas e sempre são consideradas meio exóticas.
Tudo que acontece aqui é destaque.
Seu cinza está longe de ser monótono. É um tradicionalismo moderno, arqueado, pichado com cores vivas, com desenhos surrealistas. E se estiver se sentindo sufocado, vá no sentido oposto ao Carandiru, seguindo até a Liberdade. O Paraíso é bem ali, sempre fica a apenas algumas estações de metrô de onde está...
Formiguinha. É assim que São Paulo vai fazendo você se sentir. Ínfimo diante da grandiosidade da Catedral da Sé, da Sala São Paulo (Antiga Estação Júlio Prestes), dos arranha-céus, ou perante a própria cidade.
Se a cor que marca é o cinza, o som que se destaca é a buzina e o odor predominante é o de urina. Mas há também o cheiro de fritura, de perfume francês, das frutas da quitanda, do cocô de cachorro, de poluição, de maconha... Aqui todo mundo fuma um. Nisso, ainda sou muito campo-grandense...
Se acordar de noite, ouvirá o movimento dos carros acelerando, freando e rumando para algum lugar. Para onde essas pessoas todas caminham? Quem encontrarão? Sabem onde querem chegar? Para onde vai São Paulo?
Rápidos e distraídos, assim caminha a humanidade desta metrópole. Ando pela rua e de repente ouço alguém falando coreano, inglês, espanhol, francês... Um judeu. Eles são tão interessantes, tão diferentes. Dizem que são fechados e preconceituosos. Tenho vontade de conversar com eles e saber o que pensam, como vivem, essas coisas... Outra personagem que me atrai é a Maria, a louca que espalha seus papéis com frases indignadas pelas ruas de Santa Cecília. Ainda vamos trocar umas palavras que serão reproduzidas aqui...
Lá do outro lado tem o Ibirapuera (e quantas coisas mais?), mais ali o ABCD e caminhando mais um pouco chegamos ao litoral. O resto é interior e gira em torno daqui... (Um dia o paulistano vai deixar de pensar assim e descobrir que o Brasil não é apenas a Capital de SP?)
Quem conta as 17 milhões de pessoas que circulam por aqui? Alguém percebeu que agora a cidade tem mais um? Ei, eu não quero ser mais um! Mas não é fácil conseguir um lugar ao sol com tantos dias nublados. Quanto clichê num texto só!?
Então, se Campo Grande é a Cidade Morena, São Paulo é a cidade preta. Pelo menos, essa é a cor do pó que tiramos das nossas casas. Cor da poluição, que também pode entrar na cota do cinza lá do primeiro parágrafo. E se eu acabar esse texto aqui, vão (vou) me criticar que escrevi tudo isso para confirmar o óbvio: São Paulo é uma cidade cinza, mas tão colorida que até confunde e ofusca a visão!
Entre Aspas: Eu tava só, sozinho. Mais solitário que um paulistano... Zeca Baleiro na música Telegrama.
Entre Aspas 2: Sem São Paulo, o meu dono é a solidão. Finho e Ari Baltazar na música São Paulo.
[Outras possibilidades de título para este texto juvenil:
São Paulo é aqui!
Muito além do cinza de São Paulo
São Paulo, essa desconhecida
São Paulo civiliza-se (ótima frase do livro A Arte de Tecer o Presente de Cremilda Medina)]
terça-feira, 19 de maio de 2009
Um domingo para não esquecer
Aquele domingo, 15 de março de 2009, era a estreia de Maria Fernanda em São Paulo (SP). Recém-chegada de Cuiabá, ela desembarcou na Barra Funda, deixou as malas na Saúde, e já almoçava em um restaurante no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista. Hélio, que a acolheu em sua casa inicialmente, e eu, éramos as companhias.
Três amigos que haviam se conhecido em Campo Grande, no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2003-2006). Tínhamos muito papo para botar em dia. Depois do almoço, fizemos um giro pela Livraria Cultura, com direito a ver a cantora Pitty e seu namorado (o baterista do Fresno ou NX Zero, não é a mesma coisa?).
Ainda encontraríamos Maureen, outra amiga dos tempos de faculdade, que passava férias por aqui. Passeamos pela Paulista e resolvemos parar no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Não no museu propriamente dito, mas ali no vão do Masp, nos bancos que têm como encosto a vista para o centro paulistano. Ali, encontraríamos Maureen. Foram quase duas horas de espera. Ou mais. Ou menos. Na verdade, o tempo é relativo. E nesse tempo aconteceram muitas coisas, diversas situações, várias risadas...
Um japonês estranho, com cara nerd, veio nos abordar. Acompanhado por uma menina com cara de universitária - sua partner, provavelmente – ele começou a conversar. Fez um preâmbulo monótono e incompreensível. Não sabíamos onde queria chegar. Gargalhávamos de seu jeito atrapalhado e ele se perdia ainda mais nas palavras. Maria Fernanda, a quem se dirigia, pediu para que fosse mais direto. Ele foi: queria dar um DVD com dois filmes, um deles um documentário chamado “Muito além do cidadão Kane”.
Pronto. Tínhamos voltado aos tempos de faculdade em que discutíamos teoria da conspiração, o superpoder da mídia e de como ela domina as pessoas... Tema já um pouco gasto nas nossas conversas... Por isso, Maria Fernanda queria se livrar daquele DVD. O momento oportuno apareceria logo em seguida.
Prestávamos atenção nas pessoas em nossa volta. Hippies, neohippies, alternativos, descolados, moradores de rua, tinha de tudo. Muitos fumavam maconha, alguns cigarro, outros tentavam cantar. Casais de todo tipo circulavam. Um homem charmoso brincava com o cachorro. Ele chamou a atenção das meninas. Todas queriam brincar com seu cachorro para conquistarem o dono. Ele passou muito tempo ali. Até que um cara chegou, brincou com o cachorro, limpou o cocô que havia feito no chão e saiu com o companheiro que havia arrebatado o coração de boa parte da ala feminina ali presente...
Maureen não chegava. Já tínhamos falado de tudo. Estávamos fazendo um exercício de que a cada mulher loira que despontava na Avenida Paulista a gente dizia que era Maureen em alguma versão (hippie, colegial, velha, cafona...etc). Dava até para ser um filme. “Todo mundo pode ser Maureen Mattiello”.
Era um domingo típico em São Paulo, com máxima de 25 graus e sol escasso entre nuvens. As abordagens não haviam parado. Um cara veio nos vender o “Jornal da Causa Operária”. Eu achei que ele estava dando, assim como o outro que deu DVD, e fui logo colocando o jornal na mochila. O camarada não queria socializar o conhecimento comunista assim de graça. Esclareceu que o jornal custava R$ 3.
Eu devolvi e questionei se não tinha uma vaga na redação do “Causa Operária” (estava na fase em que pedia emprego até para as pedras da rua). Ele disse que o jornal era colaborativo e começou com o papo de sociedade igualitária, manipulação da mídia sobre a crise econômica mundial e.... deu a deixa para Maria Fernanda presenteá-lo com o DVD do documentário do “Cidadão Kane”. Eu fiquei meio atônito. Queria assistir ao documentário. Ela brincava que o japonês que tinha dado o DVD, na verdade, queria nos persuadir a participar de uma seita misteriosa, ou ainda, que queria nos vender algo. É possível... Aqui nesta cidade, tudo é possível.
O vão do Masp estava mais sujo do que da última vez que eu estive ali, há uns dez meses. A grama havia crescido entre as lajotas de concreto que formam o piso. Havia muita sujeira também. Barracas de uma feira eram desmontadas e davam lugar às pessoas. Hélio contava a história da arquiteta que projetou o local e que teve de tirar o último pilar que sustentava o prédio na fase da construção. Os pedreiros que trabalhavam na obra não tiveram coragem de fazê-lo, segundo conta a lenda urbana.
Quem conhece, percebe que o Masp é sustentado por colunas laterais que parecem apenas tocar suas bordas. E continua ali de pé. O vão é o efeito formado pela obra inaugurada pela arquiteta Lina Bo, em 1947, segundo consta no primeiro resultado que vi em uma rápida pesquisa no Google.
Uma senhora de cerca de 60 anos irrompe esse cenário. Gordinha, ela veste roupa de malha que marca seu corpo arredondado. Tem cabelos brancos e curtos e se dirige a nós, os primeiros que aparecem em sua direção. Faz um sinal ou fala algo, questionando se tínhamos maconha. Não tínhamos. Com tique de quem fuma há anos, ela se dirige a outros jovens ali perto e sacia sua vontade...
Maureen finalmente surge. Na sua versão blusa rosa, despojada para passeio com amigos, ela nos sufoca em um abraço de urso, daqueles que só bons amigos sabem dar. Acho que era ela. Pelo menos a moça que nos abraçou e passou o resto do tempo conosco podia ser a Maureen se não fosse ela... Maria Fernanda matou saudades da voz dela. Eu de seu abraço. Hélio do seu jeito blebas de ser.
Uma cena onírica, só para citar um termo que um professor usou para descrever uma cena que reproduzi em um texto, mas que eu nunca soube o real significado. Aqueles amigos de outrora, de hoje e de sempre, ali reunidos. Eles já não eram mais os mesmos, o cenário tão pouco, mas era aquela mesma sintonia de antes que os unia agora. Novas situações que os levavam às mesmas gargalhadas intermitentes de quando eram apenas jovens universitários sonhadores.
Hoje, jornalistas em início de carreira, os amigos celebravam aquele encontro tipicamente paulistano. Compunham uma cena única, com personagens singulares, contrastantes, tão heterogêneos como todos os elementos que compõem essa grande metrópole. Era o meu segundo domingo em São Paulo. Foi como se fosse o primeiro, ou melhor, como se fosse um programa de sempre. Um dia para ser sempre lembrado.
Entre Aspas: Há profundezas que só as combinações do imprevisível permitem sondar. Daniel Piza
Três amigos que haviam se conhecido em Campo Grande, no curso de Jornalismo da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (2003-2006). Tínhamos muito papo para botar em dia. Depois do almoço, fizemos um giro pela Livraria Cultura, com direito a ver a cantora Pitty e seu namorado (o baterista do Fresno ou NX Zero, não é a mesma coisa?).
Ainda encontraríamos Maureen, outra amiga dos tempos de faculdade, que passava férias por aqui. Passeamos pela Paulista e resolvemos parar no Museu de Arte de São Paulo (Masp). Não no museu propriamente dito, mas ali no vão do Masp, nos bancos que têm como encosto a vista para o centro paulistano. Ali, encontraríamos Maureen. Foram quase duas horas de espera. Ou mais. Ou menos. Na verdade, o tempo é relativo. E nesse tempo aconteceram muitas coisas, diversas situações, várias risadas...
Um japonês estranho, com cara nerd, veio nos abordar. Acompanhado por uma menina com cara de universitária - sua partner, provavelmente – ele começou a conversar. Fez um preâmbulo monótono e incompreensível. Não sabíamos onde queria chegar. Gargalhávamos de seu jeito atrapalhado e ele se perdia ainda mais nas palavras. Maria Fernanda, a quem se dirigia, pediu para que fosse mais direto. Ele foi: queria dar um DVD com dois filmes, um deles um documentário chamado “Muito além do cidadão Kane”.
Pronto. Tínhamos voltado aos tempos de faculdade em que discutíamos teoria da conspiração, o superpoder da mídia e de como ela domina as pessoas... Tema já um pouco gasto nas nossas conversas... Por isso, Maria Fernanda queria se livrar daquele DVD. O momento oportuno apareceria logo em seguida.
Prestávamos atenção nas pessoas em nossa volta. Hippies, neohippies, alternativos, descolados, moradores de rua, tinha de tudo. Muitos fumavam maconha, alguns cigarro, outros tentavam cantar. Casais de todo tipo circulavam. Um homem charmoso brincava com o cachorro. Ele chamou a atenção das meninas. Todas queriam brincar com seu cachorro para conquistarem o dono. Ele passou muito tempo ali. Até que um cara chegou, brincou com o cachorro, limpou o cocô que havia feito no chão e saiu com o companheiro que havia arrebatado o coração de boa parte da ala feminina ali presente...
Maureen não chegava. Já tínhamos falado de tudo. Estávamos fazendo um exercício de que a cada mulher loira que despontava na Avenida Paulista a gente dizia que era Maureen em alguma versão (hippie, colegial, velha, cafona...etc). Dava até para ser um filme. “Todo mundo pode ser Maureen Mattiello”.
Era um domingo típico em São Paulo, com máxima de 25 graus e sol escasso entre nuvens. As abordagens não haviam parado. Um cara veio nos vender o “Jornal da Causa Operária”. Eu achei que ele estava dando, assim como o outro que deu DVD, e fui logo colocando o jornal na mochila. O camarada não queria socializar o conhecimento comunista assim de graça. Esclareceu que o jornal custava R$ 3.
Eu devolvi e questionei se não tinha uma vaga na redação do “Causa Operária” (estava na fase em que pedia emprego até para as pedras da rua). Ele disse que o jornal era colaborativo e começou com o papo de sociedade igualitária, manipulação da mídia sobre a crise econômica mundial e.... deu a deixa para Maria Fernanda presenteá-lo com o DVD do documentário do “Cidadão Kane”. Eu fiquei meio atônito. Queria assistir ao documentário. Ela brincava que o japonês que tinha dado o DVD, na verdade, queria nos persuadir a participar de uma seita misteriosa, ou ainda, que queria nos vender algo. É possível... Aqui nesta cidade, tudo é possível.
O vão do Masp estava mais sujo do que da última vez que eu estive ali, há uns dez meses. A grama havia crescido entre as lajotas de concreto que formam o piso. Havia muita sujeira também. Barracas de uma feira eram desmontadas e davam lugar às pessoas. Hélio contava a história da arquiteta que projetou o local e que teve de tirar o último pilar que sustentava o prédio na fase da construção. Os pedreiros que trabalhavam na obra não tiveram coragem de fazê-lo, segundo conta a lenda urbana.
Quem conhece, percebe que o Masp é sustentado por colunas laterais que parecem apenas tocar suas bordas. E continua ali de pé. O vão é o efeito formado pela obra inaugurada pela arquiteta Lina Bo, em 1947, segundo consta no primeiro resultado que vi em uma rápida pesquisa no Google.
Uma senhora de cerca de 60 anos irrompe esse cenário. Gordinha, ela veste roupa de malha que marca seu corpo arredondado. Tem cabelos brancos e curtos e se dirige a nós, os primeiros que aparecem em sua direção. Faz um sinal ou fala algo, questionando se tínhamos maconha. Não tínhamos. Com tique de quem fuma há anos, ela se dirige a outros jovens ali perto e sacia sua vontade...
Maureen finalmente surge. Na sua versão blusa rosa, despojada para passeio com amigos, ela nos sufoca em um abraço de urso, daqueles que só bons amigos sabem dar. Acho que era ela. Pelo menos a moça que nos abraçou e passou o resto do tempo conosco podia ser a Maureen se não fosse ela... Maria Fernanda matou saudades da voz dela. Eu de seu abraço. Hélio do seu jeito blebas de ser.
Uma cena onírica, só para citar um termo que um professor usou para descrever uma cena que reproduzi em um texto, mas que eu nunca soube o real significado. Aqueles amigos de outrora, de hoje e de sempre, ali reunidos. Eles já não eram mais os mesmos, o cenário tão pouco, mas era aquela mesma sintonia de antes que os unia agora. Novas situações que os levavam às mesmas gargalhadas intermitentes de quando eram apenas jovens universitários sonhadores.
Hoje, jornalistas em início de carreira, os amigos celebravam aquele encontro tipicamente paulistano. Compunham uma cena única, com personagens singulares, contrastantes, tão heterogêneos como todos os elementos que compõem essa grande metrópole. Era o meu segundo domingo em São Paulo. Foi como se fosse o primeiro, ou melhor, como se fosse um programa de sempre. Um dia para ser sempre lembrado.
Entre Aspas: Há profundezas que só as combinações do imprevisível permitem sondar. Daniel Piza
sexta-feira, 8 de maio de 2009
Os mistérios por trás da escrita
A dor e a delícia de escrever vão além da nossa percepção. É um momento de extravasar. É materializar sentimentos em palavras, que ficarão lá estáticas. Dando significados e sentidos que vão sendo lidos e interpretados de diferentes formas por quem as lê. Vamos sendo julgados por ela. Taxados, presos num rótulo e classificados pelos textos que construímos e vão de certa forma nos reconstruindo. Tenho necessidade de escrever, de extravasar. É quando me sinto vivo, ultravivo. É um desafio fazê-lo. Não sobra tempo, não há momento certo, não tem como planejar.
Depois vem o desafio de dar uma forma bonita, de publicar aqui, de parecer inteligente, de tentar arrancar comentários positivos. É como se a escrita tivesse que ser ordenada para agradar aos outros. O português tem que ser perfeito (um jornalista não pode escrever errado), a concordância tem que estar em todas as frases, elas tem que ter sentido. Como dar sentido à ideias que vêm desconexas, que tem como único objetivo confundir e embaralhar os pensamentos criando dúvidas durante o caminho?
O desafio fica maior quando sabemos que nossos espaços de publicação estão lá numa rede mundial, facilmente acessada por qualquer pessoa. Assim, vamos querendo fazer sentido, ser eternizados, ser aplaudidos. A naturalidade vai se perdendo junto com a assiduidade dos textos. É difícil não se reprimir e passar a controlar os impulsos de publicar textos como este. A quem ele interessa? A mim, aos meus sentimentos, à minha consciência. É para isso que serve esse blog também. À minha necessidade de escrever, de externar sentimentos, de extravasar. Sem necessidade de ser sério, coerente, de fazer sentido. Dos julgamentos, fica apenas aquela velha máxima de que só quem arrisca a dar a cara a tapa é criticado.
Pois, aqui estou eu. Disposto a dividir coisas com quem se dispõe a frequentar meu blog. Cheio de coisas para contar, para descobrir, para aprender e compartilhar.
*Este texto, quase auto-análise era só pra dizer: voltei a ter muita vontade de escrever. Tenho planos de fazer isso nos próximos dias e retomarei as publicações aqui com frequência.
Entre Aspas: Existem momentos em que o que escrevo me surpreende, me puxa para não sei onde, em outros momentos fico dias parada em um mesmo lugar, trabalhando um detalhe, procurando ouvir o que é importante ali. Acho que o que me move a escrever é esse prazer que custa esforço. Beatriz Bracher.
Até, abraço!
Depois vem o desafio de dar uma forma bonita, de publicar aqui, de parecer inteligente, de tentar arrancar comentários positivos. É como se a escrita tivesse que ser ordenada para agradar aos outros. O português tem que ser perfeito (um jornalista não pode escrever errado), a concordância tem que estar em todas as frases, elas tem que ter sentido. Como dar sentido à ideias que vêm desconexas, que tem como único objetivo confundir e embaralhar os pensamentos criando dúvidas durante o caminho?
O desafio fica maior quando sabemos que nossos espaços de publicação estão lá numa rede mundial, facilmente acessada por qualquer pessoa. Assim, vamos querendo fazer sentido, ser eternizados, ser aplaudidos. A naturalidade vai se perdendo junto com a assiduidade dos textos. É difícil não se reprimir e passar a controlar os impulsos de publicar textos como este. A quem ele interessa? A mim, aos meus sentimentos, à minha consciência. É para isso que serve esse blog também. À minha necessidade de escrever, de externar sentimentos, de extravasar. Sem necessidade de ser sério, coerente, de fazer sentido. Dos julgamentos, fica apenas aquela velha máxima de que só quem arrisca a dar a cara a tapa é criticado.
Pois, aqui estou eu. Disposto a dividir coisas com quem se dispõe a frequentar meu blog. Cheio de coisas para contar, para descobrir, para aprender e compartilhar.
*Este texto, quase auto-análise era só pra dizer: voltei a ter muita vontade de escrever. Tenho planos de fazer isso nos próximos dias e retomarei as publicações aqui com frequência.
Entre Aspas: Existem momentos em que o que escrevo me surpreende, me puxa para não sei onde, em outros momentos fico dias parada em um mesmo lugar, trabalhando um detalhe, procurando ouvir o que é importante ali. Acho que o que me move a escrever é esse prazer que custa esforço. Beatriz Bracher.
Até, abraço!
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